Continuamos os comentários do Prof. Plinio sobre Idade Média, as classes sociais nascidas organicamente: Clero, Nobreza e Povo.

O atualíssimo problema da igualdade essencial, — que nos vem da natureza dada por Deus –, e a desigualdade proveniente dos acidentes, também dados pelo Criador.

Iguais por natureza, diversos em seus acidentes

A esta questão, a Idade Média pode nos dar algumas sugestões para uma solução. O que prevalecia na Idade Média era, antes de tudo, a ideia de que todos os homens foram criados por Deus iguais. Iguais por natureza. Todos os homens, enquanto homens, são iguais. Por causa disto, têm todos eles, em face do Estado, os direitos inerentes à natureza humana, inteiramente iguais.

A natureza humana deu ao homem, ou por outra, o homem tem por natureza, direito à vida, direito à propriedade, direito à liberdade individual cf. a doutrina católica (1) , direito à dignidade pessoal, à saúde, etc.. Como estes direitos decorrem da natureza humana, e todos os homens são igualmente homens, é natural que o Estado deva assegurar esses direitos igualmente a todos os homens.

Mas acontece que os homens, ao lado desses direitos essenciais que são inerentes a todos, têm também determinados direitos que são acidentais. São direitos que provém de acidentes existentes em sua própria natureza. O homem mais inteligente, o homem mais capaz, o mais trabalhador, o mais virtuoso, pelo fato de ter determinadas qualidades que estão acima do nível comum, acaba adquirindo direitos maiores.

Então, a verdadeira justiça dentro da sociedade, não consiste em ser absolutamente igual para todos, mas consiste em tratar a todos de tal maneira que lhes assegure os direitos essenciais da pessoa humana mas, além disso, distribua maiores vantagens e maiores honrarias para aqueles que aguentam mais pesadamente o fardo dos interesses coletivos. Dentro dessa ordem de idéias, na Idade Média prevalecia o conceito de que duas classes sociais deveriam sobretudo viver para o bem público, e que essas duas classes sociais mereceriam a participação maior na direção dos negócios públicos.

Caminho da Salvação - ANDREA DA FIRENZE - 1365-68 - Capela dos Espanhóis, Santa Maria Novella, Florence

Análise da foto: Em primeiro plano, em frente à parede lateral da Catedral de Florença, podemos ver a ordem hierárquica da sociedade medieval: o Papa; à sua esquerda o imperador, o rei e um príncipe; à sua direita o general dominicano e um bispo . Em frente deles estão frades à esquerda e leigos à direita. A basílica no fundo é o símbolo da Igreja. No lado direito da imagem pregação de S. Domingos, S. Tomás de Aquino debatendo com os hereges, S. Pedro Mártir, os cães simbolizando os frades dominicanos (“Domini canes”). Acima dessas cenas, a felicidade do paraíso celeste.

Esta composição retrata um programa teológico cuidadosamente construído, onde a relação dos valores é determinada pelo seu significado teológico.

O Clero tendo maiores obrigações, cabia-lhe posição privilegiada no Estado

Em primeiro lugar, o Clero. É uma coisa evidente para um país católico que o Clero sendo a classe, a bem dizer, instituída por Nosso Senhor Jesus Cristo pelo Sacramento da Ordem e, sendo os membros do Clero sagrados e incumbidos na Terra de uma missão divina, eles devem constituir a primeira classe social. Primeira classe social por honra, porque a unção sacerdotal confere à pessoa do padre uma preeminência humana. O padre está constituído acima dos homens para ser um traço de união entre os homens e Deus. Por esta razão, ele é titular do respeito particular dos homens como representante de Deus na Terra, como uma personificação da própria religião. Esta condição de sacerdote se soma ao fato de que a sua função na Terra é a função mais importante para o próprio Estado. O homem da Idade Média entendia que a razão de ser do Estado não era a de ser uma grande cooperativa de caráter financeiro.

Lemos hoje os jornais e vemos do que tratam todos os governos do mundo: em última análise, tratam de dinheiro. Decreto a respeito da importação e exportação, finanças para favorecer, fontes de economias para suscitar, concorrências com países estrangeiros, etc. O grosso dos assuntos de que se trata hoje são os assuntos econômicos. Esta concepção é materialista e não está muito longe da concepção marxista.

