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O Papa Francisco e Kirill, patriarca da igreja cismática ortodoxa russa, assinaram no dia 12 p.p. uma declaração conjunta em Havana. À direita, alguns agentes de tal igreja russa e o ditador de Cuba, Raul Castro (à esq. da bandeira da ilha-presídio).

1. O Papa Francisco e Kirill, patriarca ortodoxo de Moscou, em documento conjunto assinado em Havana [foto acima], tentam justificar o local escolhido alegando, entre outras coisas, que Cuba seria“um símbolo de esperança no Novo Mundo”.

2. Sinceramente, não se compreende em que sentido uma ilha-prisão comunista, com quase 60 anos de sinistra existência, poderia ser considerada como símbolo de “esperança”.

3. Com efeito, trata-se de uma prisão subjugada pelos mesmos carcereiros que perseguiram os anticomunistas com centros de “reeducação”, cárceres, e até mesmo com o famoso “paredón” de fuzilamento para se livrar de jovens católicos, muitos dos quais — é de justiça lembrá-los — morriam bradando “Viva Cristo Rei! Abaixo o comunismo!” É a mesma prisão que, com o consentimento de bispos submissos aos carcereiros e o silêncio da própria diplomacia vaticana, continua perseguindo os católicos por meio de torniquetes legais e constitucionais iníquos, que qualificam como “punível” (Constituição, art . 62) o simples fato de se opor em nome da fé, ainda que verbalmente, aos objetivos do comunismo. Uma prisão que atualmente combina repressão institucional com sofisticados métodos policialescos de repressão física e psicológica.

Francisco-e-Kirill-3-247x3004. Francisco, em posterior conversa com os jornalistas, disse que o texto assinado por ambos não é uma “declaração política”. Entretanto, pelo menos no que se refere à Cuba comunista, a própria declaração se encarregou de politizar esse delicado tema.

5. O pontífice disse ainda aos jornalistas que não queria sair do país sem antes manifestar um “sentimento de agradecimento” ao ditador Castro, elogiando sua suposta“disponibilidade ativa”. E concluiu afirmando que, “se continuar assim, Cuba será a capital da unidade”. Trata-se de uma conclusão particularmente incompreensível, pelo fato de a ilha-presídio ter sido e continuar sendo a capital da desunião e da discórdia no seio das Américas, mediante a constante difusão de germes revolucionários.

6. No tocante à Cuba comunista, tanto a declaração conjunta quanto as mencionadas palavras de Francisco não fazem senão aumentar e prolongar o sofrimento dos desditosos habitantes da ilha-prisão, que presenciam a incompreensível benevolência dos Pastores para com os lobos cubanos. Os defensores da liberdade no mundo inteiro têm o direito e até o dever de apontar publicamente essa situação paradoxal, de modo invariavelmente respeitoso, mas firme.

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Declaração Francisco-Kiril: ucranianos sentem-se “traídos” pelo Vaticano

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1. Na sexta-feira, 12 de fevereiro 12 último, em Havana, o Papa Francisco e Kirill, o patriarca ortodoxo de Moscou, assinaram uma extensa declaração [foto acima] com pontos delicados e complexos concernentes à Ucrânia.

2. Numa afirmação muito do agrado do patriarca de Moscou, qualifica-se como “inaceitável” o uso de supostos “meios desleais” ou “incorretos” que, segundo os signatários, teriam sido utilizados na Ucrânia para incentivar os fiéis a mudarem da Igreja Ortodoxa dependente do Kremlin para a Igreja Católica dependente de Roma (cf. edições oficiais vaticanas em português, inglês e italiano; a edição oficial em espanhol usa a expressão “meios incorretos”).3. A acusação de alegada “deslealdade” ou “incorreção” é de inusitada gravidade e inclusive injusta, porque censura os católicos ucranianos “uniatas” [unidos novamente a Roma] que durante décadas resistiram espiritualmente à influência pró-comunista do Patriarcado de Moscou e que aderiram ao Catolicismo após a queda do império soviético. Poucas linhas mais abaixo, a declaração conjunta repisa a dura e injusta censura, condenando com todas as letras o “método do ‘uniatismo’ do passado”.

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No centro, Dom Sviatoslav Shevchuk, Arcebispo de Kiev, numa procissão do rito da Igreja Greco-católica da Ucrânia, unida a Roma

4. Não é de estranhar que em muitos católicos ucranianos a declaração conjunta tenha causado comoção. É o que reconheceu Dom Sviatoslav Shevchuk [foto ao lado], Arcebispo de Kiev e Primaz da Igreja Greco-católica da Ucrânia, unida a Roma: “Sem dúvida, o texto da declaração conjunta causou uma profunda decepção em muitos fiéis da nossa Igreja e em cidadãos conceituados da Ucrânia”. O Arcebispo Shevchuk acrescentou que muitos desses ucranianos entraram em contato com ele para lhe manifestar que “se sentem traídos pelo Vaticano”, que ficaram decepcionados com o sistema de “meias verdades” do documento e até mesmo veem nesse texto conjunto “um respaldo indireto da Santa Sé à agressão russa contra a Ucrânia”.

