Natividade de Nossa Senhora: três auges

0

Natividade de Nossa Senhora: uma festa, três auges

Santo do Dia, 8 de setembro de 1975

A D V E R T Ê N C I A (*)

Gravação de conferência do Prof. Plinio com sócios e cooperadores da TFP, não tendo sido revista pelo autor.

           Nesta festa de hoje, 8 de setembro, festa da Natividade de Nossa Senhora, festa de Nossa Senhora de Coromoto, porque as duas invocações revertem uma na outra – e os senhores sabem bem quanto a devoção a Nossa Senhora de Coromoto nos é cara –, nesta festa não quis deixar de fazer com os senhores uma reunião, para substituir a reunião de sábado que, por razões de saúde, eu não pude fazer. Não quis deixar de nesta festa ter este encontro com os senhores, para conversar a respeito da Natividade de Nossa Senhora.

           Soror Maria de Ágreda conta o seguinte: que depois que Nosso Senhor subiu ao Céu e que Nossa Senhora ficou só na terra, Ela começou a organizar aos poucos a vida dEla. Como os senhores sabem, Ela morou na cidade de Éfeso durante bastante tempo, com São João Evangelista, que poucos momentos antes da morte, Nosso Senhor deu como filho a Ela, ao mesm tempo em que dava-A como Mãe a ele. E diz o Evangelho que a partir daquele momento São João Evangelista aceitou-A como sua Mãe e, como é correlato, Ela o aceitou como filho. E que ele tinha para com Ela todas as atenções, todos os cuidados, etc., que Nosso Senhor teria. Quer dizer, ele era sumamente devoto a Nossa Senhora, sumamente bom para com Ela, atencioso, respeitoso, venerador.

           Então, moravam juntos e Ela começou a organizar a vida dEla, a vida cotidiana, a vida comum, a vida corrente. Já não mais participando da vida terrena de Nosso Senhor, gloriosamente encerrada com Sua Ascensão aos Céus, mas participando, pela lembrança e pela recordação, de tudo quanto tinha sido a vida de Nosso Senhor. Ela era uma tocha ardente de saudades, de adoração, de ação de graças, de reparação, e de petição contínua a Nosso Senhor Jesus Cristo.

           Então, nesse organizar da vida dEla, com o correr do tempo Ela foi se lembrando das datas – Ela era concebida sem pecado original e tinha, portanto, a memória perfeitíssima, além do fato de ser, por Sua natureza, inteligentíssima, e além ainda do fato de que Ela era auxiliadíssima pela graça. Ela foi se lembrando das datas dos principais acontecimentos da vida dEla e do Divino Filho dEla.

           Os principais acontecimentos da vida dEla não eram calculados como os de qualquer um. Vamos dizer, para um rapaz de hoje: “matriculei-me na faculdade em tal data, ganhei uma motocicleta em tal outra data…” Não é isso. As verdadeiras datas da vida de um homem são as datas em que ele serviu a Nossa Senhora de um modo mais insigne, pelo apostolado, pelo sofrimento, ou pela oração. Ou em que Nossa Senhora lhe deu graças especiais. Estas são as verdadeiras datas da vida de um homem. O resto é conversa fiada.

           Então, Ela foi vendo as várias datas e, quando era o dia – quer dizer, que essa data se repetia no calendário – Ela comemorava aquele dia com cerimônias especiais, no seu quartinho, porque a Igreja ainda não estava organizada com edifícios sacros, nem nada disso. A Igreja ainda era extraordinariamente nova. Então Ela, no seu quartinho, comemorava a seu modo aquela data.

           Então, é uma bela ideia a gente, hoje, procurar ver como é que Nossa Senhora celebrava a data do próprio nascimento dEla. E nós então veremos como era a vida de Nossa Senhora, como Ela celebrava e como Nosso Senhor baixava até Ela e ajudava a celebração. E nós celebraremos o nascimento dEla comovendo-nos com o modo pelo qual Ela celebrava o nascimento dEla, o que é celebrar em íntima união com Ela.

           Então me pareceu que seria do interesse dos senhores eu ler aqui o trecho de Soror Maria de Ágreda e comentar com os senhores. Não sei se está claro o que eu acabo de dizer?

           Então, eu passo agora ao comentário.

           “A festa em memória de seu nascimento, Nossa Senhora a celebrava a 8 de setembro, em que nasceu. E Ela começava a primeira noite…”

           Quer dizer, a noite de 7 para 8.