O Estado não existe apenas para matar o apetite de todos. Até se poder dizer que não é esta, quase não é esta a função do Estado. A função principal do Estado consiste em promover uma vida virtuosa dos cidadãos de maneira a levá-los à salvação eterna. A função essencial do Estado é promover o bem.

Por isto, o Estado funciona na sua ordem própria como uma espécie de elemento complementar da Igreja. A Igreja ensina, governa, santifica as almas; o Estado dispõe a vida terrena de maneira que tenha todas as facilidades possíveis para que a vida terrena preencha a finalidade para que ela existe que é a salvação eterna. Mas se isto é assim compreendemos que dentro do Estado nenhuma classe tem direito a mais preeminência do que aquela classe que representa exatamente o elemento promotor e propulsor da salvação eterna dos homens, que vem a ser a classe sacerdotal.

Esta posição se acentuava pela seguinte circunstância: as condições de vida do padre são aquelas que mais favorecem a virtude. São condições de vida que conduzem naturalmente ao saber. E a classe sacerdotal, por sua natureza, além de ser uma classe incumbida de uma missão divina, é uma classe que é propensa a constituir uma elite na virtude e no saber. Constitui, portanto, uma espécie de elemento de uma ordem para a orientação da vida social.

Como esta classe arcava com obrigações muito pesadas — antes de tudo, a obrigação de renunciar a fazer carreira, a fazer fortuna, para se dedicar inteiramente aos interesses da Igreja —, como o sacerdote renuncia até ao prazer legítimo de constituir família para se dedicar completamente ao serviço de Deus; como o sacerdote é obrigado a ficar no confessionário, ouvindo todo o mundo que ali vem expor seus problemas, para aconselhar, absolver, corrigir, reprimir, é uma coisa evidente que o sacerdote é o elemento mais sacrificado; tanto maior é a recompensa. Por causa disto, esta classe cuja função é de uma importância primordial, tendo também de arcar com sacrifícios de uma importância capital, tinha também uma posição privilegiada dentro do corpo social.

À classe militar correspondia a obrigação de derramar seu sangue pela sociedade

Cavaleiro medieval Fotografias de Banco de Imagens, Imagens Livres de Direitos Autorais Cavaleiro medieval | Depositphotos®Ao lado desta classe vinha a classe militar. A classe militar era a que tinha obrigação de derramar seu sangue pela sociedade. Não se entendia que a carreira militar fosse uma profissão como outra qualquer. O homem que se votava ao mister das armas, não podia ser considerado como um mercenário que vendia seu sangue para o Estado. Eles faziam até muito a distinção do militar nacional, que abraçava a carreira das armas por uma vocação que esteve inerente a um conjunto social, do mercenário que vendia seu sangue em batalha.

* As tropas mercenárias na Idade Média eram de uma fidelidade muito grande. O último vestígio de tropa mercenária no mundo é a guarda suíça do Papa

As tropas mercenárias sempre existiram na Idade Média. Eram tropas de homens que gostavam da guerra, que se sentiam mal fora do perigo de guerra e que por isto, quando seu país estava em paz, se anunciavam nos mercados medievais, dizendo: “Tenho 400 suíços, tenho 500 alemães, tenho tantos italianos, ou franceses, ou portugueses, que estão dispostos a se alugar para qualquer guerra que apareça”.

Então, nos mercados internacionais, um príncipe que precisasse de soldados, mandava trazer aquelas tropas e elas iam combater para ele. A palavra “mercenário” não tinha aí um sentido pejorativo. Há gente que gosta de brigar. Esta gente era alugada por aqueles que não gostavam de brigar e que pagavam gente para fazer briga para eles.

Então, povos pacíficos previam que iam entrar numa guerra, para eles não era interessante, mas tinham um inimigo muito buliçoso, então mandavam contratar mercenários e guarnecer suas fronteiras com tropas mercenárias. Estes mercenários combatiam durante a Idade Média com muita fidelidade. No tempo da Renascença tornou-se mais freqüente os mercenários passarem de um campo para outro. Mas na Idade Média eles combatiam com fidelidade.

