Formação: “Desalienação”, a chave para se entender o progressismo (2)

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A trama progressista dentro da Igreja vem de longe. Condenado por São Pio X, o Modernismo toma outras roupagens. Publicamos a seguir trechos de comentários do Prof. Plinio, em Catolicismo, 1959 — sobre os Grupos Proféticos, sua doutrina igualitária, seu conceito imanente da divindade.

Continuamos a matéria do Post anterior https://ipco.org.br/formacao-insubordinacao-desalienacao-fio-de-meada-dos-misterios-profeticos/

Escrevia o Prof. Plinio: “O conceito-chave da doutrina dos “grupos proféticos” é, a nosso ver, a alienação. Assim, tomamo-la como ponto de partida e como fio condutor desta exposição. O leitor verá como, desta forma, a matéria se torna límpida e acessível.”

Essa é a maneira dessacralizada de celebrar a Missa, propugnada pelos “grupos proféticos” da Igreja-Nova

II. O sumpremo objetivo “profético”: uma Igreja não alienante nem alienada

(…)

2ª desalienação da Igreja: em relação ao sobrenatural e ao sagrado

A Religião Católica “constantiniana”, coerente com sua doutrina sobre a transcendência de Deus, admite o sobrenatural e com ele o sacral. Ora, o conceito de uma ordem sobrenatural, superior à natural, de uma esfera religiosa e sagrada superior à esfera temporal, importa em evidentes desigualdades. Daí provem, ipso facto, múltiplas alienações. Na Igreja-Nova, desalienante e desalienada, só se admite como realidade o natural, o temporal, o profano. É uma Igreja dessacralizada. Daí múltiplas conseqüências:

  • a. É óbvio, antes de tudo, que a Igreja-Nova está toda posta na ordem natural. Sua missão salvífica, ela a exerce induzindo os fiéis a se engajarem, a se comprometerem na propulsão do bem-estar terreno.
  • b. A noção da Igreja como Sociedade distinta do Estado e soberana na esfera espiritual perde, pois, toda a sua razão de ser. A Igreja dessacralizada é, dentro da sociedade temporal, um grupo privado como outro qualquer, cuja missão é de estar na vanguarda das forças que promovem a evolução da humanidade.
  • c. A vida sacramental também muda de conteúdo. Os Sacramentos têm um sentido simbólico meramente natural. A Eucaristia, por exemplo, é um ágape em que confraternizam irmãos em torno de uma mesma mesa. E por isto deve ser recebida como um alimento qualquer, no decurso de uma refeição comum.
  • d. A condição sacerdotal não mais se deve considerar sagrada, já que a sacralidade morre com a morte de todas as alienações.
  • No modo de se apresentarem, de se trajarem e viverem, os Sacerdotes devem ser como quaisquer leigos, já que a esfera do sagrado, a que pertenciam, desapareceu, e eles se devem integrar sem reservas na esfera temporal. Analogamente se devem portar os Religiosos, se ainda houver os três votos de obediência, pobreza e castidade na Igreja desalienante e desalienada.
  • e. Não há razão para que existam edifícios destinados só ao culto, já que morreu o sobrenatural, o sagrado. Neste mundo evoluído, adulto, infenso às alienações, o culto do Deus imanente e difuso na natureza pode ser feito em qualquer local profano. Se houver edifícios destinados ao culto, sejam eles utilizados também para fins profanos, de sorte a evitar a distinção alienante entre espiritual e temporal.

3ª desalienação da Igreja: em relação à Fé, à Moral, ao Magistério e à ação evangelizadora