           “…com os mesmos exercícios, prostrações e cânticos que no dia da Imaculada Conceição”.

           Agora os senhores vão ver como tudo isso tem uma razão de ser. [O dia da] Imaculada Conceição é o dia em que Ela foi concebida sem pecado original no ventre puríssimo de Sant’Ana, quer dizer, em que Ela começou, portanto, a ser. O nascimento é o dia em que Ela começou a ser para o mundo. A concepção e o nascimento são fatos correlatos. O nascimento é o fruto, é o auge de um processo fisiológico, que começa com a concepção; de um processo fisiológico e, no caso dEla, de um processo espiritual. Porque como Ela foi concebida sem pecado original, Ela desde o primeiro instante de seu ser teve uso da razão. E vivendo embora internamente em Sant’Ana, mãe dEla, Ela já raciocinava, já pensava elevadissimamente, sublimissimamente, pelas graças que Deus Lhe dava, pelas revelações que Deus Lhe fazia etc.

           Então, quando Ela nasceu – quer dizer, que Ela saiu do claustro materno – quando Ela nasceu, Ela já veio com toda uma etapa da vida espiritual altíssima, percorrida, com todo um processo de santificação já efetuado. E as coisas foram calculadas de tal maneira que, no momento em que pelas leis da fisiologia o corpo dEla devia abandonar o claustro materno, nesse momento a alma dEla tinha realizado todos os progressos que naquela fase da vida espiritual Ela deveria realizar. E então Ela nasceu para a terra como um sol.

           E por isso Ela – que na Imaculada Conceição celebrava a festa por meio de uma série de prostrações, de orações e de cânticos – Ela repetia essas cerimônias no ato de seu nascimento. Os senhores vejam como tudo é racional, como tudo é lógico, como tudo mostra a suma sabedoria de Nossa Senhora.

           Que ensinamento isso contém para nós? Qual é o ensinamento? É sermos razoáveis, sermos lógicos, sermos coerentes em tudo, fazermos tudo como Nossa Senhora manda, como Nossa Senhora pede: isto é o que nós devemos fazer, fazer com tranquilidade, com serenidade, com entrega plena.

           Agora os senhores olhem um pouco para esta Imagem (de Nossa Senhora de Fátima) e imaginem o que é que seria, na casa pequena deles, Nossa Senhora com o quarto fechado, rezando, e ora se levantando, ora se ajoelhando, e de vez em quando cantando. Os senhores podem imaginar se houve na terra cântico tão belo, tão majestoso, tão doce, tão suave quanto o cântico de Nossa Senhora, ainda mais Nossa Senhora cantando para Deus? Pode na terra ter havido alguma melodia igual a essa? Absolutamente não. Então os senhores podem imaginar do lado de dentro Nossa Senhora serena, séria, recolhida e, às vezes, no auge do entusiasmo, cantando; ou então, no auge da humildade, se prostrando; ou então, no auge da dignidade, se levantando.

           Os senhores podem imaginar, do lado de fora da porta, São João Evangelista trabalhando e, de repente, ouvindo um cântico de Nossa Senhora… Vamos dizer, Ela mesma cantar o Magnificat! Então parar, ouvir, ficar quieto, sem saber o que dizer, e depois continuar a trabalhar. Mas com a alma em que situação? Em que situação ficaríamos nós se esta Imagem, de repente, cantasse o Magnificat? Nós não saberíamos o que dizer. Até de manhã cedo nós ficaríamos tartamudeando sem saber o que dizer, não é?

           Está bem, os senhores podem imaginar São João, que tinha uma devoção tão maior do que a nossa, qual deveria ser a repercussão na alma dele, disso. Casinha pequena e, portanto, com os aposentos à pequena distância da rua. Passando os pagãos todos pela rua, de repente um ouve um cântico, e pára, e fica com a alma tocada. No dia seguinte, ele encontra São João e diz: “me disseram que sua mãe, ou sua tia, canta de um modo admirável e, eu não sei… essa noite eu não pude dormir de alegria; você não poderia me levar um dia para ouvi-la cantar?” São João, na dúvida, diz: “por uns instantes, sim”. Então vai aquele homem e ouve um pouco da voz de Nossa Senhora, e sai inebriado. Dias depois está batizado. Foi uma modulação da voz de Nossa Senhora que converteu essa alma mais profundamente do que todos os sermões do mundo!

