Quem se dispuser a ler as notícias sobre o primeiro aniversário do terremoto ocorrido no Haiti pode ser tentado a cair em depressão. Elas descrevem uma verdadeira catarata de desastres.

No devastador terremoto do Haiti, os mortos — que inicialmente somavam 220 mil — subiram para “mais de 316.000 pessoas, segundo o último balanço tornado público pelo primeiro-ministro Jean-Max Bellerive. Os feridos ascenderam a 350.000 e mais de 1,5 milhão de pessoas ficaram sem teto”.(1) “No tempo que se emprega para mudar a luz de um semáforo caíram 40% das casas, o parlamento, o palácio presidencial, sete ministérios, a grande maioria das escolas, vários hospitais, a catedral, a penitenciária e a sede da ONU”.(2) “Cerca de 60% dos escritórios do governo, inclusive o palácio presidencial, veio abaixo com o terremoto”.(3)

Contudo, a imensa maioria das vítimas morreu fora das instalações oficiais, e “não se pode senão alegrar pelo fato de que o desmoronamento dos ministérios e do palácio presidencial tenha causado menos de uma dezena de mortos. É necessário igualmente constatar que em um país que já estava em crise, o Estado não trabalha”.(4)

Obviamente o terremoto deixou muitas ruínas, situação que pouco mudou um ano depois. Com efeito, lamentou a organização humanitária Oxfam, nesse lapso de tempo “só 5% dos escombros foram retirados, muitas ruas continuam interditadas em boa parte dos mais de 20 milhões de metros cúbicos de escombros. Em Porto Príncipe, capital do país, pode-se observar que uma rua já livre de escombros amanhece repleta deles no dia seguinte, porque os moradores continuam limpando com os próprios meios suas casas destruídas”.(5)

Ruínas da catedral um ano depois do terremoto

A maioria dos edifícios religiosos da capital — entre os quais 220 igrejas e capelas — vieram abaixo. Além do arcebispo, morreram soterrados numerosos sacerdotes e seminaristas. “O Núncio comunica que Porto Príncipe está completamente devastado. A catedral, o arcebispado, todas as grandes igrejas e todos os seminários foram reduzidos a escombros”.(6)

Nada organizado, exceto o crime

Um ano depois, a catedral continua cheia de escombros. Por que os católicos não se organizam e a limpam? Simplesmente porque no Haiti nada se organiza e, quando por fim se limpa o terreno, aparecem novos corpos: “cinco dias atrás, outros três corpos foram retirados das ruínas no centro de Porto Príncipe”.(7)

Durante a Revolução Francesa, os republicanos de Paris enviaram para o Haiti dois representates–Léger-Félicité-Sonthonax e Etiene Polverel–, os quais em nome do governo revolucionário francês, transformaram a colônia num barril de pólvora. O resultado foi um massacre.

De fato, a única atividade organizada é o crime. Nos dias que se seguiram ao terremoto, bandos de criminosos obrigavam as crianças a invadir casas prestes a cair, para roubar objetos valiosos. Mais de 400 mil pessoas ainda vivem em acampamentos improvisados(8), sendo que somente sete dos mais de mil acampamentos dispõem de proteção policial permanente. “As violações multiplicaram-se desde que o desfazimento e o descontrole reinam no país. Bandos armados atacam à vontade, sabendo que há muito poucas possibilidades de serem levados diante da justiça”, comenta o último relatório da Anistia Internacional. A organização denunciou que a maioria das vítimas é violada por bandos de homens armados e por jovens que vagueiam pelos superlotados acampamentos após o anoitecer. “As poucas mulheres que denunciaram violações afirmam que lhes foi dito que não se podia fazer nada, ou que a polícia lhes pediu dinheiro, que elas não têm, para investigar os delitos”.(9)

A segurança é precariamente mantida pelos 12 mil soldados da ONU, tendo o Haiti sido colocado no 177º lugar entre os 179 países no índice de corrupção de 2008 da Transparency International. Segundo ela, não se trata de depredações de estrangeiros sem entranhas, mas de uma depravação dos habitantes locais: “Para dizê-lo simplesmente, para o Haiti acabaram as escusas para seus fracassos no exato momento em que a comunidade internacional ficou sem ter mais idéias de como ajudar”.(10)

Realmente, a atuação do governo haitiano não poderia ser pior. “O surrealismo chegou ao extremo de o Congresso haitiano tampouco ter aprovado a lei que deve marcar as novas regras de construção no país, o que impede de se poder construir qualquer coisa com cimento”(11). “Prometido em abril último, o código da construção não foi publicado até agora. A ONG britânica Oxfam diz que foram construídos apenas 15% dos alojamentos temporários necessários”.(12)