Pachamama nos jardins do Vaticano, 2019 = Dessacralização da ação evangelizadora da Igreja
  • a. A Igreja-Nova é uma Igreja pobre. E isto, antes de tudo, no sentido espiritual da palavra. Uma das riquezas da Igreja “constantiniana” está em dizer-Se Mestra infalível. A Igreja-Nova não se pretende Mestra. Nem trata os fiéis como discípulos. Pois isto seria alienante.
  • Cada qual recebe carismas do Espírito Santo, que lhe fala diretamente na alma. E é nessa voz interior, da qual pode tomar consciência, que cada um deve crer.
  • Isto que é verdadeiro para as matérias de fé, o é também para a moral. Cada qual tem a moral que lhe sugere sua consciência.
  • Em suma, o homem vive do testemunho interior dos carismas, dos quais toma consciência. A Igreja-Nova não possui, assim, um patrimônio de verdades, de que imagine ter o privilégio. E nisto está o principal aspecto de sua pobreza.
  • b. Daí decorre também outra forma de pobreza. A Igreja-Nova não tem fronteiras. Ela abriga os homens de qualquer crença, desde que trabalhem ativamente para a verdadeira Redenção, que é o progresso terreno. Ela não é, pois, como um reino espiritual com fronteiras doutrinárias definidas, mas algo de etéreo, de fluido, que se confunde mais ou menos com qualquer igreja. Em outros termos, a Igreja-Nova é super-ecumênica.
  • c. Outro título de pobreza da Igreja-Nova é que, não sendo Mestra, e sendo super-ecumênica, não precisa mais de obras de apostolado. Assim, as universidades católicas, as escolas católicas, as obras de assistência católicas só conservam sua razão de ser sob condição de não visarem qualquer fim apostólico, nem terem qualquer sujeição alienante e antiecumênica à Igreja: em outros termos, se renunciarem à nota católica, e assumirem um caráter totalmente profano, secular e laico.
  • d. A pobreza da Igreja-Nova também está em que, sendo a cultura e a civilização valores da ordem temporal e terrena, e não pretendendo mais a Igreja exercer qualquer magistério nem moldar a si a sociedade temporal, não se pode mais falar em cultura e civilização cristãs. A cultura e a civilização do homem evoluído e adulto receberam sua carta de alforria: estão dessacralizadas e desalienadas da Religião.
  • e. Ainda mais, a Igreja-Nova é pobre no sentido material do termo. Ela não só recusa as Catedrais e Basílicas, em que o sacral estadeava triunfalisticamente a sua superioridade, mas, existindo na era dos pobres, rejeita qualquer riqueza, a qualquer título que seja.
  • f. Por fim, a Igreja-Nova é pobre porque é a Igreja dos pobres. Inimiga de todas as alienações, ela se sente adversa a todos os alienantes, de qualquer tipo e ordem, e conatural com a causa de todos os alienados. Por isto, os explorados e alienados da sociedade atual têm na Igreja-Nova o seu lugar próprio. E ela é por essência a defensora deles contra os detentores de autoridade ou superioridade terrena. Por razões análogas em sentido inverso, a Igreja “constantiniana” está acumpliciada, por sua própria natureza, com todas as oligarquias alienantes e exploradoras.

4ª desalienação da Igreja: em relação à Hierarquia Eclesiástica

Uma vez que a autoridade é sempre alienante, é mister que não exista. E se existir, será somente na medida em que faça a vontade dos alienados, que assim escapam – pelo menos em larga medida – ao jugo da alienação.

Na Igreja “constantiniana”, a Hierarquia está investida do tríplice poder de ordem, de magistério e de jurisdição. A Igreja-Nova, esvaziando de conteúdo sobrenatural os Sacramentos, que estão sob o poder da Hierarquia de ordem, negando o Magistério, tinha em rigor de lógica que atentar contra a Hierarquia de jurisdição.

Assim, a existência de um Papa, Monarca espiritual rodeado do Colégio dos Príncipes eclesiásticos, que são os Bispos – dos quais cada qual é, na respectiva Diocese, como que um monarca sujeito ao Papa – não é compatível com a Igreja-Nova. Como também não podem subsistir os Párocos, que regem, sob as ordens do Bispo, porções do rebanho diocesano.

Cumpre, para desaliená-la inteiramente da Hierarquia, democratizar a Igreja. É preciso constituir, nEla um órgão representativo dos fiéis que exprima o que os carismas dizem no íntimo da consciência destes. Órgão eletivo, é claro, e que represente a multidão. Órgão que faça pesar decisivamente sua vontade sobre os Hierarcas da Igreja, os quais, também é claro, deverão, daqui por diante, ser eletivos. Em nosso entender, em rigor de lógica, esta reforma da estrutura da Igreja pleiteada pelo “movimento profético” só pode ser vista como uma etapa da realização cabal dos objetivos dele. Pois a desalienação completa envolveria, em estágio ulterior, a abolição de toda a Hierarquia.

