Os holofotes da mídia estão voltados um tanto para o centenário da guerra de 1914-1918. Completaram-se cem anos em que a Humanidade geme sob o jugo dos tempos novos, pois segundo a maioria dos historiadores eles tiveram início então.

É fora de dúvida que com essa guerra uma página foi virada. “Cerca de 10 milhões de mortos – além de ter ‘destruído a otimista e benevolente cultura do continente europeu’.”[1]

Ela se distinguiu por ter consistido na tomada e na defesa de trincheiras, portanto com abundância de sujeira, sangue e lama. Foi sua originalidade.

E se fosse só a lama! E os bichos? E o prosaísmo? E sobretudo o sangue generoso, largamente derramado, mesclado a essa lama?

As batalhas nas trincheiras foram uma forma de combate irracional, qualificada por Taylor como o mais horrível absurdo – e o mais absurdo horror – na História da guerra […], durante algo como 1.400 dias”.[2]

Pior ainda. Algo mudou na juventude, esse é o sentimento unânime. Uma célebre enquete, assinada com o pseudônimo de Agathon, levada a efeito por Henri Massis (1886-1970) e publicada em 1911, documentava muito bem essa decadência.

Antes dela, podia-se notar “gosto pela ação, fé patriótica, limpeza de costumes, renascença católica. Esses traços podiam ser encontrados em todas as nossas observações”.[3]

E Henri Massis afirma apropriadamente:

Aos olhos desses moços, uma natureza pensante, verdadeiramente rica de amor e de vida, devia tender para uma crença, um dogmatismo precursor da ação”[4].
Ninguém sabe que esplendores poderiam desabrochar dessa juventude, se tivesse tido condições de desenvolvimento normais. Mas veio a Grande Guerra, veio o pós-guerra. E tudo mudou.

As duas guerras mundiais podem ser vistas sob muitos aspectos. Entre eles, o de terem funcionado como extintores de incêndio sobre uma realidade que incomodava.

Se se tivesse planejado a Primeira Grande Guerra exclusivamente para afogar num banho de sangue a brilhante juventude da Belle Époque –tanto  do lado francês quanto do alemão – dificilmente  ela se teria desenrolado de forma diversa da registrada pela História.

Terrivelmente mortífera[5]. Particularmente apropriada a sepultar o idealismo brilhante e cavalheiresco dos jovens do fim da “Belle Époque” no prosaísmo horrivelmente pestilento do fundo daquelas ignóbeis valetas: as trincheiras da Grande Guerra.

Assim, se afundou no sangue e na lama uma juventude muito promissora.

Assim descreve Jacques Mayer o que tinha diante dos olhos: “Lama que escorrega, lama que escorre, lama que trepa, lama que corre, que cai do alto, que sobe de baixo, lama até a borda, ou que cobre os joelhos, frequentemente até o ventre… Que te agarra, que te gruda… que se mete até nos teus bolsos… que se come até no pão!… Lama ventosa, lama vampiro, que te engole, que te aspira…. [6]

Como afirmou a revolucionária Rosa Luxemburg , “assistimos ao  desabamento do Velho Mundo que cai em grandes pedaços, dia após dia. O mais surpreendente é que a maioria das pessoas não percebe, e acredita ainda caminhar sobre terra firme”[7].

De um quadrante oposto, São Pio X tudo fez para evitar a carnificina.

Plinio Corrêa de Oliveira assim externa o que sentiu:

É preciso ter vivido em 1920, ou 1925, para compreender o tremendo caos ideológico em que se debatia a humanidade. A Cristandade parecia um imenso prédio em trabalhos finais de demolição …. não há  alegoria, nem imagem, nem descrição que possa retratar a confusão daqueles dias de pós guerra’ ”.[8]

Mas o combate não foi tudo. Essa mocidade tão promissora foi colhida em um vasto movimento envolvente.

Como se sabe, em 1917 – portanto três anos depois do início da guerra e um ano antes de seu término – os Estados Unidos passaram a participar das hostilidades. Saudáveis, joviais, com algo de esportivo, entraram para vencer. E, junto com a vitória, desencadeou-se no Velho Continente, como uma onda de choque incontenível, a influência norte-americana.

Descreve o lúcido intelectual italiano Roberto de Mattei:

A América encarnava uma nova way of life, que tinha seu modelo cintilante e artificial em Hollywood, a cidade californiana sede do novo império do cinema. Nos anos 20, “les années folles” ou, segundo a fórmula britânica, os “roaring Twenties”, a Europa sofreu transformações sociais que modificaram profundamente hábitos e costumes de seus habitantes. A americanização foi imposta sobretudo pelo cinema […], que se transformou no divertimento mais popular, ao lado dos esportes de massa como o futebol e o boxe, os quais o rádio e a imprensa propagavam”.[9]

O efeito dessa onda de choque norte-americana se fez sentir por uma espécie de ricochete no Brasil, porém sua força e importância dificilmente podem ser avaliadas por quem nasceu na segunda metade do século passado, por causa da perda dos pontos de referência. Hoje se respira essa influência como se sorve ar. Ela se disseminou tanto que quase não é mais perceptível.