Caos inclusive nas eleições

A ausência de legislação traz também todo tipo de problemas sobre o que fazer com os órfãos, os quais continuam aumentando incrivelmente: “Outro fator que contribui para aumentar o número de órfãos é a quantidade de crianças que estão nascendo. De acordo com um relatório do Fundo de Populações da ONU, a taxa de nascimentos do país triplicou desde o terremoto. Muitas mães se dão alta nos hospitais horas ou minutos após o parto, indo embora sem as crianças, caso os médicos ou as enfermeiras não estejam no quarto”. (13)

Como se todos esses desastres fossem poucos, surgiram ainda outros. Uma epidemia de cólera já causou 3.890 mortos e 194 mil infectados, um furacão ameaçou trazer mais mortes e, em vez de se concluir as eleições das novas autoridades, as mesmas estão paradas por corrupção política. “Dada uma abundância de problemas no Haiti — o primeiro dos quais é a sua reconstrução — a última coisa de que necessitam [os haitianos] é uma prolongada paralisia política. Mas é isso exatamente o que estão sofrendo desde 28 de novembro, quando umas caóticas eleições nacionais tiveram como resultado verossímeis reportagens de fraudes da parte do governo e um resultado duvidoso sobre quem vai ser candidato a presidente”.(14)

Léger Félicité Shonthonax

Origem da crise na Revolução Francesa

A esta altura, mais de um leitor estará se perguntando quem pode ter sido culpado por tantas desgraças que se seguiram ao terremoto. A resposta surpreenderá a mais de um: a grande responsável foi uma sinistra “bruxa”, nascida em 1789, chamada Revolução Francesa.

Com efeito, o Haiti, conhecido antigamente como São Domingos, era uma rica, organizada e próspera colônia francesa. Mas, durante a Revolução, os republicanos de Paris enviaram para lá dois representantes — Léger-Félicité Sonthonax e Etienne Polverel —, os quais, em nome do governo revolucionário francês, tiraram a felicidade da população e transformaram a colônia num barril de pólvora. Assim, atiçaram a luta dos brancos entre si, dos mulatos contra os brancos, dos negros livres contra os escravos, permitindo que o poder acabasse caindo nas mãos do “povo”. De um “povo” cujas duas terças partes pelo menos eram compostas de negros nascidos na África, muitos dos quais já eram escravos antes de serem enviados à América.

O resultado de semelhante disparate foi um massacre, pois os novos senhores do país não tinham a menor idéia de como se organiza uma sociedade civilizada, nem de que, para se viver nela, é por vezes necessário ceder muitos interesses pessoais em benefício do bem comum.

Contrariamente ao Brasil, cujo marco inaugural foi a Santa Missa, o Haiti é o único país do mundo nascido de uma rebelião de escravos tendo como ponto de partida uma cerimônia vudu. Esta religião, de práticas satânicas, foi importada da África e reconhecida pela Constituição de 1987 como religião nacional. Ainda hoje ela é praticada ao menos pela metade da população.(15) Curiosamente, muitos haitianos jogam a culpa pela epidemia de cólera nos feiticeiros do vudu, 45 dos quais foram mortos (16), “com pedras ou cortados a machado antes de serem queimados nas ruas”.(17)

O que acontece a um país quando este é dominado durante décadas por pessoas sem nenhuma preparação para governar? Um rosário de misérias. “Quando o terremoto destruiu o Haiti, ele já era vítima de calamidades crônicas. Era então o país mais pobre do hemisfério ocidental, com 9,8 milhões de habitantes concentrados num território de 28.000 km quadrados. A metade dos haitianos vivia com menos de um dólar por dia, 200 mil pessoas eram contaminados pela Aids, quatro de cada cinco não tinham acesso a instalações sanitárias, 25% das crianças de 5 a 14 anos trabalhavam, e de cada duas, só uma ia à escola”.(18)

Comenta o diário parisiense “Le Monde”: “Inclusive antes do terremoto, envios de dinheiro do exterior e ajuda internacional eram responsáveis por 30% de sua economia. O país é conhecido como a república das Organizações não-governamentais, uma vez que cerca de três mil funcionam lá”.(19)

O Haiti é “um país onde o saneamento não chega a 80% de seus habitantes e os córregos são lodaçais de excrementos, infecções e lixo. Onde 40% das famílias não têm acesso à água potável e as crianças têm que caminhar diariamente de três a cinco quilômetros com garrafões na cabeça. Onde 97% da superfície estão desflorestadas e as árvores que sobram têm seus dias contados como carvão vegetal, terreno preparado para a erosão, inundações e demais desastres ‘naturais’”.(20)