E este princípio de fidelidade de mercenários passou muito além da Idade Média. Quando a monarquia francesa caiu, em 1789, quais foram as tropas que se manifestaram mais fiéis ao Rei? Foram os mercenários suíços. Foram eles que lutaram a favor do Rei, contra a Revolução, até o dito momento, e se fizeram matar todos, a tal ponto que na Suíça existe um monumento muito bonito aos mercenários suíços que morreram no castelo das Tulherias. Este monumento é numa caverna de uma daquelas grandes montanhas suíças, um leão ferido de morte com a pata pendendo sobre um escudo com as flores de lis e embaixo os dizeres seguintes: “À coragem, à fortaleza dos suíços”.

Guardas Suíços no Vaticano

Guarda Suíça - VaticanoÉ uma homenagem dos suíços a esta tropa eminentemente mercenária que lutou com muita fidelidade, fazendo jus ao dinheiro que recebia.

E o último vestígio da tropa mercenária existente no mundo é a guarda suíça do Papa. Todos sabem que os suíços do Papa são soldados contratados na Suíça e, o mais curioso, é que muitos são protestantes. Vão lá para servir, recebem um tanto e durante o período que servem lá, servem muito bem. A situação do mercenário era, enfim, uma condição honesta.

* A Idade Média foi a época em que mais foi glorificada a coragem

Muito diferente era a condição do militar do próprio país. Entendia-se que o militar do próprio país era um homem que, em favor do bem comum, renuncia a tudo aquilo que a vida pode dar de propriamente bom. E é engraçado que na mais belicosa época da História, que nos ofereceu o maior número de grandes guerreiros, de homens de grande valentia e coragem, que glorificou mais a coragem, que foi certamente a Idade Média, foi, ao mesmo tempo, a época que teve mais consciência do que a condição de militar tem de pungente, de verdadeiramente dramático, para quem se entrega a ela de corpo e alma. A razão disto se exprime em termos muito simples. Para a Igreja, atrás disto está toda uma teoria de coragem.

Um padre alemão contou-me que Hitler fazia uma seleção dos elementos destinados a servir às tropas de assalto da seguinte maneira: colocava uma grande pista de corrida e uma porção de obstáculos, e soltava ali um mundo de rapazes candidatos às tropas de assalto. Os obstáculos eram de toda ordem: brasas, madeiras, torres, buracos, tudo. Quando um rapaz se atirava por cima de tudo sem nem pensar e vencia todos os obstáculos, isto queria dizer que ele era bastante estourado e assim estava bom para pertencer às tropas de assalto. Mas se o rapaz parasse e pensasse um pouco antes de pular ainda que depois pulasse, ele era reputado insuficientemente valente para a guerra. A concepção de coragem que estava atrás disso é uma concepção falha e toda ela impulsiva. O padre alemão que me contou isto observou o fato muito bem. A coragem não consiste em não ver o perigo mas, tendo toda a noção da importância do perigo, resolver enfrentá-lo por um ato de deliberação e de vontade.

* O exemplo perfeito da coragem é Nosso Senhor Jesus Cristo no Horto das Oliveiras

O exemplo perfeito disto é Nosso Senhor Jesus Cristo no Horto das Oliveiras. Jesus Cristo é o padrão, é o protótipo do heroísmo. Ele, no Horto das Oliveiras, não teve nenhuma atitude de estourado, pois isto seria incompatível com sua santidade infinita. Ele mediu toda a tristeza das dores que ia sofrer. Chegou a ter tanto medo dessas dores que suou sangue. Mas apesar disto, como era dever dEle enfrentar aquelas dores, para cumprir a missão que o Padre Eterno lhe deu, Ele enfrentou tudo, levou a Cruz até o alto do Calvário e aí se deixou crucificar e morreu.

Havia um ato deliberado da vontade dentro disso. Para o cavaleiro cristão da Idade Média era um dever enfrentar aquelas dores.

* O cavaleiro cristão da Idade Média era um homem que tinha eminentemente a concepção verdadeira da coragem

