Plinio Corrêa de Oliveira

Deus cobra humildade de seus privilegiados

Amanhã será festa da dedicação das Basílicas de São Pedro e São Paulo Apóstolos.

Basílica de São Pedro (foto Paulo R. Campos – ABIM)

Como são as obras de Deus a respeito das almas

Quanto à dedicação das Basílicas dos Apóstolos São Pedro e São Paulo, sabemos que, embora São Pedro seja Príncipe dos Apóstolos, o apostolado de São Paulo em Roma foi de tal maneira importante que marcou a cidade. E realmente há em Roma aquela grande Basílica de São Paulo Fora dos Muros [foto abaixo], que foi danificada em parte durante um incêndio no século XIX e posteriormente foi reconstruída.

Essas Basílicas de São Pedro e São Paulo são, por assim dizer, as basílicas que marcam mais em Roma. E cuja dedicação se celebra. O que poderíamos dizer a respeito disso?

Seria interessante considerarmos como são as obras de Deus e como são pouco geométricas. Com efeito, se poderia dizer que São Pedro, sendo Príncipe dos Apóstolos, São Paulo não teria muita coisa que fazer na “Cidade Eterna”. E segundo os estilos funcionais de hoje, São Pedro até deveria ter um olhar avesso para com São Paulo, o qual aparecia com todo seu brilho, toda sua fogosidade, toda sua capacidade. A atuação de São Paulo em Roma quase que obscureceria um pouco a figura de São Pedro, que talvez fosse uma pessoa menos inteligente do que São Paulo.

Igualmente poder-se-ia dizer que São Pedro ficava um pouco obscurecido por São João de um lado e por São Paulo de outro. São João porque era o bem amado; São Paulo era o Apóstolo das Gentes…  De maneira que São Pedro ficaria assim meio imprensado, meio comprimido precisamente entre os dois outros. E essa espécie de co-principado de São Paulo na própria Roma indica como esses desígnios da Providência a respeito das almas, como isso é algo rico, cheia de aspectos inteiramente insuponíveis.

Ora, isso é o contrário ao espírito do mundo moderno. Os senhores tomem São Pedro e imaginem o que ele poderia pensar ao ver Nosso Senhor tomar um discípulo e dizer: “Tu és meu bem amado”. E isso a tal ponto que, na Quinta-feira Santa, o Apóstolo que pergunta a Nosso Senhor quem é o traidor que está na Santa Ceia, é São João que pergunta. E isto ele o faz encostando afetuosamente o ouvido dele no peito de Jesus, perguntando: “Senhor, quem é?”

Entretanto, quando se trata de designar quem será o sucessor de Nosso Senhor na terra, São João é posto de lado. Segundo a mentalidade do mundo de hoje, o resultado em São João seria pensar a respeito de Nosso Senhor: “Ingrato. Ele não sabe reconhecer minha amizade… O mais dedicado a Ele sou eu, no entanto Ele pega por capricho um outro que nomeia para sucessor, e é um tipo que Ele mesmo já previu que ia renegá-Lo… Mas apesar disso, porque não queria reconhecer meus méritos, nomeia a outro…”

Nessa mesma ótica, a reação de São Pedro seria de pensar: “Mas que negócio é esse aqui?! Eu sou o homem de confiança dEle e o bem amado é outro? Ele não diminui meu prestígio, fazendo entender que tem preferência por um que Ele não nomeou como chefe? Como isso me arranha, como me tritura…! Então, como é essa história? Eu sou o chefe do Colégio Apostólico e para saber quem é o apóstolo traidor eu tenho que perguntar para um outro, por que esse outro é o preferido dele? Que incongruência existe dentro disso?…”

E agora São João e São Pedro em face de São Paulo. Judas trai, enforca-se; elege-se regularmente um outro apóstolo para ir para o lugar de Judas. Está bem. Depois disso tudo vem o 13º Apóstolo que, vamos dizer, entrou de paraquedas, entrou pela claraboia, que ninguém supunha possível…

Porém o mais curioso é o seguinte: Nosso Senhor vai para o deserto e dá toda uma instrução a São Paulo, sozinho. Explica toda a religião etc., etc. Ou seja, Nosso Senhor já na Sua vida gloriosa aparece e ensina tudo para São Paulo. De maneira que este último é Apóstolo como os outros, tem as mesmas virtudes que os outros, mas ele ouviu tudo em outro lugar, em outra ocasião, em outras circunstâncias, de um modo completamente diferente e só vinte anos depois toma contato com o chefe do Colégio dos Apóstolos e faz um apostolado brilhantíssimo!…

