Esse insigne Doutor da Igreja, cognominado trombeta contra os arianos por São Jerônimo, também qualificado como martelo dos hereges e Atanásio do Ocidente, recebeu de Santo Agostinho significativo elogio: “valorosíssimo defensor da fé contra os hereges e digno de toda a veneração”.

A vida de Santo Hilário nos revela como é possível ao homem, pela simples reta razão, chegar a uma apreensão da verdade no plano meramente natural; e, a partir daí, com o auxílio da graça, atingir o conhecimento de verdades sobrenaturais.

Hilário era oriundo de uma das mais distintas famílias da província da Aquitânia, tendo nascido em Poitiers (França) no início do IV século. Sendo pagãos, seus pais o educaram na ciência da antiga Grécia e Roma e em todas as práticas da gentilidade. Mas ao jovem Hilário, dotado de juízo sólido e de inteligência robusta e penetrante, não satisfaziam as superstições ridículas do paganismo. Ele diz que desde pequeno sua alma tinha sede de um Deus que não o dos pagãos. “Minha alma se dirigia assim com ardor a conhecer esse Deus, autor de todo bem, porque eu via claramente o absurdo de tudo o que os pagãos ensinam quanto à divindade, dividindo-a em muitas pessoas de um e de outro sexo, atribuindo-a a animais, a estátuas e a outros objetos insensíveis. Reconheci que não podia haver senão um só Deus, eterno, todo-poderoso, imutável”.

Na procura da verdade, caíram-lhe nas mãos as Sagradas Escrituras, que ele devorou com sofreguidão. A leitura do Evangelho de São João, em que este explica que o Verbo era Deus e estava em Deus, e que se fez carne e habitou entre nós, acabou por tirar-lhe qualquer dúvida a respeito da verdade. Pediu então o batismo e começou uma carreira de gigante. A filosofia pagã serviu-lhe de base para adentrar-se no estudo, quer da filosofia, quer da teologia dogmática e da sã doutrina da Igreja.

Casado com uma mulher de raro mérito, que compartilhava com ele todos seus anseios e esperanças, tiveram uma filha, Abra. Seguindo os exemplos domésticos, esta cresceu na piedade e virtude e seria elevada à honra dos altares.

Vagando a Sé de Poitiers, os sacerdotes e os fiéis escolheram para seu pastor, como era costume da época, Santo Hilário, que já dava exemplos da mais lídima virtude. De comum acordo, separou-se então da mulher e filha para servir só a Deus, foi ordenado sacerdote e sagrado Bispo.

Para Hilário, ser Bispo não era somente uma dignidade, mas sobretudo um contínuo sacrifício. Pois, dizia, o Bispo deve ser “um príncipe perfeito da Igreja, que deve possuir na perfeição as mais eminentes virtudes. Num bispo, a inocência de vida não é suficiente sem a ciência; e, sem a santidade, a maior ciência não basta; com efeito, como ele é instituído para a utilidade dos outros, de que lhe servirá esta, se ele não instrui? E não serão estéreis suas instruções, se não são conformes à sua vida?”.

Naquela época tão conturbada, para ele um dos principais deveres era manter íntegro o depósito da fé, e defender sua pureza contra a corrupção das heresias. Pois estava causando grandes devastações no rebanho de Jesus Cristo a pior heresia que atingiu a Igreja nos primeiros séculos: o arianismo. Negava este o dogma da Santíssima Trindade, dizendo que só Deus Pai era Deus.

O pior é que tal heresia conquistara o Imperador Constâncio, filho de Constantino, encontrando nesse homem fraco, mas despótico, seu maior apoio.
Como o santo era um campeão da ortodoxia e atroz inimigo da heresia, os prelados arianos conseguiram do Imperador que Santo Hilário fosse exilado juntamente com São Ródano, para a Frígia, na Ásia Menor.

O tiro saiu pela culatra, pois com esse exílio o maior inimigo do arianismo no Ocidente foi enviado para combatê-lo em seu próprio meio, o Oriente. Santo Hilário, sem deixar de manter correspondência com os bispos fiéis da Gália, dirigia também por meio de cartas sua diocese, ao mesmo tempo que escrevia obras refutando a heresia ariana e contra ela trabalhava.

Enfim, foi tanto o prejuízo que Santo Hilário causou aos arianos no Oriente, que estes convenceram o Imperador a mandá-lo de volta à sua diocese, onde criam que ele lhes seria menos prejudicial.

Voltando a Poitiers, entregou-se de corpo e alma à instrução de seus diocesanos. Recebeu de braços abertos São Bento, Bispo da Samaria, e 40 discípulos seus, expulsos da Palestina pelos arianos, fundando estes a abadia de São Bento de Quincey.

Cheio de obras e de anos, entregou Hilário sua alma ao Criador no ano de 367. Foi o grande Pio IX que o declarou Doutor da Igreja.

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