O chefe da missão da ONU no Haiti, o franco-guatemalteco Edmond Mulet, bom conhecedor do país, apresenta uma visão terrível da realidade haitiana: “86% dos que receberam educação média, secundária ou mais, partiram porque o futuro deles estava em outra parte. O que ficou aqui é muito medíocre”. E comentando a rápida deterioração sofrida pelo país nas últimas cinco décadas, acrescenta: “Em 1958 vinham mais turistas do que à República Dominicana. Vinham os cruzeiros. Aqui os Clinton passaram sua lua-de-mel. Tudo isso acabou, indubitavelmente destruído pela corrupção, pela elite e por grupos que só pensam no próprio interesse. 85% da educação estão em mãos privadas. Tudo é péssimo, salvo exceções como algumas ordens religiosas. Há no Haiti 278 universidades. Eu decido fundar uma universidade, dou títulos e ninguém me diz nada”. Há alguns meses, “a França ofereceu ao Haiti 40 bolsas para advogados, a fim de formá-los como juízes e magistrados. Apresentaram-se 365 candidatos. Sabe quantos passaram nos exames? Nenhum. Alguns não sabem nem ler nem escrever, mas têm o título de advogado de alguma universidade”.(21)

* * *

Que futuro aguarda o Haiti? Ninguém o sabe, nem quer predizê-lo. Mas, para pôr-se de pé, uma sociedade moralmente destruída como esta necessita de apoio externo. E não basta um apoio ocasional, mas uma verdadeira ação em profundidade, uma ação civilizadora como a que realizava a Igreja antes que a Revolução Francesa a impedisse de terminar seu trabalho. Uma ação que produza a conversão das almas e com isso a sua regeneração.

Assim como as doutrinas revolucionárias de então iniciaram as desgraças no solo haitiano, as doutrinas revolucionárias de hoje as fazem prosseguir. Se ocorrer a alguém dizer que um país como o Haiti ganharia em voltar a ser colônia durante algum tempo, até criar as condições para ser independente e guiar seu próprio destino, será “linchado” pela mídia, já que semelhante “blasfêmia política” hoje não é permitida.

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Notas:
1. “El Mundo”, Madri, 13-1-11
2. “El Mundo”, 12-1-11
3. “El País”, Madri, 12-1-11
4. “Le Monde”, Paris, 13-12-10
5. “La Nación”, Buenos Aires, 12-1-11
6. “Agência Zenit”, 14-1-10
7. “CNN”, 12-1-11
8. “El Mundo”, 13-1-11
9. “El Mundo”, 12-1-11
10. “The Wall Street Journal”, EUA, 11-1-11
11. “El Mundo”, 7-1-11
12. “Le Monde”, 13-1-11
13. “BBC”, Londres, 8-1-11
14. “The Washington Post”, 12-1-11
15. “Le Monde Magazine”, 8-1-11
16. “Le Monde, 23-12-2010
17. “BBC”, 24-12-2010
18. “El Tiempo”, Bogotá, 11-1-11
19. “The Wall Street Journal”, 11-1-11
20. “El Mundo” 12-1-11
21. “ABC”, Madri, 24-1-11

3 COMENTÁRIOS

  1. Brasileiros quetomem cuidado, pois o primeiro passo para ficar como haiti já esta dado, somos um país de muita extensão, muita riquesa, mas pouca divisão, e muita corrupção nos meios politicos, em todos partidos, porem a maioria dos corruptos dos mensalões, da grana na cuéca, da dancinha ridicula de Angela a comemorar a impunidade de seu par esncontra se dentro do PT, claro que lá tem também uma minoria de pessoas descentes não estou generalizando. E esta pouca ou nenhuma vergonha so se acabará quando a população anestesiasda pelo idealismo, tomar uma dose de patriotismo e se organizar em caravana indo aos gabinetes munidos da lei, da constituição e exigir que esses lacaios saiam da vida publica, hoje parece sonjho, mas crteiam isto está mais proximo de acontecer doque nós mesmos possamos imaginar.

    Fonte: Artigo publicado no jornal O Globo | 10 de abril de 2011

    No século XIX, Victor Hugo se negou a apertar a mão de D. Pedro II, porque era o Imperador de um país que convivia naturalmente com a escravidão. Hoje, Victor Hugo não apertaria a mão de um brasileiro para parabenizá-lo pela conquista da 7ª posição entre as potências econômicas mundiais, convivendo com total naturalidade com a tragédia social ao redor.

    Estamos à frente de todos os países do mundo, menos seis deles, no valor da nossa produção, mas não nos preocupamos por estarmos, segundo a Unesco, em 88º lugar em educação.