5. “De acordo com nossa experiência, acumulada ao longo de muitos anos, pode-se dizer que quando o Vaticano e Moscou organizam encontros, ou assinam textos conjuntos, é difícil esperar algo de bom”, afirmou o Arcebispo católico de Kiev. E acrescentou, entre outros conceitos: “Desejaria fazer notar que, na minha condição de Primaz de nossa Igreja, eu sou membro oficial do Conselho Pontifício para a Promoção da Unidade dos Cristãos, nomeado por Bento XVI. Entretanto, ninguém me convidou para manifestar meu pensamento, com o qual, basicamente, como já ocorreu em outras ocasiões, eles falam sem nos representar, sem nos dar oportunidade de falar”.

6. A seguir, links para acessar o texto completo em inglês de duas entrevistas concedidas pelo Arcebispo católico Sviatoslav Shevchuk. A primeira delas foi concedida poucos dias antes da assinatura em Havana do documento conjunto, e a segunda, um dia depois. Devido à importância do tema, recomendamos vivamente a leitura de ambas as entrevistas.

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Francisco, México e Cuba: dois pesos e duas medidas

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1. O Papa Francisco, em suas viagens a Cuba (setembro/2015 e fevereiro/ 2016), e na realizada ao México (também neste mesmo mês), parece ter empregado dois pesos e duas medidas para avaliar as situações políticas, religiosas e sociais nos dois países. [à esq. em Cuba com o ditador Raul Castro; à dir. no México com o presidente Enrique Peña Nieto].

2. A respeito, é suficiente comparar, ainda que brevemente, suas atitudes nos quatro seguintes níveis: ante os respectivos líderes políticos e religiosos, os trabalhadores e os prisioneiros.

* Com os ditadores cubanos, o Pontífice manteve as maiores amabilidades e fez os maiores elogios, como foi analisado em vários editoriais de “Destaque Internacional” — que podem ser lidos no sitewww.cubdest.org. Com os líderes políticos mexicanos, no entanto, manifestou frieza e censura, direta ou indiretamente. Em seu último discurso no México, ele chegou a se referir a Nínive, “uma grande cidade que estava se autodestruindo, fruto da opressão e da degradação, da violência e da injustiça.”Por mais que esses adjetivos possam ser aplicados a aspectos importantes da vida da sociedade mexicana, esse país pelo menos possui um sistema democrático, onde se respeita a propriedade privada e a livre iniciativa, a liberdade de expressão, a liberdade religiosa, a liberdade de circulação etc. Em Cuba, pelo contrário, a autodestruição, a opressão, a violência e a injustiça que havia em Nínive, são intrínsecas a uma sociedade comunista; e não existe nenhuma das liberdades mencionadas que vigoram no México, porque se encarregou de sufocá-las um poder central omnímodo a serviço de uma ideologia intrinsecamente perversa.

* Na ilha-prisão, o Pontífice elogiou e solidarizou-se com os bispos católicos cubanos que, como se sabe, têm uma lamentável trajetória de colaboração com o regime castrista. No México, pelo contrário, ele chegou a fazer críticas públicas àqueles que denominou “bispos de Estado”, devido a sua aproximação com o governo.

* Em Cuba, inexplicavelmente, ele deixou os prisioneiros à espera, especialmente os presos políticos e de consciência, o que criou profunda dor e consternação. No México, em sentido contrário, ele visitou uma prisão e cumprimentou presidiários e presidiárias.

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Nas fotos de duas cidades, seria desnecessário indicar qual é a capital mexicana e qual a capital cubana…

* Na ilha-cárcere não disse nenhuma palavra, sequer tangencialmente, sobre o trabalho escravo e a miséria social, que são frutos intrínsecos do sistema comunista. No México, em sentido oposto, em reunião com empresários, condenou severamente a “escravidão” e censurou duramente, pela enésima vez, os sistemas econômicos baseados na propriedade privada.

* Especialmente simbólico foi o episódio de sua repreensão, com uma violência verbal sem precedentes em um Pontífice, dirigida a um jovem que, certamente de modo imprudente, ansioso em cumprimentá-lo, puxou seu braço. Mas além da censurável atitude juvenil, chamou a atenção, e inclusive causou espanto em muitos, a desproporcionada reação papal contra o jovem mexicano [foto]. Francisco, enquanto gesticulava e pronunciava suas palavras de censura, parecia descontrolado. O jovem imprudente foi esmagado e estigmatizado pelo Papa Francisco talvez para o resto de sua vida por um ato juvenil irrefletido, enquanto os líderes comunistas cubanos, que pisoteiam voluntária e sistematicamente os valores católicos, somente ganharam sorrisos e elogios.

3. Os dois pesos e duas medidas de Francisco em Cuba e no México constituíram novos exemplos de lamentáveis conotações políticas de seu pontificado.


Este texto, traduzido do original espanhol por Paulo Roberto Campos