Em 5 de outubro de 1789, mulheres revolucionárias marcham de Paris a Versailles para atacar o palácio e aprisionar o rei e a rainha

Em fins do século XVIII, já cansado e envelhecido, o protestantismo se mostrava falho em força de expansão, minado por dentro pelos progressos crescentes da dúvida e do ceticismo; e atingiam um ápice as tendências liberais e igualitárias, que conservavam na França uns restos de vida, graças principalmente ao apoio do Estado.

O humanismo e a Renascença estavam mortos havia muito tempo, e no protestantismo tudo estava gasto. Mas o espírito igualitário que os suscitara — e era isso o que esses três movimentos tinham de mais dinâmico e fundamental — a eles sobrevivera e estava mais forte do que nunca. Esse espírito haveria de lançar a França, e depois a Europa inteira, num cataclismo liberal e igualitário.

De fato, o sentido igualitário, anti-monárquico e anti-aristocrático da Revolução Francesa é a projeção, na esfera civil, da tendência igualitária que levou o protestantismo a rejeitar os elementos aristocrático e monárquico da hierarquia eclesiástica. O fermento comunista, que trabalhava a extrema esquerda da Revolução, e que acabou por se explicitar em movimentos como o de Babeuf, não era senão o símile laico dos movimentos comunistas, como o dos irmãos Morávio, que brotaram daquilo que se poderia chamar a extrema-esquerda protestante. A completa laicização do Estado, a mascarada greco-romana, a contínua evocação das repúblicas do paganismo clássico, tudo isso mostrava na Revolução Francesa o efeito do humanismo, da Renascença e do enciclopedismo.

Cumpre insistir. O protestantismo, o humanismo e a Renascença não foram senão aspectos que o espírito anárquico e igualitário tomou em sua longa trajetória histórica. Esses aspectos se extinguiram, em parte porque o espírito que os suscitara, destruidor por excelência, os aniquilara no seu próprio foco. A Revolução Francesa não foi senão um aspecto novo e ainda mais enérgico desse mesmo espírito.

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Trecho extraído do Auto-retrato filosófico de Plinio Corrêa de Oliveira, cuja íntegra está disponível em www.catolicismo.com.br (edição de outubro/1996). Fonte: Revista Catolicismo, Nº 822, Junho/2019.

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