A D V E R T Ê N C I A

O presente texto é adaptação de transcrição de gravação de conferência do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira a sócios e cooperadores da TFP, e não foi revisto pelo autor.

Se o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira estivesse entre nós, certamente pediria que se colocasse explícita menção a sua filial disposição de retificar qualquer discrepância em relação ao Magistério da Igreja. É o que fazemos aqui constar, com suas próprias palavras, como homenagem a tão belo e constante estado de espírito:

“Católico apostólico romano, o autor deste texto  se submete com filial ardor ao ensinamento tradicional da Santa Igreja. Se, no entanto,  por lapso, algo nele ocorra que não esteja conforme àquele ensinamento, desde já e categoricamente o rejeita”.

As palavras “Revolução” e “Contra-Revolução”, são aqui empregadas no sentido que lhes dá o Prof. Plínio Corrêa de Oliveira em seu livro “Revolução e Contra-Revolução“, cuja primeira edição foi publicada no Nº 100 de “Catolicismo”, em abril de 1959.


 

Santo do Dia, 15 de abril de 1989, sábado

Imagem esculpida (cerca 1267) segundo o estilo do final do reino de São Luís IX de França, onde se notam magnificamente expressos – ao mesmo tempo – majestade, doçura materna, candura e charme de Nossa Senhora (museu Vivenel, em Compiègne, França)

O Sr. X, no caminho de minha casa para cá [Auditório São Miguel, à Rua Dr. Martinico Prado, 246], fez-me notar que, no conjunto de fatos de minha vida que venho narrando, um tipo deles, aos quais não me tinha referido ainda e que são muito importantes.  Tenho certeza absoluta que já tratei desses fatos no auditório, mas com um público que provavelmente não atingia a todos os que se encontram agora presentes. De maneira que se compreende que eu – tanto quanto possível –  rapidamente repita alguma coisa a respeito desses episódios que tiveram muita importância na formação da minha alma e, portanto, em todo o decurso de minha vida.

Isso se deu mais ou menos quando estava no último ano da Faculdade de Direito, sendo que me formei-me com vinte e dois anos. Portanto devia ter entre vinte e vinte e um anos.

Tive um período de muita leitura, porque nosso Grupo do “Legionário” estava apenas começando a se formar com reuniões à noite na sede da Congregação Mariana.  Fora disso, eu não tinha outra ocupação, o que me dava tempo para ler e meditar confortavelmente.

Em tal período de leituras, três livros foram principais e outros três foram auxiliares.

O “Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem”, de São Luis Maria Grignion de Montfort

O primeiro foi o “Tratado da Verdadeira Devoção” de São Luis Maria Grignion de Montfort. Livro este que apesar de haver lido, relido e lido várias vezes, eu ainda o conservo junto a uma fotografia de minha Mãe, na cabeceira de minha cama, a fim de relê-lo eventualmente. Mas, em qualquer caso, como símbolo de minha fidelidade a tudo quanto nele está contido.

Embora seja uma edição popular muito comum, tenho esse livro como um preito de fidelidade ao que eu quero ser fiel até o último instante de minha vida: o propósito de crescer na devoção a Nossa Senhora, em todos os instantes. Não se trata, para mim, de ser devoto de Nossa Senhora, mas é outra coisa: crescer cada vez mais. Não é também só isso, porém é mais ainda:  é ter uma devoção que não cesse de crescer em nenhum instante de minha vida.

Quando os senhores me virem comungar, podem ter a certeza que, imediatamente depois de receber a Sagrada Partícula, a primeira oração que faço é a Nossa Senhora e por meio dEla ao Sagrado Coração de Jesus,  para ser cada vez mais fiel na devoção a Ela, ensinada por São Luis Maria Grignion de Montfort, em todos os dias de minha vida.

Esse livro causou-me uma impressão profundíssima, que me ficou na alma até hoje.