Considerando, entretanto, tão somente a reforma que os “grupos proféticos” agora explicitamente pleiteiam, podemos dizer que ela transformaria a Igreja numa monarquia como a da Inglaterra, isto é, um regime efetivamente democrático, dirigido fundamentalmente por uma Câmara popular eletiva, onipotente, no qual se conserva pró-forma um Rei decorativo (no caso da Igreja-Nova, o Papa), Lords sem poder efetivo (os Bispos e Párocos), e uma Câmara alta de aparato (o Colégio Episcopal). E ainda, para que a analogia entre o regime da Inglaterra e a Igreja-Nova fosse completa, seria preciso figurar um Rei e Lords eletivos (isto é, Papa e Bispos eleitos pelo povo).

Para completar o quadro da democratização, cumpre acrescentar que, na Igreja-Nova, as paróquias seriam grupos fluidos e instáveis, e não circunscrições territoriais definidas como soem ser hoje. Esta fluidez, pensamos, também se estenderia, em rigor de lógica, às Dioceses. A Hierarquia já não seria na Igreja senão um nome vão.

5ª desalienação da Igreja: em relação ao Poder Público

Esta forma de desalienação já está incluída, a títulos diferentes, nos itens anteriores. A Igreja “constantiniana”, que tem um governo próprio e soberano em sua esfera, deseja a união e a colaboração com o Poder Temporal. Nisto, de algum modo Se alienaria a ele, e de algum modo o alienaria a Si.

A Igreja-Nova, por todos os motivos expostos, declara não precisar do Poder Público, nem desejar com ele relações de Poder a Poder. A mútua alienação terá, deste modo, cessado.Em conclusão

Assim em conclusão, a Igreja-Nova será inteiramente desalienada, e deixará inteiramente de ser alienante.

III – Só a luta de classes conseguirá a desalienação dentro da Igreja

1 . a Hierarquia ajudou a execução do programa “profético” de desalienação; porém, não pode dar o passo final

A desalienação total, pela qual a Igreja “constantiniana” Se deve metamorfosear em Igreja-Nova, poderão os “grupos proféticos” esperá-la da Hierarquia?

Tendo em vista que membros desta têm apoiado muitas medidas desalienantes, dir-se-ia que sim. Tanto mais quanto os “grupos proféticos” afirmam que a obra do Concílio Vaticano II teve um caráter desalienante, isto é, dessacralizante e igualitário, que representa um primeiro passo – se bem que tímido – no caminho de mais radicais transformações.

Entretanto, sem desdenhar o proveito que asseveram auferir da exploração de atitudes de certos Hierarcas e das decisões do II Concílio Vaticano, os “grupos proféticos” julgam que a desalienação completa só poderá vir de uma luta de classes entre o Episcopado e o Clero de um lado, e os leigos de outro.

A razão disto, alegam eles, está em que de um Hierarca simpático à desalienação se podem esperar concessões que lhe reduzam os poderes; mas, por mais simpático que seja, não há como esperar dele uma renúncia completa, que eqüivaleria a um suicídio.

2 . O meio para chegar à vitória da revolução desalienante na Igreja: a insurreição do laicato

Assim, cumpre conscientizar o laicato para que, em luta com os Hierarcas, exija as reformas de estrutura na Igreja, que A democratizem. Em suma, o remédio está na luta de classes dentro da Igreja.

Essa luta deve ser feita por etapas:

  • a – campanha de descrédito contra a Igreja “constantiniana”;
  • b – insuflação do desejo das reformas de estrutura da Igreja;
  • c – agitações, greves;
  • d – capitulação da Hierarquia e implantação das reformas.”

Fonte: https://www.pliniocorreadeoliveira.info/1969_220_221_CAT_IDOC_Grupos_Profeticos.htm#.YeHzMP7MKMo

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No próximo Post veremos:

IV – Os “grupos proféticos”, artífices da luta de classes pela desalienação da Igreja

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