O cavaleiro cristão da Idade Média era um homem que tinha eminentemente esta concepção da coragem. Ele tinha no mais alto grau a noção do perigo. Vemos muito na literatura medieval as manifestações de tristeza do cavaleiro que vai para a guerra. Ele se despedia chorando de sua família. Sua família, às vezes, o acompanhava até certo trecho da estrada. Na última despedida, longe do castelo, chorava-se mais uma vez. E ele sentia tantas saudades de sua própria pátria, que os cavaleiros combinavam com suas famílias — as guerras eram longe, mas eles não tinham a noção de que as horas eram diferentes nas várias partes do mundo — combinavam uma determinada hora do dia para rezarem juntos determinadas orações para matarem a saudade. Vê-se aí a concepção profunda que eles tinham do risco, da dor da separação, da aventura toda que a guerra representava e quanto eles sofriam com isto. Tanto mais que, se há uma coisa que o cavaleiro medieval não era, era propriamente um peitudo. Quer dizer, daqueles homens que não se comovem com nada, não se importam com nada. O que é bonito hoje para um homem, segundo o conceito pagão comum, é ser insensível, não se incomodar com nada. Perde pai, mãe, mulher, filho, o bonito é estar no enterro com a cara inteiramente comum, sem emoções. Na Idade Média isto seria considerado estúpido.

Um homem é naturalmente emotivo e é natural que ele dê largas a uma emoção bem calculada. Por isto, muitas vezes vêem-se aqueles cavaleiros — que na hora da batalha rachavam um turco ao meio, ou que eram capazes de entrar sozinhos numa cidade, até a mesquita muçulmana, para terem o prazer de serem os primeiros a abater o culto de Mafoma – entretanto, diante de uma cena qualquer da vida, chorarem copiosamente. Por quê?

Porque toda a construção do equilíbrio interno do homem em face do problema da dor e do perigo era uma construção diferente, eminentemente cristã. O cavaleiro medieval, com tanta noção do que representava a guerra, o risco, o perigo, era, entretanto, habituado a uma alta idéia do dever. E ele tinha a noção clara de que razões de ordem sobrenatural deduzidas da Fé e da Revelação o levavam a correr estes riscos. E era por causa dessas razões sobrenaturais que ele de fato se expunha à luta e ao combate.

* A vigília de armas do cavaleiro: a Igreja fá-lo meditar sobre a rudeza do combate que ele vai enfrentar ao ser armado

Muito característico desse estado de espírito é a vigília de armas do cavaleiro. Pode-se imaginar a cena: numa igreja ou capela medieval, durante a noite, silêncio absoluto; diante do altar, numa mesa, estão as armas do cavaleiro, que ele irá revestir no dia seguinte quando for armado; ele passa a noite inteira rezando sozinho naquela igreja: sabe que a partir do momento em que se der nele a cerimônia pela qual ele for armado cavaleiro, ele não se pertence mais a si mesmo. Ele será obrigado, por juramento, a dispor a sua vida sempre que vir a Igreja perseguida, os órfãos, as viúvas, os fracos, opressos. Ele será obrigado a entrar na liça e tomar a defesa dessa gente.

O que faz a Igreja? Oculta ao homem o risco que ele vai correr? Pelo contrário, ela fá-lo meditar durante uma noite inteira a respeito desse risco. As armas do cavaleiro que estão colocadas diante do altar mostram toda a rudeza do combate que ele vai enfrentar. Aquele elmo significa que a cabeça dele pode ser rachada, porque não se põe um elmo a não ser quando se vai levar uma pancada. E aquela peça na garganta significa que o pescoço pode ser cortado. E a couraça significa que o peito pode ser transpassado. E tudo aquilo significa para ele a iminência do perigo que vai correr. Mas as razões para correr este perigo ali estão também diante dele, e são de caráter religioso: Nosso Senhor Jesus Cristo quer que ele se consagre a isto.

Então, por amor a Nosso Senhor, por amor a Nossa Senhora, de quem todo o cavaleiro é um servidor e um arauto, ele vai levar aquela vida duríssima. Muito bonito era o costume que tinham os cavaleiros da ordem do Templo. Eles dormiam sempre preparados para se levantar em caso de convocação. Dormir em camas ligeiras e com a parte do traje possível já pronta para eles pularem, vestirem a armadura e saírem.

E sempre com uma luz acesa dentro do quarto, dando ideia da vigilância constante do cavaleiro. Porque esta dor, este risco, este esforço de guerra, aquele homem tinha aceito. E tinha aceito como uma cruz para a vida inteira. Ele e a sua família, que participava intensamente das dores da guerra e do combate.

