Atilio Faoro

Chovem críticas a louca aventura do presidente Lula ao se lançar como mediador de um acordo com o Irã para resolver a crise em torno do programa nuclear iraniano.

Em Teerã, o presidente Lula confraterniza com o ditador iraniano Mahmoud Ahmadinejad

De fato, a diplomacia brasileira, com Lula à frente, subiu à cena internacional, como quem entra sem ser convidado numa briga de namorados, ignorando que o confronto tem aspectos históricos, religiosos, políticos e militares que fazem do caso iraniano um dos mais delicados e explosivos do mundo atual.

Os jornais “O Globo” e “Folha de S. Paulo” reproduziram na semana passada um artigo de Thomas Friedman, do New York Times, com o seguinte título: “Ao dar legitimidade a Ahmadinejad, Lula envergonha o Brasil”. “Será que existe algo mais feio que ver democratas traindo outros democratas em benefício de um bandido iraniano?” escreve Friedman.

Efetivamente, a visita de Lula ao Irã ocorreu no dia 16 de maio, dias após o Irã executar cinco prisioneiros políticos. Ele abraçou Ahmadinejad, mas nada disse sobre direitos humanos. “É vergonhoso que seus líderes [do Brasil e da Turquia, que também participou do acordo] abracem e fortaleçam um presidente que usa sua polícia para esmagar e matar democratas iranianos”, fulminou o articulista do New York Times.

Para Andres Oppenheimer, do Miami Herald, Lula tem “um histórico lamentável de sempre partir para o resgate de alguns dos ditadores mais implacáveis do mundo”. Ademais, o acordo não foi levado a sério pelas grandes potências, sobretudo pelos Estados Unidos. Horas apenas depois de Lula ter declarado sua vitória, Hillary Clinton anunciou que o governo Obama tinha fechado um acordo com Rússia, China, França e Reino Unido para impor sanções ao Irã.

Em outras palavras, as potências mundiais viram o trato feito pelo Irã com o Brasil e a Turquia como mais uma tentativa de Teerã de ganhar tempo enquanto continua a construir armas nucleares em segredo. O Irã continua a enriquecer urânio a todo vapor nos últimos sete meses.
Também na imprensa nacional, Lula foi fortemente criticado. Rubens Barbosa, em “O Globo” considerou que “ficou evidente a série de erros de avaliação por parte do governo brasileiro quando tomou a decisão de negociar o acordo com o Irã”.

Para o analista, “superestimou-se a disposição da China e da Rússia, apesar dos seus interesses estratégicos e comerciais no Irã, de enfrentar os EUA para apoiar os esforços do Brasil. Por outro lado, não houve uma adequada avaliação dos prejuízos que o apoio ao Irã poderia trazer para o Brasil. Atrás de ganhos incertos, o Brasil parece ter feito pouco caso das suas perdas. Foi minimizado o risco de que as relações com os EUA pudessem ficar afetadas pela iniciativa brasileira, prevalecendo a percepção do PT de que os EUA estão em decadência.”

Por sua vez, Eliane Cantanhêde, na Folha de S. Paulo, afirma que “ao tentar evitar o isolamento do Irã, o Brasil pode estar se isolando junto com ele. Típico abraço de afogados.”