É noite. Advinha-se o silêncio absoluto que habita na escuridão que a fotografia fixou. A alma, numa atmosfera como esta, se sente convidada à reflexão. Todas as circunstâncias grandes ou pequenas, agradáveis, enfadonhas ou até dolorosas da vida quotidiana desaparecem. A sós consigo mesmo, pode o homem transcender de tudo isto, e penetrar na região interior do recolhimento, da reflexão e do estudo.

É uma felicidade austera e calma. Em uma palavra, é uma felicidade verdadeira.

Em nosso clichê esta felicidade se faz sentir vivamente.

Três luzes estão nele acesas. A menos importante é a que propriamente merece o nome de luz: é a da vela. O seu reflexo sobre o livro constitui a segunda nota clara da gravura. Tem-se a impressão de que o pensamento contido no texto se torna luminoso. E a luz da vela e o reflexo no livro iluminam o rosto, fazendo ver nele a luz mais verdadeira, que é a da alma atenta e sutil que lê.

Analise-se este rosto imerso na leitura: está calmo, absorto, feliz.

É, como dissemos, a felicidade do isolamento, do recolhimento, a felicidade de pensar…

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Desta felicidade eram sôfregos nossos maiores. Mas os que a apreciam se vão tornando sempre mais raros.

Cresce pelo contrário o número dos que só sentem prazer no ruído, na agitação, nas sensações “exciting”.

Em Nova York, no bairro de Harlem, torcedores acabam de saber da vitória de seu campeão. Brancos, pretos, amarelos, vermelhos, entre todos hoje se generaliza a tendência a achar que felicidade é isto…

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Para os que sabem qual o prazer do recolhimento, está estabelecido um pressuposto precioso para a santificação. São Bernardo dizia: “O beata solitudo, o sola beatitudo!”

Mas para os que vivem no bulício perpétuo, os que não sabem nem querem viver fora dele, quantos ruídos abafam a voz da graça…

“Non in commotione Dominus” ( 3 Rs. 19, 11 ). Deus não Se encontra na agitação.

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