No mundo fitness, a moda agora é ser cristão light

    Autor: Carlos Vitor Valiense

    Estamos vivendo a febre da moda fitness: academias cheias, suplementos, muita musculação, dietas detox, muita proteína e pouco carboidrato, sem contar que só se pode comer aquilo que for integral e light. As descobertas das invenções lights foram muito boas para as pessoas diabéticas, por exemplo, que não podem consumir açúcares, mas presentemente virou sinônimo de quem quer emagrentar sem fazer esforço (o que não passa de mera utopia).

    Acontece que estamos levando essa coisa do light também para a nossa esfera espiritual. Os cristãos de hoje estão aderindo com muita rapidez à dieta do Cristianismo light, sendo estes os seus maiores chavões: “tudo pode”; “tudo é bom”; “se você se sente bem, é o que importa”; “toda religião nos leva a Deus”; “temos que respeitar”; “não podemos seguir tudo o que a Igreja diz”; “Deus é paz e amor”. Você conhece com certeza alguém assim, ou muitas vezes esse alguém é você mesmo. Isso constitui certamente um grande perigo!

    Disse Jesus na Parábola do Semeador: “Todo aquele que ouve a palavra do Reino e não a compreende, vem o Maligno e rouba o que foi semeado em seu coração. Este é o que foi semeado à beira do caminho. A semente que caiu em terreno pedregoso é aquele que ouve a palavra e logo a recebe com alegria; mas ele não tem raiz em si mesmo, é de momento: quando chega o sofrimento ou a perseguição, por causa da palavra, ele desiste logo. A semente que caiu no meio dos espinhos é aquele que ouve a palavra, mas as preocupações do mundo e a ilusão da riqueza sufocam a palavra, e ele não dá fruto. A semente que caiu em boa terra é aquele que ouve a palavra e a compreende. Esse produz fruto. Um dá cem, outro sessenta, e outro trinta” (Mt 13,19-23).

    A parábola é clara e muito forte para os lights de plantão: “ele não tem raiz em si mesmo, é de momento: quando chegam o sofrimento e a perseguição, por causa da palavra ele desiste logo […] as preocupações do mundo e a ilusão da riqueza sufocam a palavra” (Mt:13.21,22). Para estes, tudo é feito sem esforço, tudo tem que ser fácil e em hipótese alguma pode incomodar. Estamos criando um mundo onde tudo é light. Tudo pode ser feito sem consequência. Essa é a mentalidade do light. Quando as pessoas adentram nesse estilo de vida, elas não pensam mais na Cruz, pelo contrário, fogem dela, fogem do sofrimento, da renuncia diária, não são capazes de entender os verdadeiros sacrifícios da vida, quem dirá o verdadeiro ato de amor que se entregou na Cruz.

    Plinio Corrêa de Oliveira: “Ser católico e ter medo de sofrer por Deus é fazer deste um mero banqueiro”

    “O Reino dos céus é dos violentos” – diz o Evangelho. Precisamos fazer uma violência interior em nós mesmos, pois isso é fundamental para vivermos um cristianismo puro, simples e sério. É interessante vermos a “paùra”, o medo que as pessoas têm do Crucificado, cujo destino elas não querem partilhar. Mas, “ad lucem per crucem”: para que haja Ressurreição é preciso passar pela Via-Crúcis. “Se com Cristo morremos, com Ele ressuscitaremos”. No entanto, na concepção light, nada melhor do que uma vida fácil, e se puder pagar no cartão de crédito e dividir a salvação em dez vezes sem juros, seria ainda melhor. O célebre Dr. Plínio Corrêa de Oliveira já dizia “Ser católico e ter medo de sofrer por Deus é fazer deste um mero banqueiro”.

    Os santos sempre fizeram uma opção radical de fé e de vida, eles são os maiores exemplos da verdadeira ascese cristã em contraponto a esse cristianismo light. Não existe um caminho de santidade light. Os santos não se encaixam no contexto fitness e light de que estamos falando. Podemos dizer que eles são verdadeiramente “Great”. Santo Tomás de Aquino é um magnífico exemplo de “Great”. E em todos os aspectos: sabedoria, estatura e graça.

    Grande foi também o Papa São Félix III, que disse sobre o Patriarca Acácio (no século V): “Não se opor ao erro é aprová-lo e não defender a verdade é suprimi-la; com efeito, não denunciar o erro daqueles que praticam o pecado quando o podemos fazer não é pecado menor do que apoiá-los”. (Epístola do Papa São Félix III ao Patriarca Acácio, de Constantinopla, 483). (Erro cui non resistitur approbatur, et veritas quae minime defensatur, opprimitur).

    Hoje em dia, o processo de conversão é diferente: o “ideal” é que nos convertamos ao Evangelho do nosso jeito, da nossa maneira e da nossa forma, em meio a uma sociedade sem esforços, onde as pessoas desistem em qualquer momento e hora de seus objetivos. Não existe sequer foco. O pior é que até as famílias entraram na onda: “Queremos ser uma família rilex”. Desejam até mesmo que Deus entre na dieta, light criando um “deus light”.

    Uma das maiores divergências atuais é o pensamento esdrúxulo segundo o qual ser cristão é coisa fácil. Essa é a ideia central dos inimigos da fé: desarmar aqueles que deveriam andar armados e preparados para o combate. “Revesti-vos de toda a armadura de Deus, para que possam estar firmes contra as astutas ciladas do diabo” (Efésios 6,11). A preocupação exacerbada em proteger o corpo é ruim quando se esquece de proteger a alma. Nutri a alma com o verdadeiro alimento que é a palavra de Deus e a Divina Eucaristia, e colocar em prática não o parcial e o agradável, mas a integralidade, como fizeram os santos. Eis o ápice para se viver o verdadeiro ideal cristão.

    O cristão deve viver o desafio diário da coerência de sua vida com os ensinamentos de Deus, da Santa Igreja. Devemos combater o laxismo do cristianismo light que deturpa a verdadeira essência da ascese cristã; devemos nadar com todas as forças contra a maré prolixa desse cristianismo light. E, como verdadeiros cristãos, buscar e viver autenticamente o Cristianismo.