* A família do guerreiro medieval, quando este partia para a guerra: na fidelidade, na espera e sobretudo na resignação; noção do peso do sacrifício, do peso da dor

Com efeito, quando o cavaleiro ia para a guerra, a família rezava para ele, a família estava sempre à espera de notícias dele. E não havia alegria maior do que quando o vigia do alto da torre vinha anunciar que bem ao longe nos caminhos, um grupo de cavaleiros se aproximava fazendo o sinal convencional que devia dar a entender de longe, que era o senhor que vinha. Mas às vezes a dor era muito grande, porque em vez de ser o senhor que vinha, eram seus vassalos, seus escudeiros, que vinha trazendo seu corpo; ou eram apenas as relíquias dele que vinham, pois seu corpo ficara no fundo do mar. A família passava aqueles dias, aqueles meses, aqueles anos de agonia, à espera de uma notícia. As horas e horas de espera a castelã enchia rezando ou fazendo tapeçarias. E as longas tapeçarias relatando vidas de santos ou episódios da vida quotidiana, mostram as longas esperas da castelã que às vezes, em horas de folga, subia à torre com uma tapeçaria na mão, trabalhando e olhando para ver se o seu senhor vinha. Esses dois anos, cinco anos de fidelidade, na mesma espera e sobretudo na mesma resignação.

Com esta noção eminente da vida humana, — do peso do sacrifício, do peso da dor, ao mesmo tempo pelas altas razões pelas quais um homem deve de fato expor-se a tudo isto, —compreende-se que o homem da Idade Média tivesse a condição militar na mais alta consideração, e que esta época tivesse feito em matéria militar, um arranjo inteiramente diferente do que existe hoje.

Considerando que a guerra era um grande mal, considerando que a condição militar impõe sacrifícios tremendos, considerando que é conveniente restringir esses sacrifícios ao menor número possível de pessoas, não havia ideia de mobilização geral, que é comum em nossos dias. Arrebenta a guerra, a primeira coisa, todo o país é militar. Eles vestem uniforme, as mulheres também, e começa tudo. A ideia era diferente.

* Quando havia guerra apenas a classe militar era convocada para combater, a mobilização geral não existia

Por uma ideia de convenção tácita entre os povos cristãos, a mobilização geral a bem dizer não existia. Quando havia guerra, apenas a classe militar era convocada para combater. Isto em todos os países. A outra classe ficava comendo, bebendo e dormindo. Ficava produzindo e no conforto da vida cotidiana. Esta classe que era assim separada para o serviço militar, esta classe que arcava com o peso tão grande da vida militar, esta classe era necessariamente privilegiada.

Compreendemos por aí porque na Idade Média um militar era considerado um verdadeiro benemérito e a condição de militar, a condição de nobre, eram condições inseparáveis. O nobre era o militar, o militar era o nobre. Por quê?

Porque o militar é aquele que dá o seu sangue pelo país. Ele é aquela minoria da população que aguenta o peso da guerra. É legítimo que ele tenha também direitos maiores. Então, daí vem a situação absolutamente privilegiada, a honra, a deferência que o homem daquele tempo tinha para com o militar.

Como é que o homem da Idade Média recompensava o militar? Era por meio de um ordenado? O Estado medieval exigia do militar couro e cabelo. Ele era obrigado a se sacrificar, enquanto os outros cuidavam da vida cotidiana, enquanto a plebe comia, bebia e dormia. Mas em compensação, a situação feita pelo militar era a mais farta e conveniente possível. Por quê?

Porque o nobre, quando era nobre, o era porque tinha recebido do rei uma propriedade agrícola importante que ele cultivava e da qual ele podia viver em tempo de paz e, ao mesmo tempo, consagrava suas horas livres para se adestrar e adestrar seus escudeiros na guerra. Mas ele era um homem abastado e importante, porque como proprietário das terras, ele era também senhor feudal dessas terras e era ele que governava.

Por outro lado, se um militar não nobre fazia alguma proeza e se recomendava à atenção do rei, ele era elevado à categoria de nobre. E a primeira coisa que o rei fazia era, por meio de doações, abastecê-lo completamente. Dava-lhe terras, dava-lhe patrimônio, dava-lhe uma situação honrada para sua família. De maneira que havia militares excelentes, precisamente por causa disto. Os homens de maior valor eram ambiciosos da glória militar que era reputada, abaixo da glória missionária, a maior glória que um homem pudesse ter. E por causa disso, na plebe, os homens de mais capacidade procuravam inscrever-se nas tropas como voluntários, para poderem depois se tornar nobres.

