Luzes de esperança se projetam sobre a catedral de Notre-Dame de Paris, após o trágico incêndio do ano passado

Em 15 de abril completou-se um ano do incêndio da catedral de Notre-Dame. Um francês disse então: “Dei-me conta de que fiquei órfão”. Outro chorava “seu segundo lar”. Até os que não frequentavam a catedral sentiram uma carência na alma.

Projeto da “flecha” de Notre-Dame, de autoria de Eugène-Emmanuel Viollet-le-Duc (Museu Carnavalet, Paris)

Discutem-se as causas do incêndio, a fisionomia que terão o teto e a agulha do templo sagrado no final da restauração. Em um ano de avaliações, garante-se que a estrutura está sólida e a reconstrução da parte superior pode começar sem riscos. Leis nacionais e acordos internacionais obrigam a uma restauração à l’identique (idêntica ao que sempre foi). Os planos pormenorizados do arquiteto Viollet-le-Duc, no século XIX, impedem adulterações. Mas quem conhece a classe política tem sempre muito a temer…

Em 1988, por ocasião de sua última visita à magnífica catedral, Plinio Corrêa de Oliveira comentou: “À Notre-Dame podem ser aplicadas as palavras da Escritura: Jerusalém é comparável a uma cidade perfeita, a alegria do mundo inteiro”. Em décadas anteriores ele já havia confidenciado sua dor pela insensibilidade dos parisienses por sua igreja-mãe, dizendo que eles haviam deixado a catedral como “uma coisa para turistas verem”.

Estaria surgindo hoje em incontáveis franceses, em relação à sua “casa-materna”, a catedral de Notre-Dame, uma ponta de dor semelhante à do filho pródigo quando começou a sentir saudades do lar paterno? É uma luz de esperança, não somente quanto à perfeita restauração arquitetural do edifício, mas também uma restauração profunda das almas na França, “filha primogênita da Igreja”.

A gárgula “observa” do alto da catedral a movimentação do povo parisiense

Não há livros suficientes para conter a narrativa das glórias dessa “filha primogênita” e dos requintes desse seu símbolo máximo. Não seriam poucos também, infelizmente, os volumes necessários para registrar os crimes perpetrados contra ela por franceses possuídos pelo espírito satânico da Revolução gnóstica e igualitária.

Nos remotos tempos em que a visitei pela primeira vez, eu a elogiei quando conversava com um jovem líder conservador. Ele se espantou, e deplorou que não tivesse sido efetivado o plano pós-Segunda Guerra Mundial, o qual previa arrasar a Île de la Cité e adjacências para erigir ali uma Manhattan parisiense. É nesse espaço que estão encravados Notre-Dame, Sainte-Chapelle e Palácio de São Luís, entre outras jóias da Cristandade. O monstruoso projeto foi efetivado depois pelo presidente socialista François Mitterrand; mas no bairro de La Défense, num local afastado.

Anos depois, contei essa conversa a um arquiteto colombiano, que logo respondeu: “Isso não é novo! Já Luís XV o tinha excogitado; e Luís XVI [quadro ao lado], em reunião do Conselho de Ministros, aquiesceu com o fim desse monumento, tido como bárbaro e arcaico”. Mostrou-me então o álbum “Paris des utopies”, com a gravura em página inteira de um templo grego que, graças a Deus, acabou não sendo construído.

Durante a Revolução Francesa, entretanto, profanaram a catedral com sanha satânica, parodiando um culto à “deusa razão” representada por uma artista imoral, que foi levada em procissão sentada num trono. Além disso decapitaram aquelas imagens tidas pelos revolucionários como “símbolos odiosos da monarquia”; espatifaram os sinos, arremessando-os do alto das torres ao chão; suprimiram o culto e perseguiram os sacerdotes, que fugiram ou foram martirizados. Em 1804 Napoleão encenou na catedral uma apalhaçada autocoroação.

Detalhe de uma das fachadas de Notre-Dame de Paris

Foi esquecido o pesadelo do templo grego, mas, após esses e tantos outros atentados, a tentativa de destruir a catedral não se desfez. Na Comuna de Paris (1871), uma sessão histérica do comité revolucionário conclamou a sua demolição. Os revolucionários amontoaram altares, cadeiras e confessionários, lançaram fogo em tudo e fugiram, porque a catedral poderia desabar. Muitas pessoas do povo formaram correntes humanas, retirando água do rio Sena com toda espécie de recipientes, e salvaram a catedral.

A novela “Notre-Dame de Paris”, de Victor Hugo, eletrizou os franceses, e um movimento de opinião pública se opôs à demolição, conduzindo o genial Viollet-le-Duc a assumir sua reconstrução. Devido a inúmeras interrupções, a restauração iniciada por ele ainda estava em andamento um ano atrás, quando o incêndio irrompeu na catedral.

Nesse longo percurso, o destino de um povo eleito era mais importante do que o edifício contra o qual se conspirava; e o bem da própria Cristandade, pelo alcance que a catedral tem para a voz da Igreja Católica. Percebeu-o bem o Cardeal Eugenio Pacelli, futuro Pio XII, em seu sermão na Notre-Dame, em 13 de julho de 1937: “Na hora presente a voz desta catedral não tem mais eco! Quantos corações renovam o gesto de Lúcifer, com orgulhosa ostentação de incredulidade! Estes arcos, sob os quais se manifestou com élans magníficos a alma da França de outrora, olham hoje um mundo que tem mais necessidade de redenção do que qualquer época da História”.

Santo Afonso Maria de Ligório, em célebre sermão, mostra que o pecador não ouve as ameaças de Deus até que o castigo se abata sobre ele. Que castigo poderia ser mais impressionante do que a queda da flecha de Notre-Dame em chamas, ante o olhar horrorizado da humanidade inteira interconectada, assistindo ao incêndio?

O castigo pode tocar o coração dos filhos. Muitos deles sentiram a dor da orfandade, e manifestaram sua tristeza pelo acontecido com Notre-Dame. Esperamos que o número dos “filhos pródigos” cresça, e na hora do almejado “grande retorno” da catedral possamos cantar o Magnificat.

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Fonte: Revista Catolicismo, Nº 834, Junho/2020.

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