Paris, março de 2020, atrás das portas fechadas da Basílica de Sacré-Coeur de Montmarte – da França ao Mundo –, uma Luz não se extinguiu! Não era apenas as chamas das velas que faziam companhia e vigília ao Lumen Christi protegido por um ostensório. Mas a Luz da Fé na presença Real do Corpo de Cristo no Santíssimo Sacramento.

Adoração Perpetua ao Santíssimo Sacramento no Santúario Sacré-Coeur de Montmarte, Paris.

Como uma chama ardente não se fez desvanecer nas almas de 14 freiras beneditinas, que há mais de 135 anos mantiveram ininterrupta a adoração perpétua, desde a sua fundação em 1º de agosto de 1885. Nem a peste chinesa (Covid-19), que impôs as portas do Santuário serem fechadas ao acesso dos fiéis, para adoração – aliás, pela primeira vez na sua história –, conseguiu intimidade ou abalar a dessas esposas de Cristo.

A história sempre as provaram; no decorrer da 1ª e da 2ª Guerra Mundial, bombardeiros ocorreram, mas “a adoração não parou nem por um minuto…” e, “Mesmo durante o bombardeio de 1944, quando alguns fragmentos caíram bem ao lado da basílica, os adoradores nunca saíram.” ¹, assim relata Irmã beneditina Cécile-Marie, conforme o artigo do site Nacional Catholic Register, por Solène Tadié. ¹

“As minhas ovelhas ouvem a minha voz, Eu as conheço e elas me seguem.”

Entretanto, com o advento do vírus chinês (Covid19), as freiras tiveram sua fé provada, mas também todos o foram na urbe católica, à medida que as igrejas começaram a ser fechadas, uma bruma malfazeja e escura pairou na vida dos católicos, deixando obscuro aquilo que era clarividente a todos:

A “missão” da Igreja de Cristo só cessaria no fim do Mundo: o que representará isto aos olhos de Deus, com todos os sacramentos salvíficos inacessíveis às almas, na quase totalidade dos casos? Certamente é uma pergunta que aflige muitas almas e de modo especial aquelas que morrem sem o socorro deles

“As minhas ovelhas ouvem a minha voz, Eu as conheço e elas me seguem.”

O que pensar destas palavras de São João Evangelista, diante desta crise de fé que abala o mundo atual: “As minhas ovelhas ouvem a minha voz, Eu as conheço e elas me seguem.”  “Eu lhes dou a vida eterna; elas jamais hão de perecer, e ninguém as roubará de minha mão.” (JO 10,27)*.

Certamente a fé das freiras beneditinas francesas na adoração perpetuamente ininterrupta ao Santíssimo Sacramento obteve de Deus a benevolência para com a França, por se tornar um Campanário da Fé, além de darem um grande e bom exemplo para os que permanecem na Fé, nestes tempos conturbados que assolam a Santa Madre Igreja, onde os Sinos da Ortodoxia já não tocam mais como antes… mas tantos ouvidos ainda estão saudosos de ouvir o seu som …

Esta perplexidade é bem demonstrada, nas palavras ditas pela a Irmã Cécile-Marie, onde “ela confessou, o bloqueio (fechamento das igrejas) também criou uma sensação totalmente incomum de vazio dentro da igreja, geralmente lotada de peregrinos e visitantes. Em sua opinião, a coisa mais difícil de controlar quando a basílica se esvaziava de repente era ver todas as velas se apagando lentamente.”¹

Nosso Senhor as ouviu: “Foi uma visão muito triste, mas, milagrosamente, imediatamente começamos a receber pedidos de intenções de oração de pessoas por e-mail; então, eventualmente, sempre havia pelo menos uma ou duas velas acesas, e quando elas estavam prestes a se apagar, de repente recebíamos outro pedido, o que era tão reconfortante.”¹

“Um Santuário envolto da vida de Mártires, de Santos e fervor religioso

O Santuário Sacré-Coeur de Montmarte, é a Igreja mais visitada da França depois da Catedral de Notre Dame, conhecida também como o “Santuário da Adoração Eucarística e da Divina Misericórdia”. ¹

A escolha de edificação no monte Montmarte não foi fortuita, o seu nome já diz tudo: “Monte dos Mártires”. Ali, os primeiros cristãos de Paris no século III, de modo especial São Denis – primeiro bispo de Paris – receberam a palma do martírio. São Denis foi decapitado, e por um milagre levou sua própria cabeça nas mãos até sua Igreja. Hoje ele é co-padroeiro de Paris.

Quando o Santuário estava aberto para o fiéis fazerem a adoração.

