Plinio Corrêa de Oliveira

“Folha de S. Paulo”, 20 de junho de 1971

Porque o Instituto Plinio Corrêa de Oliveira lhe vem oferecer a leitura de um artigo do ano de 1971?- Primeiro porque essa publicação é consoante com uma de suas finalidades : “Fazer conhecer, no Brasil e no Exterior, a figura ímpar de Plinio Corrêa de Oliveira e sua vida de dedicação abnegada em defesa da Civilização Cristã”. – Segundo, porque se o tempo passou e algumas coisas mudaram, o sabor do texto e o ensinamento que transmite estão tão vivos que parecem evolar-se das linhas, junto com o cheiro da tinta fresca no papel de então. Segue leitor, Gogó já lhe espera no avião!

* * *

Entrei no avião que partia par o Rio, e ocupei minha poltrona. Decolamos logo. Para me distrair, tomei um jornal. Estava sem graça. à mingua de melhor, olhei de soslaio para o passageiro a meu lado. Era um tipo pouco comum.

Esguio, seco, trazia no alto de um pescoço comprido, uma cabeça inesperada. A face era redonda e enorme, mas a caixa craniana, excepcionalmente rasa.

Dir-se-ia uma moeda com o verso trazendo olhos, nariz e boca, e o reverso uma opulenta cabeleira grisalha. Entre o verso e o reverso, uma superfície pequena, no qual se encaixavam duas orelhinhas. Os olhos eram inexpressivos, se bem que ligeiramente saltados. As pálpebras inferiores, túmidas e caídas, formavam grandes babados. Ele notou meu olhar. E então, com lentidão na voz bem timbrada, me perguntou: “Plinio, lembra-se de mim?”

Era evidentemente um conhecido de antigas eras, algum companheiro de infância, talvez. Enquanto eu procurava ganhar tempo com as evasivas clássicas “ora essa!”, “há quanto tempo!” etc., ia me esforçando por fazer uma reconstituição arqueológica, para ver que figura do passado me era possível reconstruir com base naquela ruína. Porém, nada obtive. Até o momento em que meus olhos se puseram ocasionalmente em seu pescoço, onde um caroço pontudo subia e descia rapidamente. Em torno deste caroço, tudo se ordenou e esclareceu — “Gogó”, exclamei, “como vai Você”? — Ele riu alegre. Apertamo-nos longamente as mãos. Pusemo-nos a conversar.

* * *

Godofredo Gondra de Godói Gomes, este era o nome não desprovido de certa pompa, do meu conhecido de infância. Claro está que os colegas tinham simplificado o nome dando ao menino o apelido de Gogó.

— Que fim tinha levado o Gogó? Qual foi sua carreira? O que fez na vida? — Todos estes dados me faltavam para conversar com o homem. Lembrava-me melhor de sua irmã, Maria Gondra de Godói Gomes. Mais abreviadamente, para uso corrente, Maria Gondra. Desse nome, a malícia dos colegas fizera, por sua vez, um apelido — Maria Gôndola — a fim de assinalar que, por sua corpulência, ela ocupava nas rodas infantis o espaço, não de uma menina, mas de uma gôndola.

Maria Gôndola e o Gogó eram unidíssimos. Ela, com muito mais personalidade, o influenciava a fundo. Maria Gôndola se fez freira por volta de 1945, e se engajou logo no movimento progressista nascente. Como de estilo, na era inaugurada por Jango, participou de passeatas, teve casos com a polícia e foi “aconselhada” a estudar no Exterior. Quando voltou, estava “aggiornata” dos pés à cabeça. Não usava mais qualquer vestígio de hábito religioso, e se pôs a morar num apartamento por aí — Ainda é freira? — Não sei. Nem sei se ela sabe.

A aeromoça passou oferecendo um cafezinho. Gogó aceitou e começou a sorver a rubiácea. Isto cortou as saudações, e Gogó, estimulado pela bebida, começou a conversar.