    Somos o sétimo no valor do PIB, mas ignoramos que, segundo o FMI, somos o 55º país no valor de renda per capita, fazendo com que sejamos uma potência habitada por pobres. Mais grave: não vemos que, segundo o Banco Mundial, somos o 8º pior país do mundo em termos de concentração de renda, melhor apenas do que a Guatemala, Suazilândia, República Centro-Africana, Serra Leoa, Botsuana, Lesoto e Namíbia.

    Somos a sétima economia do mundo, mas de acordo com a Transparência Internacional estamos em 69º lugar na ordem dos países com ética na política por causa da corrupção. A nota ideal é 10, o Brasil tem nota 3,7.

    Somos a sétima potência em produção, mas, quando olhamos o perfil da produção, constatamos que há décadas exportamos quase o mesmo tipo de bens e continuamos importando os produtos modernos da ciência e da tecnologia. Somos um dos maiores produtores de automóveis e temos uma das maiores populações de flanelinhas fora da escola.

    Um relatório da Unesco divulgado em março mostra que a maioria dos adultos analfabetos vive em apenas dez países. O Brasil é um deles, com 14 milhões; com o agravante de que, no Brasil, eles nem ao menos reconhecem a própria bandeira. De 1889 até hoje, chegamos à sétima posição mundial na economia, mas temos quase três vezes mais brasileiros adultos iletrados, do que tínhamos naquele ano; além de 30 a 40 milhões de analfabetos funcionais.

    Somos a sétima economia e não temos um único prêmio Nobel.

    Segundo um estudo da OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico), que pesquisou 46 países, o Brasil fica em último lugar em percentagem de jovens terminando o ensino médio. Estamos ainda piores quando levamos em conta a qualificação necessária para enfrentar os desafios do século XXI. Segundo a OIT, a remuneração de nossos professores está atrás de países como México, Portugal, Itália, Polônia, Lituânia, Látvia, Filipinas; a formação e a dedicação deles provavelmente em posição ainda mais desfavorável, por causa da péssima qualidade das escolas onde são obrigados a lecionar. Somos a 7ª potência econômica, mas a permanência de nossas crianças na escola, em horas por dia, dias por ano e anos por vida está entre as piores de todo o mundo. Além de que temos, certamente, a maior desigualdade na formação de cada pessoa, conforme a renda de seus pais. Os brasileiros dos 10% mais ricos recebem investimento educacional cerca de 20 vezes maior do que os 10% mais pobres.

    Somos a sétima potência, mas temos doenças como a dengue, a malária, a doença de chagas e leishmaniose. Temos 22% de nossa população sem água encanada e mais da metade sem serviço de saneamento. Segundo o IBGE, 43% dos domicílios brasileiros, 25 milhões, não são considerados adequados para moradia; não têm simultaneamente abastecimento de água, esgotamento sanitário e coleta de lixo.

    Esta dicotomia entre uma das economias mais ricas do mundo e um mundo social entre os mais pobres, só se explica porque nosso projeto de nação é sem lógica, sem previsão e sem ética. Sem lógica, porque não percebemos que “país rico é país sem pobreza”, como diz a presidenta Dilma. Sem previsão, por não percebermos a grande, mas atrasada economia que temos, incapaz de seguir em frente na concorrência com a economia do conhecimento que está implantada em países com menor riqueza e mais futuro. E sem ética, porque comemoramos a posição na economia esquecendo as vergonhas que temos no social.

  2. “” Se ocorrer a alguém dizer que um país como o Haiti ganharia em voltar a ser colônia durante algum tempo, até criar as condições para ser independente e guiar seu próprio destino, será “linchado” pela mídia, já que semelhante “blasfêmia política” hoje não é permitida.””

    No lúcido texto acima, o autor finaliza com a solução; exatamente essa é a saída para o Haiti. Por que? Muito simples: compare o Havaí com o Haiti ou com Cuba: o Havaí é estado americano. Sua moeda é o dólar, sua lei é americana, sua polícia é americana, sua defesa é americana, sua educação é americana. É um próspero estado com economia própria (turismo) e todos os benefícios da sólida, LIVRE e organizada sociedade americana, de onde se pode sair (e retornar) quantas vezes quiser (quem não tem dívidas com a justiça e com a imigração, claro).

    Pergunta final: se o leitor fosse haitiano, onde gostaria de morar e criar seus filhos?

    (a) No Haiti, porque é um patriota e não quer ser explorado pelo “injusto sistema capitalista” americano.

    (b) Em Cuba, porque é um país soberano e tem uma sociedade “mais justa e solidária”.

    (c) No Havaí, porque nada mais é preciso acrescentar ao óbvio.

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