* As famílias nobres já eram educadas com a mentalidade militar. Exemplo: os Junkers alemães

As famílias nobres eram todas já educadas com essa mentalidade militar e seus filhos, desde pequenos, tinham seu temperamento todo equipado para a vida militar através de uma tradição que acabava formando uma verdadeira hereditariedade temperamental. É por isto que compreendemos a persistência do espírito militar na nobreza européia, até nossos dias.

Por exemplo, não há classe social de que se fala mais, na política internacional de hoje, do que a classe dos Junkers na Alemanha. Ainda há pouco Bulganin, — se não me engano, — fez um discurso dizendo que o [cerne] do problema da Europa era não permitir uma reorganização da Alemanha que entregasse aos Junkers a direção do Estado. O que vem a ser os Junkers alemães? É uma classe de nobres prussianos que desde a Idade Média se consagram às atividades militares, mas em que o espírito militar é objeto de uma tal formação, que os melhores militares da Alemanha vieram exatamente dessa classe. Vê-se aí o que significa uma formação tradicional para uma coisa especializada como vem a ser a condição do militar.

* Ao lado do clero e da classe militar, uma classe muito influente na Idade Média: a dos intelectuais, dos pensadores

Vemos assim que, ao lado da classe sacerdotal, a classe militar tinha uma grande influência no Estado. Ao lado dessa, havia outra classe de influência muito grande, que pela ordem natural das coisas sempre teve e sempre terá uma influência muito grande: a dos intelectuais. As idéias são o que conduz os homens e não só o interesse. Isto é evidente.

Ainda quando eu fosse um homem interesseiro, não seriam meus interesses que me conduziriam, mas a ideia que eu fizesse sobre os meus interesses que me conduziria. Sem idéias o homem é incapaz de se mover e, em última análise, são as idéias que movem os homens.

Havia uma classe de grande influência na Idade Média, que era a classe universitária. A classe universitária é a classe dos pensadores, e notamos a influência profunda dos pensadores na Idade Média pelo fato de que, mesmo elaborando suas doutrinas no recesso das universidades, gozavam de uma glória da qual dificilmente temos noção hoje.

Quando, na Idade Média, um mestre dava um grande curso, adquiria facilmente fama intelectual e estudantes do mundo inteiro iam ouvir suas aulas. Mas ele era objeto de uma tal admiração, que quando dava uma aula muito boa, os alunos estendiam suas capas sobre a rua, para ele andar pisando nas capas. Mais ainda, às vezes os alunos levavam o professor de liteira para casa, para manifestar aplauso à sua aula. E iam conversando com ele, de maneira que pelas ruas estreitas da Idade Média, de repente parava o trânsito e era uma turba de alunos, com o mestre gravemente sentado numa liteira. Era fulano de tal, de tal cidade, de tal cátedra, que acabava de dar uma grande aula.

Isto se irradiava pela cidade. E por causa disto, os atos acadêmicos eram atos da maior importância na vida civil. Quando havia defesa de tese era muito freqüente a corte inteira transladar-se à universidade para assistir à defesa de tese. E então, a ver a disputa entre dois grandes doutores, estão o rei, a rainha, a corte, o clero, os elementos graduados da universidade, todos em seus lugares próprios e no meio disto dois homens colocados em tribunas diferentes, discutindo. Aquela gente toda estava vendo um ato importante da vida social. Era uma discussão de idéias. Era um respeito eminente que o homem medieval [tinha pelas] idéias. Mas o respeito não transparecia apenas nisto, mas numa coisa muito mais profunda.

* Uma das belezas da Idade Média é ver em toda organização do Estado, da sociedade, da família, da vida militar um mundo de teorias harmônicas e coerentes

Já tive ocasião de mostrar como os atos da vida pública medieval eram impregnados de idéias. Na política, qualquer ato que um daqueles homens fizesse, tinha por trás toda uma série de teorias. Porque ele pensou muito, ele se embebeu profundamente dos ensinamentos dos mestres e, por causa disto, toda a sua ação é coerente com aquilo que nas universidades se pensou, com aquilo que a Igreja ensinou, e que ele vai adotar.