Gogó — Pois é, Plinio, às vezes eu e a Maria lembramos juntos tanta coisa do passado e falamos também de você. No que você havia de dar, com seus livros, suas campanhas, sua “TPF”!

Eu — Gogó, você se engana, a TFP não é minha. Eu é que sou dela. E com toda a alma. Quanto à sigla, você bolostrocou. Não é “TPF”. É TFP. Tradição, Família e Propriedade.

Gogó — Eu sei, eu sei! A Maria é que fala sempre “TPF”. No começo, eu a corrigia. Mas ela disse que na roda dela (não estranhe, o leitor, mas Gogó nunca foi forte em Português) todos fazem questão de só dizer “TPF”. Contrapropaganda, você sabe? Pirraça. E ela se habituou a só dizer assim — e Gogó sorriu com uma malícia oca, que procurava em vão ser ardida.

Não sei se, no momento, ele sentiu esse vazio. O fato é que, como se fosse para enriquecer de substância o seu dito, Gogó acrescentou: — É ardidinha a mana, mas é inteligente… — quanto a inteligente, Gogó tinha uma tal ou qual razão, quanto a “ardidinha”, tinha muitíssima. Pois Maria Gôndola foi sempre um pote de pimenta.

Eu — Então, Gogó , sua irmã não gostou da TFP? Nem você?

Gogó — Francamente, não. Sou absolutamente contra a tradição. Cada geração que vem ao mundo deve rejeitar tudo do passado, e construir por sua própria conta, segundo sua própria inspiração. Nada de poupar a velheira deixada pelos maiores.

Eu — A tomar ao pé da letra o que você diz, cada nova geração deve pôr-se, de início, no estado de barbárie, que é a estaca zero da qual todas as civilizações atuais partiram. E desse estado deve reconstruir tudo quanto foi feito pelos que a antecederam. É bem o que você quer?

Gogó — Já lhe disse, é preciso acabar com a velheira, com o que não for aproveitável. O resto pode ficar.

Eu — Mas então não é mais todo o passado que deve ser destruído? É só a velheira. Como você define, então, velheira?

Gogó — Velheira é, por exemplo, a Idade Média, com seu ambiente confinado, sua estagnação, suas desigualdades. Com seu protocolo, suas pompas, sua moral rígida, seus dogmas, sua metafísica. Como detesto tudo isto! Maria também detesta. Como os medievais difereriam dos gregos e romanos cuja civilização, cheia de elementos perenes, não souberam conservar.

Eu — Se diferiram tanto assim, Gogó, merecem seu elogio. Desprezaram o passado e construíram um mundo próprio, peculiar. Na realidade, os medievais é que fizeram chegar até nós os restos de cultura clássica, que as invasões bárbaras haviam destruído.

Gogó — Já disse, Plinio, tudo que vem da Idade Média é velheira.

Eu — Curioso! O fator tempo não entra na sua definição de velheira! Uma cultura anterior a Jesus Cristo, para você não é velha. Uma cultura muito posterior o é… Então, velho é o que você e sua irmã acham antipático, o que lhes choca os preconceitos?

Gogó — Eu não tenho preconceitos. Preconceito é coisa medieval. É coisa boa para vocês, la da turma do leão dourado sobre fundo rubro. Eu não tenho comigo nada de medieval.

Eu — Não corra tanto, Gogó. Você está coberto de coisas que lhe vêm da Idade Média, seu relógio também. E também todos os botões da sua roupa. Óculos, relógio mecânico, botão tudo isto vem da Idade Média. Você me estendeu a mão, há pouco, para me cumprimentar. Esta forma de saudação nasceu na Idade Média. Foi na Idade Média que se constituiu o idioma que você fala. Se você quiser, posso mostrar-lhe com fatos e argumentos, que a Idade Média foi bem diversa do que você pensa.