           É assim, porque como tudo o que toca Nossa Senhora é absolutamente excepcional e único. E assim é que as coisas que dizem respeito a Ela devem ser vistas e imaginadas.

           Bem, então continua Soror Maria de Ágreda, aqui, a fazer a narração do que se passava nessas festas.

           “Ela agradecia a Deus por ter nascido com vida para a luz deste mundo e pelo benefício que logo recebeu nascendo, de ter sido elevada ao Céu e ter visto a divindade intuitivamente, como eu disse na primeira parte em seu lugar”.

           Quer dizer, os senhores estão vendo aqui uma coisa admirável como foi o nascimento de Nossa Senhora. Ela é tão santa e tão predileta em relação a todas as criaturas, que Ela abriu os olhos para a terra e, logo depois, Ela viu a Deus. Os senhores vejam que entrada na vida, hein? O que é o ápice da vida da imensa maioria das pessoas, foi o começo da vida dEla. De tal maneira Ela está acima de tudo e de todos, sem nenhuma comparação com ninguém, mas com absolutamente ninguém, não há comparação possível em relação a Ela.

           Depois, continua:

           “Ela propunha de novo empregar toda a Sua vida no maior serviço e agrado do Senhor, que alcançasse Sua Alteza a conhecer, pois sabia que se dava isto”.

           Quer dizer, quando Ela viu Deus o que Ela pediu era de passar a vida dEla inteira no agrado e no serviço dEle. E isto Ela em cada aniversário repetia. Ela agradecia o nascimento, essa visão, e pedia que o resto da vida dEla passasse no agrado e no serviço dEle.

           Os senhores vejam: Ela, que era confirmada em graça, concebida sem pecado original, sabia que era Mãe de Deus e que tinha Ela mesma tido em si nove meses Nosso Senhor Jesus Cristo; Ela em cujo peito jamais cessava a Presença Real – Ela comungava e as Sagradas Espécies se mantinham incorruptas até a Comunhão do dia seguinte, Ela era portanto um sacrário – mas uma noção tão profunda da humildade da condição humana, que Ela pedia a Deus isso: que Ela passasse a vida inteira servindo-O e atraindo para si o agrado dEle. Com isso Ela ficaria satisfeita.

           “E agradecia o fato de que no primeiro passo de entrada de Sua vida, Se adiantou em merecimentos aos supremos santos e serafins. E Ela propunha então começar de novo aquele dia, a trabalhar como se fosse o primeiro em que começava a sua virtude. E de novo pedia ao Senhor que A ajudasse, governasse todas as suas ações, encaminhasse ao mais alto fim de Sua glória”.

           Os senhores estão vendo a oração dEla como era. Ela dizia: “Meu Deus, Meu Filho, Meu Senhor, Eu sei que desde o primeiro instante de minha vida, Vós me destes mais graças até do que aos Serafins. Mas que este meu aniversário seja como que um novo nascimento. E que eu, com forças renovadas e com um amor ainda maior, Vos sirva ainda mais durante este ano de vida que Vós me dais, porque Eu quero crescer no Vosso amor continuamente. Não há o que me baste, não há ponto em que eu queira parar”.

           Os srs. veem, é sublimíssimo! É assim que se deve rezar.

           Aí, continua:

           “Para os demais … que fazia nessa festa, se bem que não era levada ao Céu, como no dia de sua concepção, entretanto acontecia outra coisa. Seu Filho baixava do Céu para o quarto onde Ela estava rezando”.

           Quer dizer, quando a oração se tornava provavelmente, especialmente intensa, Nosso Senhor descia. E era tão natural, tão explicável, tão razoável. Qual é o filho que não visita a sua mãe no aniversário? Era o aniversário dEla; o Filho era Ele. Ele baixava do Céu, e naquele cubículo pequenininho de uma casinha insignificante de uma cidade pagã, o próprio Nosso Senhor Jesus Cristo vinha. E os senhores podem imaginar a alegria dEla, as saudades dEla, o afeto com que se tratavam de face a face! Era o auge da festa que começava: o anterior eram preparações da festa.

           Os senhores vejam como tudo é racional nisso: na véspera Ela se preparava, no dia Ela começava essa oração sublimíssima que nós estamos dizendo. Como auge, vem Nosso Senhor visitá-la. Não é o único auge, os senhores vão ver que essa festa tem dois auges complementares, dois auges que se fundem num só auge, sumamente lógicos, verdadeira maravilha!