Santa Teresinha do Menino Jesus

Lembro-me de uma circunstância muito banal, muito pequena e que esteve na origem da leitura desse livro. Eu era muito devoto – e ainda sou – de Santa Teresinha do Menino Jesus. Em condições particularmente delicadas, que relatarei aqui se tiver tempo e se me lembrarem, eu li a “Histoire d’une âme” [História de uma Alma], escrita por ela. Trata-se de uma autobiografia de sua vida espiritual, tornando-me muito devoto dela.

Naquele tempo, havia no povo paulistano em geral uma grande devoção a Santa Teresinha.  E isso a tal ponto que, quando chegava o dia de sua festa, que a 3 de outubro [posteriormente transferida para o dia 1° de outubro, n.d.c.], os bondes e ônibus que transitavam pela Avenida Angélica – os senhores sabem que a igreja de Santa Teresinha em Higienópolis fica na rua Maranhão, à pequena distância dessa Avenida -, eram massas e massas de transeuntes que desciam. Era gente que vinha de todos os bairros de São Paulo, nesse dia, para prestar culto a Santa Teresinha do Menino Jesus. Era tida como uma santa por meio de cuja intercessão se conseguia grande número de graças.

Eu tinha lido esse livro dela e ficara profundamente impressionado. Vendo que todo mundo obtinha graças por seu intermédio, resolvi pedir-lhe duas graças, das quais sentia muita necessidade. Uma era a de que me fizesse encontrar um bom livro, que valesse a pena ler. Porque livreco, livrequinho e livrinho está cheio por aí. Mas queria um desses livros de marcar uma vida

Acima, fachada da igreja do Imaculado Coração de Maria (em São Paulo), próxima da qual havia a livraria onde o Prof. Plinio encontrou o “Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem” de São Luis Maria Grignion de Montfort.

De outro lado, pedi-lhe uma coisa muito diferente, e que os srs. vão até estranhar: ganhar uma loteria. No bilhete de loteria que comprei, o prêmio máximo era 400 contos. Na época, correspondia a um patrimônio, no meu padrão, para levar a vida não brilhante, mas tranqüila. Não queria fazer um pedido exagerado para ganhar muito dinheiro, embora estivesse esfuziante do desejo de conhecer a Europa.

Pedir esse dinheiro para quê? Eu não queria ter preocupações profissionais, para poder me dedicar ao apostolado o tempo inteiro. Um corolário, uma conseqüência da consagração da minha vida ao apostolado consistia em não ter preocupações materiais.

Quanto aos 400 contos, ainda estou esperando…  Não chegaram. Mas o livro, pouco depois, encontrei-o! Com efeito, fui à livraria dos Padres do Coração de Maria, que era mais ou menos onde está agora [a Rua Jaguaribe, próxima à Rua Martim Francisco, n.d.c.], e entrei para ver se encontrava algum livro.

Encontrei um livrozinho, impresso de um modo muito agradável, em preto e vermelho, com umas marcações, de um autor do qual nunca tinha ouvido falar.  O livro era em francês e seu autor “Bienhereux (bem-aventurado) Louis Marie Grignion de Montfort”.

Na hesitação, guiado pela mão de Santa Teresinha…

foto de quando Dr. Plinio tinha entre 20-21 anos

Um bem-aventurado…  Mas o que dirá esse livro?  “Traité de la Dévotion à la Sainte Vierge Marie”.  Quem sabe lá se esse não é o livro de Santa Teresinha?… Pus de lado, e fui ver outros para o caso de mais algum me interessar.  E me deparei com outro, de que nem me lembro o título e do qual também não tinha ouvido falar. Lembrem-se que eu era muito moço então, tinha 20-21 anos e não conhecia de nome senão um número limitado de autores. Fiquei, assim, na dúvida de qual dos dois levar. Folheei um pouco o “Tratado”, achando-o muito bem impresso, muito atraente, muito agradável de se ler. E o outro era um livraço indigesto.  Enfim, por esta simples razão – pensava eu, e não percebia que Santa Teresinha estava guiando o meu braço – optei pelo “Tratado da Verdadeira Devoção”.

Eu tinha muita dificuldade em me ajustar a um certo tipo de livros de piedade, que havia naquele tempo – em português mas certamente também em francês e alemão, e em geral nos idiomas que conhecia -, muito açucarados: “Ó cândida santinha, dizei-me, oh…”  coisas assim que não vão comigo.

