Umas às outras sucedem-se harmoniosamente as colinas, até o fim distante em que se fecha o horizonte. Uma atmosfera cheia de frescor e de claridades matinais inunda o quadro, e produz a impressão de que as encostas dos morros, a relva delicada, a tênue folhagem dos arbustos, destilam suavidade. As ovelhas, esplendidamente integradas na harmonia do ambiente, apascentam-se lenta e tranquilamente, tão satisfeitas e dóceis, que à frente o cão pastor, digno e “pensativo”, caminha distendido como se estivesse em férias.

No centro, o homem, modesto camponês dos Pirineus, nas cercanias de Lourdes. Todas essas singelas magnificências, esplendidas como a veste do lírio do campo, lhe entram pelos sentidos, lhe afagam o corpo, mas sobretudo lhe falam à alma.

O que lhe dizem, ele mesmo provavelmente não o saberá descrever. Mas, levemente meditativo, tranqüilo, ele é aí como um rei para o qual tudo existe. E nessa alegria temperante nada há que não lhe fale da doçura e da grandeza inenarráveis de Deus, do significado de sua própria existência e do sublime e eterno destino de sua alma. Só é pena que nessa paisagem um campanário ao longe, um cruzeiro ou um nicho com a imagem de Nossa Senhora não lembre a beleza, tão superior às coisas da natureza, da obra-prima que é a Santa Igreja Católica.

Este ambiente inspira paz nos corações. É a tranqüilidade da ordem de que, em sua recente Mensagem de Natal, fala o Papa João XXIII.

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Quantas vezes a vida hodierna se distancia deste ideal, que evidentemente é realizável tanto no campo quanto numa existência urbana concebida em moldes cristãos.

Mas os sons típicos das imensas babéis modernas, o ruído das máquinas, o tropel e as vozes dos homens que se afanam em pós do ouro e dos prazeres; que não sabem mais andar, mas correr; que não sabem trabalhar sem se extenuar; que não conseguem dormir sem calmantes nem se divertir sem excitantes; cuja gargalhada é um rito frenético e triste; que não sabem mais apreciar as harmonias da verdadeira música, mas só cacofonias do jazz; tudo isto é a excitação na desordem, de uma sociedade que só encontrará a verdadeira paz quando tiver reencontrado o verdadeiro Deus.

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2 COMENTÁRIOS

  1. Esse ambiente bucólico e harmonioso em que montanhas, homem, ovelhas, cão pastor, campanário e cruz distantes leva-me a pensar a região de Monte Santo, aqui na Bahia. Montanhas extraordinariamente azuis, cabras, pastores, vaqueiros, fauna e flora silvestres; extensas lajes no meio da caatinga que lembram mais praças públicas que a Mão de Deus pavimentou para Sua Glória e regozijo dos corações humanos. Por exemplo, o grande lajedo do Trapagó que fascinou Glauber Rocha e o fez rodar mais de 75% do filme Deus e o diabo na Terra do Sol. Parece que o criador do Cinema Novo era dotado de uma sensibilidade incomparável para com os dons da Natureza. O que às vezes pode conceber reflexões é que as cenas da violência dos cangaceiros tenham sido gravadas sobre a imensa laje do Trapagó em meio a uma Natureza tão divina, tão pacífica, tão harmoniosa, tão prodigiosa. Em cena, Corisco, interpretado pelo grande Oton Bastos – natural de Tucano, também terra natal de João Santana da Lava Jato – recebe o vaqueiro Manuel, guiado por um cego para ingressar nas hostes do cangaço. Então Corisco o argui: “Como é teu nome?” O vaqueiro responde: “Manuel”. Corisco: “Manuel é nome de vaqueiro, agora tu vai te chamar satanás!” Curioso, porque no sertão de Monte Santo nome de vaqueiro é sagrado, como sagrados são os espaços bucólicos das caatingas em que o vaqueiro é Rei.

    José Plínio de Oliveira
    (Serrinha-Bahia)

  2. Confidencial A mídia está falando muito em “crime de ódio”. Sugiro publicarem uma secção “assassinado por crime de ódio (à Fé), de uma lista de mártires .

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