O desenlace da guerra colocou no proscênio histórico a influência norte-americana. O que os canhões não conseguiram arrasar – e eles arrasaram muito –, Hollywood e as maneiras ditas “do futuro” obtiveram. O que o banho de sangue não conseguiu afogar, fê-lo, sem armas, o vagalhão dessa influência, ou, se nos for permitida essa licença de linguagem, o “banho de Coca-Cola” que inundou e afogou a velha Europa e o Mundo…

Um banho de sangue e depois esse banho!

O Século XX foi o dos Estados Unidos. De um lado, essa potência prestou à Humanidade o serviço ingente e inapreciável de enfrentar o Nazismo e o Comunismo. Mas sua deletéria e vitoriosa influência sobre a velha cultura europeia e, a seguir, sobre os remanescentes da Civilização Cristã no mundo inteiro, constituiu uma verdadeira revolução cultural, numa ação um tanto impalpável  mas bastante prolongada.

Por outro lado, justamente a respeito dos EE.UU., afirmou Plinio Corrêa de Oliveira que se trata de “uma nação aristocrática em um estado democrático”.[10] Além disso, o colosso da América do Norte está entre os países que, hoje em dia, apresentam mais “coágulos” antimodernos e antipósmodernos.

Contradição? Não; mas paradoxo.

Foi Charles de Gaulle que resumiu esse quadro afirmando: “A Grande Guerra foi uma revolução”.[11] Em todos os sentidos da palavra.


[1] Cf, Ricardo Bonalume Neto, “Morte em massa inaugura o século”, Folha de S. Paulo, 30-12-99.

[2] Taylor, Edmond, The Fall of the Dynasties (Garden City, N. York, 1963).

[3] Ibid.

[4] Henri Massis, “Il y a cinquante ans Agathon publiait sa célèbre enquête sur la jeunesse” (“Historia”, nº 202, setembro de 1963).

[5] “No pós-guerra se falava de uma ‘geração perdida’. Dos alemães nascidos entre 1892 e 1895, que tinham entre 19 e 22 anos quando começou a guerra, entre 35% e 37% foram mortos. Dos 16 milhões de alemães nascidos entre 1870 e 1899, quase todos serviram nas Forças Armadas, e 13% foram mortos” – Ricardo Bonalume Neto, “Morte em massa inaugura o século”, Folha de S. Paulo, 30-12-99. Do lado francês, o número de baixas não terá sido muito diverso.

[6] Jacques Meyer, La Vie Quotidienne des Soldats pendant la Grande GuerreHachette, Paris, 1966, p. 106

[7] Lettres de  prison, 1916-1918, Bélibaste, 1969.

[8] Plinio Corrêa de Oliveira, “Legionário”, São Paulo, no. 666, 13/05/45.

[9] Roberto de Mattei, Il crociato del secolo XX, Plinio Corrêa de Oliveira”, Piemme, Itália, p. 46.

[10] “The United States: An Aristocratic Nation Within a Democratic State”. Este é o título do apêndice nº1 da obra “Nobility and Analogous Traditional Elites in the Allocutions of Pius XII”, de Plinio Corrêa de Oliveira (Hamilton Press, EE.UU., 1993).

[11] Le Fil de l’Épée, Grande Guerre, I.

3 COMENTÁRIOS

  1. É o momento especial para a reflexão e o aprendizado, apreender a enxergar e dirimir os resultados dessas guerras e também rever os diferenciais que levaram a humanidade a toda essa destruição. O ego doentio não permite ao portador vislumbrar nada e sim viver lucubrando como ter o poder absoluto sem dor nem piedade, esse paradoxo avança sobre o humano e o confunde, desgasta e o fim anula o equilíbrio necessário para a vida e a convivência em Paz.

  2. Isso é História que nos educa. Filosofia da História ou Teologia da História.
    Nós somos aquilo que o nosso modelo nos induz a ser.
    Há uma indicação nesse precioso texto da “perda de referências”.
    O Supremo Comandante de um Exército reflete sua personalidade em todos os seus comandados, para bem ou para mal. É a “referência”.
    A Revolução destruiu os modelos que tinham , ainda, algo da Idade Média,e, colocou no lugar os modelos revolucionários que o articulista tão bem se reporta.
    E, chegamos no sec. XXI, sem referências.
    Mas, a Divina Providência pode fazer das pedras filhos de Abraão.

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