Eu queria um livro sério, substancioso, em que o sentimento tivesse sua parte, mas a parte secundária que o sentimento deve ter. A posição primeira corresponde à fé que ilumina a razão. Já que vou ler sobre Nossa Senhora, quero saber o que a Igreja ensina sobre Ela. Então, ponto um, ponto dois, ponto três…  Em segundo lugar, daí se deduz tal coisa, tal outra e mais outra…  Nesse caso, terei lido uma obra razoável, racional, impregnada de sobrenatural, porque todo ele baseado na Fé.  Este é o livro que quero ler!

Lembro-me que cheguei em casa e, naquele dia ou no seguinte, eu abri o livro. Mas não com muita esperança, porque não estava tão certo de que aquilo fosse obtido por minha oração a Santa Teresinha. Achava, pelo contrário, que os 400 contos eram muito mais importantes do que o livro.  E como o dinheiro não vinha, eu me perguntava: será que o livro teria sido mandado por ela? Não sei…

De outro lado, eu não tinha idéia que um livro pudesse exercer sobre mim ou sobre outros o efeito que me causou esse. Quando comecei a folheá-lo, fi-lo por qualquer ponto. Pois tenho muito a propensão de abrir um livro em qualquer lugar, do meio para o fim. Depois, leio o início. Parece-me que pego melhor o que o autor queria embaralhando as cartas dele, para ver melhor qual sua intenção.  Embora ele fosse um bem-aventurado – portanto gozando da visão beatífica -, eu achava que o livro ficava bem mais interessante quando a gente tem alguma coisa para adivinhar, ao lê-lo. Não é só o que o autor diz [que torna interessante a leitura], mas a gente adivinhar.

Então, lendo-o do meio para o fim, adivinha-se como é o começo. Depois se verifica se, de fato, o início é aquele que se imaginava. Isto confere um certo sabor de coisa nova que me agradou sempre muito fazer e me agrada ainda.

Eu abri o livro de qualquer lado e comecei a lê-lo. Quando tinha lido uma ou duas páginas, pensei para comigo: “Não. Isto aqui é outra coisa. Esse livro não se pode ler assim. Tem que ser lido desde o começo, porque é de alto quilate! É absolutamente o que eu queria!”

O livro tinha para mim uma atração pequena complementar:  era escrito em francês.  Os senhores sabem o que isso significa para mim…

Aí comecei a ler e vi que era um portento de livro, porque era baseado no que há de melhor em matéria de Teologia, aprofundando a doutrina sobre Nossa Senhora, largamente, largamente e com altas vistas, de maneira a se ter bem uma noção dEla no plano da Providência Divina: o que Deus teve em vista criando Nossa Senhora, o papel de Sua santidade e de Sua perfeição de alma em toda a Criação, na vida de Nosso Senhor Jesus Cristo e no plano da Redenção, no Colégio Apostólico, na Santa Igreja, por todos os séculos etc.  Fui lendo o livro cada vez mais maravilhado, mais encantado!

O Reino de Maria era a meta para onde minha alma voava!

Em certo momento, começo a ver que o livro tem labaredas a respeito de um assunto que nunca tinha ouvido ninguém tratar e que a mim me interessava no mais alto grau: o Reino de Maria!

Eu percebi, logo que o li, que o Reino de Maria era a meta para onde minha alma voava! Eu inteiro voava para essa meta! Era bem exatamente o que queria! Isto de um lado.

De outro, o livro falava a respeito de como as almas seriam no Reino de Maria:  auge da santidade nesse reino…  Eu fiquei encantadíssimo!

Desenvolvia ainda a necessidade da Sagrada Escravidão a Nossa Senhora para agradar inteiramente a Ela  e para se dar tudo quanto se poderia ter dado.