Na política, na administração, na economia, na vida da família, em todas as atividades humanas, a teoria elaborada pelas universidades tem uma função verdadeiramente mentora. E uma das belezas da Idade Média vem exatamente disto: vê-se a organização do estado, a organização da sociedade, dos grupos sociais, da família, da vida militar, encontra-se em tudo um mundo de teorias harmônicas e coerentes entre si, atestando a existência de um mundo profundamente dominado pelas idéias. Idéias que eram elaboradas pelos concílios, pelos teólogos, pela Igreja, pelas universidades e que governavam o mundo.

* Participando da direção da Idade Média, temos uma tríplice elite: elite eclesiástica, elite social e elite intelectual

Temos então, uma tríplice elite participando da direção da Idade Média. Elite eclesiástica, representando uma missão divina, o saber, a virtude. Elite social, representando a nobreza incumbida da guerra, da meditação, da coragem, do patriotismo, considerado em espírito sobrenatural, incumbido da manutenção das tradições da sociedade. Elite intelectual, feita dos plebeus e dos nobres que quisessem seguir a vida universitária e que constituíam a luz da sociedade.

Qual era, dentro dessa sociedade tão fortemente protegida por esta tríplice elite, qual era a situação do homem do povo?

* Como eram as condições de vida do homem do povo na Idade Média?

(Em outro artigo o Prof. Plinio faz a distinção entre Povo e Massa, segundo célebre ensinamento do Papa Pio XII. Povo nada tem a ver com a ideia marxista de proletariado.)

O homem do povo não constituía uma espécie de matéria anônima. A própria condição popular era toda ela cheia de elites. Estas elites eram de natureza profissional. As corporações dos artífices produziam operários excelentes e, quando o operário era um verdadeiro mestre, fazia um exame, era aprovado por sua corporação e tinha o título de mestre propriamente.

Esses mestres eram sumidades em seu próprio gênero e tinham dentro do seu mundozinho muita honra, muita distinção, muito galardão.

Além disso, o homem do povo vivia protegido pela Igreja e vivia uma vida humilde, mas cuja própria humildade a Igreja sabia iluminar. E sabia iluminar da seguinte maneira: a Igreja ensinava a todos que o importante na vida não era ser rico ou pobre, ser plebeu ou ser nobre, mas o importante era ter Fé Católica, verdadeira e íntegra; o importante era ser puro, ser honesto, ser leal, que um homem sofresse nesta terra as misérias que tivesse de sofrer, não teria importância maior se ele as sofresse dentro da linha dos Mandamentos; e que quando o morresse, fosse ele plebeu, nobre ou intelectual, seria julgado do mesmo modo, por um Juiz severíssimo e imparcial, que haveria de dar a cada um, não de acordo com a posição que havia ocupado nesta vida, mas de acordo com o bem ou o mal que houvesse praticado.

De maneira que essa convicção, iluminando a vida do homem do povo, essa idéia de que Jesus Cristo, quando esteve na Terra, praticou a profissão humilde de carpinteiro, essa ideia de que Ele mesmo quis ser pobre, conferia à própria pobreza e à própria mendicância, muita dignidade. É o que explica vermos na Idade Média reis lavando os pés de leprosos, servindo os pobres, reis declarando que, se pudessem, deixariam o trono para irem ser pobres de Jesus Cristo.

Então, ficamos colocados diante de um mundo onde tudo estava constituído à luz de um princípio inteiramente diverso. A questão não era fazer da vida um corre-corre, um pega-pega para conseguir dinheiro, para se instalar bem e gozar. A questão era de viver para ganhar o Céu, para servir e para realizar os desígnios da Providência Divina. Quem fizesse isso em qualquer das classes sociais, era um bem-aventurado.

Esta ideia do Juízo Final, do Céu e do inferno, é representada mais freqüentemente na Idade Média, não só nas igrejas, mas nas casas, nos móveis, na decoração, em tudo. Homens justos que morrem e cujas almas os Anjos vêm colher; homens maus que morrem e cujas almas os demônios estão arrastando para o inferno. É por esta realidade do Juízo Final e dos fins da vida humana que toda a organização da Idade Média se explicava inteiramente. A figura desta vida passa. Ela não é senão uma representação. No fundo, o homem vale pela virtude que praticar. É o grande axioma que era o elemento dominante na vida social.

Fonte: https://www.pliniocorreadeoliveira.info/DIS_SD_1954_Idade_Media_01.htm

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