           Então, continua a exposição:

           “Ele vinha trazendo consigo muitos coros de Anjos, com os antigos Patriarcas e Profetas e, assinaladamente, com São Joaquim e Sant’Ana, os pais dEla, e São José, o castíssimo esposo dEla”.

           Para os senhores entenderem o que é que quer dizer “vinha com muitas legiões de Anjos”… a gente diz assim, mas vamos nos deter, ainda que alongue um pouco o Santo do Dia, vamos nos deter um pouco na consideração do que isso quer dizer.

           Não me lembro mais qual foi a santa a quem apareceu o Anjo da Guarda. Nós sabemos que os Anjos da Guarda, nas hierarquias celestes, são dos menos altos. Era tal o esplendor do Anjo da Guarda que, quando apareceu, ela se ajoelhou pensando que fosse o próprio Deus.

           Agora os senhores podem imaginar várias hierarquias de Anjos, todos enchendo a sala dEla, e cantando em louvor a Ela, em união com os louvores de Nosso Senhor Jesus Cristo, a harmonia que isso deveria fazer!

           E depois, todo o Antigo Testamento ali presente diante dEla: os Patriarcas, os Profetas, todos os justos mais insignes de que a Bíblia nos fala na Antiga Lei e, especialmente, os pais dEla e o esposo dEla. Os senhores podem imaginar a alegria de Sant’Ana, de São Joaquim, de São José, prestando homenagens a Ela. A alegria dEla em revê-los, a satisfação que tinha em estar com cada um deles. E sobretudo pela presença de Nosso Senhor Jesus Cristo, fonte insondável – absolutamente insondável porque infinita – de toda alegria que um homem pode ter. A presença de Nosso Senhor Jesus Cristo é a fonte absoluta da alegria absoluta. Ali estava Ele se associando àqueles louvores e dizendo coisas a Ela.

           Os senhores imaginem, por exemplo, que Ele dissesse a Ela algumas das invocações da Ladainha Lauretana: Mater puríssima, Mater castísssima, Mater inviolata, Mater amabilis, Mater admirabilis, etc., etc. Todas essas coisas que em nossos lábios são tão pouco, nos lábios dEle que sonoridade teriam! E que repercussão tinha na alma dEla! Como Ela deveria ficar inundada de alegria e unidíssima ao Filho enquanto Ela ouvia tudo isso. Aqui os senhores percebem como Ela contemplava, como Ela tinha a celebração do aniversário dEla.

           E aí os senhores podem ter uma ideia da grandeza dEla, da santidade, da perfeição dEla.

           Continua a narração de Soror Maria de Ágreda:

           “A mais pura entre as criaturas, em presença daquela celestial companhia, adorava a Deus com admirável reverência e culto, e de novo Lhe dava graças por tê-la trazido ao mundo e pelos benefícios que para isso Ela tinha recebido”.

           É a reação normal de toda pessoa que quer ter uma boa vida espiritual, e que recebe um elogio. Não é deleitar-se com esse elogio, como um guloso se deleita com uma bala, ou com um cálice de um licor delicioso, gotinha por gotinha, mas é o contrário: é imediatamente dar glória a Deus. Porque como tudo o que nós temos de bom vem de Deus, a pessoa proba e fiel que recebe um elogio diz imediatamente: “Magnificat! Magnificat anima mea Dominum!” Quer dizer, “minha alma engrandece o Senhor e o meu espírito exulta em Deus meu Salvador”. É por esta forma que Ela dava a ação de graças dEla.

           “Logo os Anjos faziam o mesmo e cantavam dizendo: “Nativitas tua”, etc. O que quer dizer: “Teu nascimento, ó Mãe de Deus, anunciou a todo o universo grande alegria, porque de Ti nasceu o Sol da Justiça”… – quer dizer, o Sol de Virtudes, o Sol de Santidade – “Nosso Deus”.

           “Os Patriarcas e Profetas também faziam seus cânticos de glória e agradecimento. Adão e Eva, presentes na sala, agradeciam a Ela, porque dEla tinha vindo a reparação pelo pecado deles. E os pais e o esposo da Rainha, porque Deus lhes tinha dado tal Filha e tal Esposa. E logo…”

           É o complemento da festa.

           “…e logo o Senhor levantava a Mãe Divina da terra onde Ela estava prostrada…”

           Quer dizer, com todas essas presenças dentro da sala, Ela se prosternava no chão, por veneração.