Quer dizer, se se for considerar o que fizeram os outros doze Apóstolos e depois o que fez o décimo terceiro, o Apóstolo das gentes… Por exemplo, um São Tomé. Vai para a Índia, não consegue nada. Outro Apóstolo vai para a Etiópia, não consegue nada. Vão para cá e para lá, os Apóstolos designados para pregarem o Evangelho e converterem, mas que conseguem muito poucos frutos… Enquanto esse que entrou por último como Apóstolo, consegue tudo… Não só. Depois como que se senta ao lado do Príncipe dos Apóstolos, e brilha como sol na cidade onde se acha São Pedro…

E mais ainda: São Paulo e São Pedro são martirizados no mesmo dia. Quer dizer, ainda aquela espécie de paridade entre os dois. Por quê? Porque Deus, em relação aos dons que prodigaliza, aí sim não gosta de espírito de privilégios ou de “propriedade privada”, no seguinte sentido: ninguém é o senhor feudal de Deus! Ninguém pode dizer: “eu sou dono de Deus. Deus a mim concedeu isso, aquilo, aquilo outro, deu tudo quanto podia dar; portanto, meus caros, entendam: aqui estão as chaves e olha lá, hein?! Porque foi concedido a mim e está acabado!” Quer dizer, isso Deus não tolera, Deus não suporta.

As obras de Deus exigem simplicidade, pedem da parte de todos os seus privilegiados muita e verdadeira humildade. E é isso que essa festa da dedicação simultânea das duas Basílicas deve nos lembrar.

Devemos compreender e amar a pluralidade dos dons de Deus

Não devemos ter um espírito exclusivista, no seguinte sentido da palavra: é preciso obedecer à voz da Providência, que às vezes pede que a gente não se meta onde não foi chamado. Mas outras vezes pede… É preciso saber qual é o momento de proceder de um modo ou de outro. Quando a gente percebe que uma iniciativa é soprada pelo bom espírito, pela virtude, que a pessoa faz aquilo com desapego, com vontade de servir, deve-se compreender que isso é legítimo, que é uma atitude direita, que se deve admitir isso, etc., porque assim são as obras de Deus. Nesse campo não existem “propriedades privadas fechadas”, mas elas são abertas nesse sentido da palavra.

Há uma outra coisa também, que é compreendermos a pluralidade de dons.

Deus, dentro do próprio movimento da Contra-Revolução, dá muitos dons ora a uns, ora a outros, e a outros ainda. Os que estão colocados em situação de mando devem preservar a sua autoridade, remetendo naturalmente a Deus, mas sabendo utilizar a sua autoridade para realçar a diversidade de dons. Porque exatamente seu papel é de estar continuamente chamando atenção para a pluralidade de dons que Deus dá dentro do movimento. Mas, sobretudo, há um dever que é muito importante: ter muita alegria pelos dons que Deus fez aos outros.

Muitas vezes se vê que Deus faz a um outro um dom que não faz à gente. Em vez de ficar “nodoso”, embirrado, triste, aborrecido, ou ficar em uma pseudo-indiferença, sentir uma verdadeira alegria. “Que felicidade aquele estar fazendo tal coisa de que eu não sou capaz! Que felicidade que aquele outro faça tal coisa para a qual eu não tenho tempo! Que felicidade que aquele outro brilhe mais do que eu e faça mais ainda por Deus, de maneira que Deus é mais bem servido!”

Quer dizer, essa ausência de apego pessoal é uma coisa importantíssima! Quem faz apostolado pode-se deixar levar muitas vezes, quero crer que subconscientemente, pelo espírito seguinte: “Eu vou mostrar para essa gente agora, que eu recebi a incumbência de fazer tal coisa, e vou fazê-la esplendidamente, para entenderem de uma vez por todas, que foi o chapa aqui o que faz e é um colosso! Eles agora vão compreender o que eu posso!”

Então, por exemplo, dão para alguém a incumbência de lavar esse tecido. “Ah! Isso vai parecer da cor do veludo feito pelo Lisio [outrora, era uma grande produtora de tecidos magníficos na Itália, mas com a crise econômica e outros fatores adversos no século XXI, teve que reduzir muito suas atividades, n.d.c.]. Porque quando eu lavo, é bom que se compreenda que eu sou arqui-lavador e nada fica tão bem assim! Eu vou aproveitar a ocasião para deixar bem claro como eu sou. E para Fulano, sobretudo, que não me cumprimenta com a devida atenção”. E para Sicrano que faz ares de que não sabia de suas qualidades: “Ele não sabia… Fique sabendo então que eu sou o tal colosso! E para Beltrano que diz sempre uma coisa engraçada, me corta sempre a palavra! Eu vou dizer uma coisa bem interessante, mas ele me corta a palavra. Agora, eu vou fazer ele ficar sem palavras. Assim Dr. Plinio vai perguntar: José Fernando, você comprou um pano novo? E então vem a resposta: Não, Dr. Plinio, isso aqui é o veludo que dei para o Fulano lavar. Ó Fulano, como você lava bem esse pano! Desse jeito, aquele, aquele e aquele outro pensarão: se ele lava tão bem esse pano, que outras coisas ele fará! Ele é capaz de governar um império, porque ele lava um pano, como é que governará um império? Um homem sobremaneira extraordinário!

