Emblema da STASI (Ministério de Segurança do Estado, Alemanha comunista)

O que foi de meu pai, de meu irmão ou de meu avô, levados um dia pela polícia secreta comunista e que nunca voltei a ver? Onde foi enterrado? Teve sepultura?

Perguntas doloridas como essas povoam as mentes de incontáveis vítimas do regime soviético na Rússia e na Europa Oriental. E suscitam obviamente o desejo de algo que apazigue a dor de alma.

Um estudante universitário moscovita que fazia um curso em São Paulo contou-me que em pleno “expurgo” estalinista, um andar inteiro da administração soviética em Moscou foi invadida por um esquadrão de agentes da NKVD (Comissariado do Povo para Assuntos Internos, depois mudou de nome), encarregada dos campos de concentração, espionagem e repressão em geral.

Entre os funcionários estava o avô do rapaz. Todos foram levados, ninguém pode pegar qualquer coisa ou avisar os parentes. Acabaram sumindo no sinistro arquipélago de campos de trabalho forçado, não se sabe onde.

Décadas depois, a avó do jovem, recebeu uma carta do governo, informando que a operação foi um “erro” e apresentava desculpas oficiais.

Ninguém da família nunca mais soube como acabou o antepassado. Nesse ponto do relato, o jovem não pode seguir, engoliu uma garfada e mudou de assunto.

Compreende-se que muitos outros queiram saber pelo menos algo de seus seres queridos desaparecidos.

Cidadãos impedem a destruição dos arquivos da polícia secreta comunista em Erfurt, 4-12-1989

O problema também é vivo na Alemanha Oriental.

Lá, no dia 4 de dezembro de 1989, enquanto ruía o governo comunista e seu infame muro, centenas de cidadãos invadiram pacificamente os escritórios da Stasi, – abreviatura de Staatssicherheit – a polícia secreta da Alemanha comunista, em Erfurt.

Segundo escreveu Jamil Chade, enviado especial de “O Estado de S.Paulo” eles surpreenderam os agentes da polícia secreta tentando queimar 15 mil bolsas com papel já rasgado.

Tratava-se de quase 114 quilômetros de arquivos com detalhes preciosos sobre a repressão executada pela polícia marxista durante 40 anos.

Os populares puderam impedir a destruição dessa enorme massa de documento.

Tratar-se-ia então de reconstruir os arquivos fragmentados. A estimativa dos historiadores é que a polícia política reuniu um banco de dados de dimensões inéditas, fichando seis milhões de cidadãos, refere a reportagem.

Era compreensível que a inteligência prática, o método e o trabalho do povo alemão se aplicassem com rigor e constância a recompor esse precioso arquivo.

Mas, um quarto de século depois, das 15 mil sacolas salvas menos de 100 foram esvaziadas e reconstruídas.

Sacolas com os temidos arquivos da Stasi

O projeto escreve Chade, está num impasse.

Historiadores e arquivistas constataram que o Ministério de Segurança do Estado comunista – nome oficial da Stasi –, tentou apagar os rastros do que de fato cometeu durante 40 anos da repressão.

Entre 10% e 40% dos arquivos desapareceram definitivamente. A perda só não foi maior por causa da ação da população acima mencionada.

“Eles destruíram muita coisa. Mas foram pegos em flagrante”, explicou a representante da Comissão Federal para os Arquivos da Stasi, Dagmar Hovestadt, citada por Chade.

A polícia e o prefeito ainda comunistas haviam fechado os ouvidos aos apelos para impedir o inqualificável procedimento.

Um grupo de moradores de Erfurt convocou os cidadãos a correrem até os escritórios da Stasi para impedir a destruição das provas de 40 anos de crimes.

No dia 4 de dezembro de 1989 um trabalhador barrou com seu caminhão a saída de serviço da Stasi por onde os sacos com os arquivos continuavam a ser levados a um pátio e queimados.

Enquanto isso centenas de pessoas entraram no prédio e acharam milhares de documentos sendo picotados.

Leipzig: o comunismo tinha caído mas os agentes da STASI prosseguiam destruindo arquivos

O movimento desencadeou uma onda de ocupações de prédios da Stasi em Suhl, em Leipzig e em 15 outras cidades. Em 15 de janeiro de 1990, a sede do Ministério em Berlim também foi ocupada, conta o “Estado”.

Em outubro de 1990, o governo iniciou um projeto para resgatar e abrir esses sinistros arquivos.

De início, milhares de pedaços foram recuperados à mão, mas, naturalmente o processo era muito lento.

Em 2013, computadores com scanners poderosos permitiram identificar e ajudar a reunir os pedaços. “Conseguimos reconstruir 80 mil páginas”, explicou Dagmar.

Os arquivistas descobriram o destino de escritores e intelectuais perseguidos, a articulação de alianças clandestinas do governo alemão comunista com grupos terroristas que agiam no Ocidente.

Uma das cartas registra a ação de um estudante austríaco de teologia que entregou colegas que planejavam fugir para o Ocidente. Como premio, ganhou uma bolsa para completar seus estudos.

Desde que a reconstrução foi anunciada, sete milhões de consultas foram realizadas. Dois milhões delas foram feitas por cidadãos que queriam saber o que o policiamento fez com suas vidas.

Porém, o projeto está suspenso enquanto não se encontra uma nova tecnologia para lidar com o quebra-cabeça.

Dagmar disse ao “Estado” que “esses arquivos são depósitos da memória de um país”.

A Alemanha Oriental fez de tudo para evitar que seus crimes fossem descobertos como foram os da Gestapo nazista.

A famigerada Stasi foi criada em 1949, contou com quase 91 mil oficiais, e foi instrumento do partido socialista alemão fiel peão do regime de Moscou.

Sua finalidade era vigiar e reprimir qualquer oposição. Era o “escudo e a espada” do regime representado em sua insígnia.

Foi polícia política, escreve Chade, agência de contraespionagem, serviço de informação e órgão de instrução (judiciária ou policial) em processos criminais. Estima-se que a Stasi recrutou quase 173 mil informantes.

O escasso interesse do governo alemão em tirar a limpo os dados contidos nesses arquivos, não é exclusivo da Alemanha.

Na Rússia, Putin aplica todos os recursos para extinguir qualquer atividade reveladora dos crimes da URSS.

Esse empenho sorrateiro é um dos indícios que falam das cumplicidades ativas que o comunismo mantém na Europa e no mundo.

No Brasil, não há nada a investigar? O estardalhaço pelos esquemas de corrupção não deveria silenciar este espinhoso aspecto do regime lulopetista.

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