Gogó — Lá vem você querendo agarrar-me como se fosse o sanhudo leão rompante de seu heráldico estandarte. Uma velharia medieval inteiramente fora de uso, essa heráldica. Quem hoje ainda cuida dela?

Eu — Se sua consciência está em ordem, não tenha medo do nosso leão. Gogó: ele só deita garras em quem não presta. Quanto à heráldica, está em pleno uso no Brasil contemporâneo. Cada Estado, cada Município de nosso País tem um brasão heráldico. A cidade de São Paulo, por exemplo. Você não se lembra do lindo “Non ducor, duco” de nossa São Paulo?

Gogó — E as desigualdades medievais? Detesto toda e qualquer desigualdade. Você não vai me convencer de que a desigualdade é um bem!

Eu — Você é comunista, Gogó. Pois detesta todas e quaisquer desigualdades só pode querer uma sociedade sem classes. Isto é, uma sociedade em que todos tenham o mesmo nível social e econômico. Ou seja, a sociedade comunista.

Gogó — Bem, assim, também não. Mas…

Eu — Então não diga que você é contra toda e qualquer desigualdade. Há algumas que você tem de aceitar, se não quer ser comunista… É bem assim? Diga-me, então, que desigualdades você aceita, e quais rejeita.

O caroço pontudo subia e descia rapidamente no pescoço de Gogó. Ele procurava uma saída, porém não a encontrava.

Um tranco. O avião acabava de pousar. Gogó se levantou apressadíssimo. Queria sair logo. Perguntei-lhe se voltava no mesmo dia para São Paulo. Disse-me que sim, no último avião. Pensei comigo: se calhar de voltarmos juntos, vou pedir notícias de Maria Gôndola e aproveitarei para esgrimir mais um pouco com o Gogó.

Quando olhei, ele já ia longe, metendo, sem mais reflexões, em um compacto grupo de turistas, seu corpo esguio e sua cara com forma de moeda.

Curioso, o homem. Discute como anda, às carreiras, fugindo de assunto a assunto, e metendo em cada um deles, inconsideradamente, sua magra inteligência e o olhar úmido e superficial procedente de sua cara de moeda.

Há tanto Gogó neste mundo, a deblaterar sobre coisas que não conhece, e não entenderia se as conhecesse…

4 COMENTÁRIOS

  1. Belíssimo este texto ! aliás, belíssima explanação de Dr. Plínio p/ o Gogó, sobre nós sermos ‘anões sobre os ombros de gigantes’, a importância de valorizarmos as bases, as bases que sustentam nosso chão, nossa identidade cristã humana.

  2. É isso aí! São Tomas de Aquino disse: “para quem cre, nenhuma explicação é necessária; para quem não cre, nenhuma explicaçãoé possivel!”
    Muitas vezes podemos tentar, por todos os meios – dialogos, argumentos, questionamentos, perguntas e respostas – que sempre haverá evasivas para não querer entender a nossa civilização em uma linha existencial desde os tempos romotos. Apegam-se aos modernismos, modismos, novidades e ondas que desaparecem praticamente da mesma forma como surgiram, sem acrescentar nada à historia. Novidades e modernismos que surgiram tentando acabara com a velharia, e que perturbam a historia da humanidade é o comuniscmo e socialismo, com suas ideologias contra as tradições procuram através da violencia aos direitos, garantias constitucionais aos cidadãos e das armas inclusive nucleares, implantar e dominar a toda nação. As tradições – o que vem de tras, as raizes fortalecem a humanidade como colunas do tempo. Quer velharia mais antiga que a água que bebemos, o ar que respiramos, a terra em que vivemos? A modernidade contaminou, poluiu, destruiu e se buscam as origens da água limpa, pura e cristalina e ar puro, meio ambiente tradicional, para que a humanidade não entre em exterminio. Quem lê ou assitiu o filme “pontos de mutação” e souber interpretar as metáforas sugeridas saberá identificar as diferenças entre a tradição e as modernidades.

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