Então, esses estados de espírito temos que aprender a ver em nós. Por exemplo, São João na Ilha de Patmos, onde teve suas revelações fantásticas e escreveu o Apocalipse etc. Patmos nunca foi uma grande ilha. Era uma ilhota pouco mais ou menos como… eu não quero nomear nenhum país… Em Patmos São João ouve falar de São Pedro que governa o globo inteiro, e ele está naquela ilhota. E pensa: “Que bom que Deus pôs meu irmão Pedro como base do edifício da Santa Igreja! Que felicidade que ele esteja governando tudo! E olhem com que santidade ele faz! Ele é respeitado por todos. Vou mandar a Pedro minhas homenagens para acrescer a de todos os outros”. Que alegria! Isso é a reação verdadeira!

São Pedro e São João ouvem falar de São Paulo e de suas conquistas apostólicas pelo mundo: “Mas que satisfação! O que nós não conseguimos fazer, ele faz!” Epístola para São Paulo, felicitando calorosamente…

São Paulo e São Pedro ouvem falar de São João: “Para se ver a Nosso Senhor é assim: a gente estar perto dele e aí é que se sente a presença de Nosso Senhor Jesus Cristo. O que é o discípulo bem amado! Nada como ser o discípulo bem amado!” Assim é o desinteresse dos santos, louvando-se uns aos outros pela glória de Deus. E é tão diferente do que muitas vezes pode acontecer na miséria humana…

Quando ouvimos contar do sucesso no apostolado de um irmão nosso, nós temos a mesma alegria? Temos a mesma compreensão? Quando há um sucesso no nosso apostolado, nós fazemos um ato de vontade para não pensar no nosso sucesso? O sucesso inebriante de apostolado depois dele ter sido realizado, é um pensamento altamente perigoso.

Outro exemplo: fazer uma conferência bem sucedida e ficar pensando: “Homem, a minha conferência esplendida! Aquela passagem, eu estava prevendo que ia ser aplaudida, como de fato foi aplaudida. Bem, reconheçamos que não foi tanto aplaudida quanto devia ser, porque é um povo baixo aquele. De modo que eu falei em um tom superior e eles não compreenderam. Aliás, é próprio da mediocridade não perceber o mais alto voo do talento… Mas algo sempre eles percebem. E depois aquela outra passagem, a propósito da qual uma senhora veio me cumprimentar e me disse que depois de Bossuet ninguém como eu faço conferência igual… Coitada dessa mulher! Ela falou que depois de Bossuet ninguém como eu, mas deveria ter dito depois de Santo Agostinho, de São João Crisóstomo! Porque, afinal de contas…” Isso a gente deve evitar!

Depois das conferências, depois das aulas, depois das reuniões, depois de ter dado um jornal falado, não estar remoendo os brilharecos que fez, nem estar “vendendo o pelo do urso antes de matá-lo”. Trabalhando, pensar: “Isso, quando der resultado, vai ser uma trombada. Deve dar alegria aos outros. Se não der alegria, ficarei triste pelos outros e não por mim. Mas procurei ter servido exclusivamente a Nosso Senhor.”

      E aqui está a sinfonia ou a pluralidade das atividades de apostolado.

Ainda ontem estava rezando lá fora e o coro – com o agrado para mim de sempre – estava cantando e eu pensando: aquelas várias vozes que se levantam e que representam cada uma o seu papel, é como um apostolado de vários talentos, das várias capacidades, das várias dedicações que se levantam e compõem uma harmonia.

O que diríamos se houvesse uma única voz e fosse de tom ré; ou então fosse mi; o do fica pesadão; o lá é inexpressivo… E houvesse uma guerra entre as notas… O que diríamos disso? É uma cacofonia! Ora, nós somos as notas de uma música. Devemos nos combinar para nos integrarmos, em vez de entrar esse exclusivismo. Dessa harmonia exatamente é que São João, São Pedro e São Paulo deram exemplos tão admiráveis, que na noite de hoje é cabível que se relembre isso. Vamos então encerrar.

 

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