           “… e A colocava à Sua direita. E naquele lugar lhe manifestava novos mistérios com a vista da Divindade que, se bem que não era intuitiva e gloriosa, era abstrativa, com maior claridade e aumento da divina luz”.

           É a hora do presente. Os senhores vejam como tudo está bem calculado.

           Então, é a preparação, depois começa a festa com as orações, depois é um primeiro auge: Nosso Senhor desce. Ela agradece com todo o transe de sua alma e com toda a humildade.

           Passamos a um segundo auge: Nosso Senhor A glorifica. Ele A coloca sentada ao lado dEle, Ela que estava no chão e – está dito no Magnificat, “deposuit potentes de sede et exaltavit humiles – depôs dos seus tronos os potentados e levantou os humildes”, que no chão se curvam diante de Deus – coloca-A ao lado e dá o presente de aniversário. Qual poderia ser esse presente de aniversário?

           Os senhores diriam: “mas o presente já está dado, Ela viu a Nosso Senhor Jesus Cristo, é um presente exuberante!”

           Os senhores até poderiam acrescentar: “nem me tinha passado pela cabeça que depois disso era preciso um presente”. Os senhores estão rindo porque exatamente essa reflexão parece interpretar a reação temperamental dos senhores diante do que eu dizia.

           Mas a coisa é profundíssima. Para uma alma que ama a Deus, o verdadeiro presente é conhecer algo de novo a respeito de Deus, e amar algo de novo em Deus; é o único presente verdadeiro. Porque o próprio do presente é trazer algo de novo, não é trazer algo de velho.

           Os senhores imaginem por exemplo, uma pessoa que tem na casa um objeto na parede, muito bonito, que o rapaz viu a vida inteira pendurado na parede. Presente de aniversário: os pais dizem para ele “olha, isso agora é seu, mas vai continuar ali na parede…”  Agora, se trazem um objeto de fora, um objeto novo, aí há a sensação do presente. O presente tem que ter algo de novo.

           E para Nossa Senhora só uma coisa tinha valor, e só uma coisa, portanto, era o presente. Qual era o presente? O presente era saber algo de novo de Deus…!

           Então, Nosso Senhor Jesus Cristo sentado ao lado dEla, Ele mesmo revelava novidades a respeito de Deus Nosso Senhor, portanto a respeito de Si mesmo, porque Ele é a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade. Ele revelava para Ela algumas coisas novas.

           Os senhores podem imaginar o novo grau de santidade que Ela tomava. Parece incrível, mas Ela foi progredindo a vida inteira, não é? Novo grau de santidade! A alegria, a compreensão, o afeto, o agradecimento! Como Ela se sentia cheia de riquezas com esse mero presente espiritual! Uma coisa verdadeiramente incomparável, era a festa que estava atingindo o seu auge.

           Primeiro o Filho que vem visitar a Mãe, segundo o Filho que coloca a Mãe ao seu lado e, por exemplo, A orna com um lindo colar de brilhantes, ou então com um estupendo diadema: “aqui estão, Minha Mãe, novas verdades a respeito da essência divina”. Ela estática, ouvindo…

           É ou não é verdade que quando a gente lê uma cena dessas, antes de ler não tem ideia do que é uma coisa elevada, não se tem ideia. Na trivialidade da vida de todos os dias, sobretudo, não se compreende que uma coisa dessas possa ter essa elevação. E isto nos ajuda a conquistar um pouco pelo menos desse amor das coisas sublimes e elevadas, que deve caracterizar o verdadeiro escravo de Nossa Senhora. Gostar do que é elevado, gostar do que é sublime, não compactuar com aquilo que é vulgar, com o que é rasteiro.

           Continua:

           “Com esses favores tão inefáveis, ficava de novo transformada em Seu Filho Santíssimo, incendiada, espiritualizada para trabalhar pela Igreja, como se Ela estivesse renascendo de novo”.

           Ela era idosa já, Nossa Senhora. Mas Ela readquiria uma têmpera como se Ela tivesse nascido de novo. E Ela se incendiava, mais ou menos como duas chamas juntas que se fundem uma na outra, Ela com Nosso Senhor Jesus Cristo.

           “E nessas ocasiões, mereceu o sagrado Evangelista São João participar de alguns aspectos dessa festa, ouvindo a música com que os Anjos a celebravam”.

