Rock in Rio: Quer prever o futuro?

E a plateia não cantou”. Estou falando do último Rock in Rio, realizado em setembro último (2013), e só agora comentado, pois a matéria, muito surpreendente e chocante, pedia algumas semanas de reflexão.

Como diz a reportagem do evento, os cinco músicos da banda não têm “rostos”, usam uma máscara, e acessórios de sacerdotes da seita Illuminati. Depois deles, entrou o vocalista, “um papa sombrio, com máscara de caveira, um cajado com um símbolo pagão, túnica de papa, chapéu de papa e gestos de papa. Só que um mensageiro da palavra das sombras”.1

Descreve Jotabê Medeiros, autor da reportagem: Canções em um latim híbrido, como Per Aspera Ad Inferi2 e Con Clavi Com, são declamadas pelo vocalista, que se apresenta apenas como Papa Emeritus II (no seu currículo, consta que foi precedido por outro papa infernal, Papa Emeritus I).

Rock in Rio
Um papa saído das profundezas do Inferno no Rock in Rio.

O jornalista introduz sua matéria da seguinte maneira: “Um papa saído das profundezas do Inferno foi a mais grata surpresa do rock no primeiro dia da segunda semana do Rock in Rio. O grupo sueco Ghost, cuja performance cênica é notadamente anticlerical e anticristã, brindou os fãs do rock pesado com uma mistura de rock retrô, rock clássico à Black Sabbath”.

Como se vê, é o radical do radical em matéria de rock e beira o inimaginável! Mas esse radicalismo faz parte da propaganda revolucionária, como explica Dr. Plinio:

Dir-se-ia que os movimentos revolucionários mais velozes são inúteis. Porém, não é verdade. A explosão desses extremismos levanta um estandarte, cria um ponto de mira fixo que fascina pelo seu próprio radicalismo os moderados, e para o qual estes se vão lentamente encaminhando. Assim, o socialismo repudia o comunismo. mas o admira em silêncio e tende para ele. Mais remotamente o mesmo se poderia dizer do comunista Babeuf e seus sequazes nos últimos lampejos da Revolução Francesa. Foram esmagados. Mas lentamente a sociedade vai seguindo o caminho para onde eles a quiseram levar.

O fracasso dos extremistas é, pois, apenas aparente. Eles colaboram indireta, mas possantemente, para a Revolução, atraindo paulatinamente para a realização de seus culposos e exacerbados devaneios a multidão incontável dos “prudentes”, dos “moderados”, e dos medíocres”.3

Acrescenta o jornalista: “A dureza do clima ‘somos das trevas’ só é amenizada por um certo clima pop (…) e pela gentileza do Papa Hell (inferno): ele pede para a plateia cantar consigo o refrão da última canção, Monstrance Clocks. Letra que de ingênua não tem nada. Vamos juntos para o filho de Lúcifer, diz o refrão. A plateia não canta”.

Terminamos este artigo como começamos: a plateia não cantou. Não cantará no próximo ou nos próximos rock in Rio? Algo não ficará nas cabeças dos que a compõem? Como dizia Dr. Plinio. a explosão desses extremismos levanta um estandarte, cria um ponto de mira fixo que fascina pelo seu próprio radicalismo os moderados, e para o qual estes se vão lentamente encaminhando.4

Sem dúvida, caberia um vigoroso protesto dos meios religiosos. Que aliás não veio.

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1 – OESP, 20-9-2013.

2 – “Pelas coisas difíceis se vai ao inferno’’, distorção da frase latina “per aspera ad astra”, através das coisas difíceis se vai aos astros.

3 – Plinio Corrêa de Oliveira, Revolução e Contra-Revolução, I, VI 4.

4 – Op. cit.