Eu me lembro que a palavra “escravidão”, no começo, chocou-me um pouco. Como escravidão? Que negócio é esse? Mas para Nossa Senhora, o que Ela quiser! É uma honra para mim! Mas, afinal, escravidão…? Que arranjo é esse aí, hein?  Mas, não há mal! Sendo com Ela, o que Ela quiser!

Depois isso tudo exposto por esse grande santo, por essa alma de fogo! Esse espírito lógico, esse homem inteligentíssimo! Sobretudo um homem com uma vontade de uma labareda, de energia, como não tinha visto ninguém! Eu disse: “Eu vou!  Sobretudo, com Nossa Senhora, mas também com ele. Vou até onde forem! Está liquidado o caso!”

Minha alma saiu guarnecida de uma porção de idéias, de doutrinas

Minha alma saiu dessa leitura guarnecida por uma porção de idéias, de noções, de doutrinas, que seria um não mais acabar se as fosse contar aqui.  Dessas, a primeira era: a misericórdia completa de Nossa Senhora e, portanto, da confiança sem limites que nEla se deveria ter. 2) O amor materno dEla para todos e, portanto, também para mim individualmente. Ela me conheceu como a qualquer homem que anda pela rua e soube – por participação profética – os homens que viriam; amou-os a todos; quis salvar a todos e ofereceu-se por todos. 3) A co-Redentora do gênero humano! Uma coisa extraordinária…  4) A idéia dos combatentes que deveriam vir para implantar o Reino de Maria; como eles seriam e como seria esse Reino. 5) E ainda luzes proféticas sobre o fim do mundo: último declínio e Cristo Nosso Senhor que vem julgar os vivos e os mortos.

Terminado o livro, não tive um minuto de vacilação e disse para comigo mesmo:  “Eu vou me consagrar como escravo de Nossa Senhora!” Abri na parte onde tinha as orações. São trinta e três dias de longa preparação.

Junto a essa escrivaninha o Prof. Plinio fez sua Consagração a Nossa Senhora, segundo o método de São Luis Maria Grignion de Montfort

Exatamente no dia em que essa preparação estava pronta, eu me ajoelhei no meu escritório, rezei mais uma vez o Veni Creator  e o Ave Maris Stella e, por fim, o Ato de Consagração, tornando-me escravo de Nossa Senhora.

Daí então tomei a deliberação também de nunca fazer a Nosso Senhor Jesus Cristo uma oração que não fosse por intermédio dEla. E isso permanece até hoje.

Na Comunhão, por exemplo, quando tão delicadamente o nosso coro canta o “Anima Christi”, eu rezo cada um dos pedidos de que consta por intercessão de Nossa Senhora. Aquela é uma oração ardente (“Anima Christi”) composta por Santo Inácio de Loyola e borbulhando de amor a Nosso Senhor Jesus Cristo e da qual gosto muito, bem como da partitura com a qual é executada: “Alma de Cristo, santificai-me; Corpo de Cristo, salvai-me; Sangue de Cristo, inebriai-me…” etc, etc.

Outro hábito que tenho adotado é o de – quando me lembro – ao tocar o relógio meia-noite na minha presença, fazer uma jaculatória que é adaptada do “Te Deum”: “Dignare, Domine, die iste sine peccato nos custodire – Dignai-Vos, Senhor, proteger-nos de maneira que neste dia que começa nós passemos sem pecado”.  A oração é feita a Deus, mas eu a rezo por meio de Nossa Senhora, pedindo-Lhe que reze por mim, porque sei que minha oração feita por mim – como, aliás, a de qualquer pessoa ainda que incomparavelmente superior – não chega a Deus se não houver a intenção, pelo menos implícita, de a fazer por meio dEla. Se assim é, mais vale a pena fazê-lo explicitamente. Por isso, todas as vezes me ponho diante de Nossa Senhora e Lhe rogo que apresente a Deus minhas súplicas.

Este foi, como disse, o livro que mais efeito teve sobre mim na vida.

O Prof. Plínio venera a mesa sobre a qual São Luis Maria Grignion de Montfort escreveu o “Tratado”, conservada em Saint Laurent-sur-Sèvre (França), onde repousam as relíquias daquele “doutor marial” (outubro de 1988)