           Os senhores estão vendo que ele, do lado de fora, percebia que havia uma festa enorme. E ele que era o Apóstolo virgem, e por isso o Apóstolo a quem Nosso Senhor amava – mas o Apóstolo que chorava a vida inteira a traição dele, por ocasião da oração de Nosso Senhor Jesus Cristo no Horto, e por ocasião de quase toda a Paixão – o Apóstolo então, os senhores podem imaginar, genuflexo, ouvindo, por vezes batendo no peito e pedindo perdão e por vezes esquecendo-se de si mesmo, e perdido nas belezas que ele ouvia do lado de fora da porta. Mas do lado de fora: não ousava entrar; aquilo era tão alto, que não era para nenhum terreno ver.

           Apenas algum tanto da música para ele, já dava para encher a alma dele, como essa simples narração já, de algum modo, enche as nossas almas. Os senhores compreendem qual era a plenitude de alma de Nossa Senhora, então, nesse instante.

           “E estando o mesmo Senhor no oratório com os Anjos e Santos”…

           “Senhor” aqui é Nosso Senhor Jesus Cristo.

           “…que Lhe assistiam, o Evangelista entrava e dizia a Missa”.

           Aqui os senhores estão vendo: é o terceiro auge. É a descida de Nosso Senhor – eu só tinha me lembrado de dois – em segundo lugar é Ele sentado ao lado de Nossa Senhora e Ela recebendo revelações dEle; terceiro auge: a Missa, em que se repetia de modo incruento o Santo Sacrifício do Calvário.

           Agora, a honra de São João – ele com certeza não via tudo isso, ele via alguma coisinha -, a honra de São João celebrando a Missa ali, na presença de Nossa Senhora, iluminada como um Serafim descido do Céu, e ele percebendo quantas coisas se passavam em torno dEla…

           Está bem, os senhores querem ter ideia do que é uma Missa? Foi ou não foi uma grande honra ele entrar nesse oratório nessa ocasião? Uma honra enorme. Celebrar uma Missa é uma honra maior! Dizer as palavras pelas quais se opera a Transubstanciação é uma honra maior do que tudo isso. Aí os senhores compreendem o que é celebrar uma Missa.

           “A essa Missa Nossa Senhora assistia ao lado de Seu Divino Filho, e Ela comungava a Ele na hora da comunhão da Missa”.

           Os senhores vejam que coisa linda! Deus está por toda parte, Ele estava ao mesmo tempo ao lado dEla e dentro dEla nessa ocasião.

           “Todos esses mistérios eram um espetáculo de novo gozo para os Santos, que também serviam como de padrinhos na Comunhão mais digna que depois de Cristo se viu, nem se verá no mundo”.

           Realmente, não houve comunhões iguais às de Nossa Senhora, nem de longe!

           “E em recebendo a grande Senhora Seu Filho Sacramentado, Ele A deixava recolhida consigo mesma naquela forma, na qual Ela tinha gloriosa, e Ele de um modo glorioso e natural voltado para o Céu”.

           Quer dizer, aí a festa termina. Ele vai embora, mas fica dentro dEla, em estado eucarístico. E Ela, então, continua a vida de todos os dias.

           Aí terminou a festa, terminou a cena maravilhosa, terminou a comemoração da Natividade de Nossa Senhora. Mas terminou de que jeito?

           Ela ficando o dia inteiro com Ele dentro do Coração, até o dia seguinte, o dia seguinte, o dia seguinte… até o último momento da morte dEla.

Fonte: Natividade de Nossa Senhora: uma festa, três auges (com texto e áudio) (pliniocorreadeoliveira.info)

(*)

  • Se Plinio Corrêa de Oliveira estivesse entre nós, certamente pediria que se colocasse explícita menção a sua filial disposição de retificar qualquer discrepância em relação ao Magistério da Igreja. É o que fazemos aqui constar, com suas próprias palavras, como homenagem a tão belo e constante estado de espírito:
  • “Católico apostólico romano, o autor deste texto  se submete com filial ardor ao ensinamento tradicional da Santa Igreja. Se, no entanto,  por lapso, algo nele ocorra que não esteja conforme àquele ensinamento, desde já e categoricamente o rejeita”.
  • As palavras “Revolução” e “Contra-Revolução”, são aqui empregadas no sentido que lhes dá Dr. Plinio em seu livro “Revolução e Contra-Revolução”, cuja primeira edição foi publicada no Nº 100 de “Catolicismo”, em abril de 1959.

Deixe uma resposta