Em 1887, a própria Santa Terezinha do Menino Jesus, de Lisieux, contribuiu para construção do Santuário, doando sua pulseira de ouro. Na ocasião fazia uma peregrinação a caminho de Roma, onde pediria autorização ao Papa Leão XIII – quando ainda tinha 15 anos de idade –, para abraçar a vida contemplativa no Carmelo de Lisieux.

 Tudo começou com o fervor de dois leigos, Alexandre Legentil e Hubert Rohault de Fleury que idealizaram o projeto inicial da construção do Santuário com a inspiração de fazer uma reparação, devido a “um forte sentimento de desesperança entre a população e foi frequentemente associada na mente coletiva com um enfraquecimento da fé como consequência da Revolução Francesa” ¹, após a derrota francesa na Guerra Franco-Prussiana, no Cerco de Paris de 1871.

E hoje em pleno século XXI, as 14 esposas de Cristo dão continuidade a este fervor religioso bem como muitos fiéis que faziam adoração ao Santíssimo Sacramento. Sua história, sem dúvida, é envolta da vida de Mártires, de Santos e do fervor religioso que fez deste abençoado lugar um tabernáculo de Deus.

Na paixão da Minha Igreja. Não podeis vigiar uma hora se quer?

Certamente o que preocupa – logo, o que está em questão – não é simplesmente se as portas materiais das igrejas estão fechadas ou abertas. Mas, como as pessoas se posicionam a passar por elas! Seriam almas calorosas, ávidas de receber os sacramentos dignamente, onde a sua fonte é o Lúmen Christi, que as conforta no sacrário? Ou almas que se deixaram abater pelo Sono dos Apóstolos, que já não as motiva vigiar uma hora sequer?  

A história da Igreja Católica, em seus mais de 2000 anos, sempre foi marcada por perseguições cruentas e incruentas; guerras; pestes, epidemias e pandemias; cismas de toda ordem; e por muitos outros flagelos.

Mas, em todas as vezes a Igreja saia triunfante: uma verdade de Fé era explicitada na forma de um Dogma em oposição a uma heresia, ou ainda como afirmava o Prof. Plínio no livro RCR, que “depois de cada prova, a Igreja emerge particularmente armada contra o mal que procurou prostrá-La. Exemplo típico disto é a Contra-Reforma. ²; também a Fé era renovada, onde as almas se afervoravam seja por uma aparição de Nossa Senhora que perdia oração, penitência e emenda de vida ou por um zelo apostólico de um santo fundador de uma ordem religiosa que não mede esforços para apascentar as ovelhas de Deus; também diante da morte, que se tornava bem próxima seja em razão de guerras ou pestes, fazendo com que todos reflitam sobre o que é esta vida terrena e breve diante da eternidade que nos espera!  

Entretanto, com a reabertura – digamos bem morosa – das igrejas atualmente, algo mudou, e por quê? Houve um esfriamento espiritual? Certamente, e são muitas as causas que levaram as almas, na pandemia, a esfriarem no amor de Deus. Mas uma delas é de chamar a atenção.

Tristemente, criaram-se nas mentes de muitos fiéis que agora se poderia cumprir o preceito dominical, apenas assistindo a Santa Missa por meios televisíveis, e não com a presença física na igreja como sempre o foi, onde se prestam os quatro atos de culto (adoração, ação de graças, reparação e petição) e ainda possa receber a sagrada comunhão, o Panem de Caelo (Pão do Céu).

Esta falsa imagem foi passada ou negligenciada tanto pelo clero (infelizmente) como por meios midiáticos católicos ou não. Seria um dos sintomas que agravou esta crise de Fé atual.

A diminuição do número de fiéis nas igrejas é enigmático. Não seria a hora da CNBB pautar como O Tema o fato das almas terem diminuído no fervor?   A “morte” eterna das almas não vale mais do que a morte do corpo, Vossas Excelências senhores Bispos? Certamente, o debate não custaria nem uma hora sequer!

Contudo, transtornos de toda ordem apareceram onde padres e religiosos estão ficando com depressão…, por que esperavam que os fiéis pelo menos assistissem suas homílias transmitidas, em alguns casos nem a mãe assistia…  

Muitos religiosos entraram em pânico, ao ponto de não saírem para nada, e as missões assim se extinguiram. Ordens religiosas que se confinaram para se proteger do vírus, se isolaram do mundo completamente, tristemente pegaram mesmo assim o vírus. Bem diferente foi o caso destas heroicas 14 freiras beneditinas francesas!   

Os sacramentos se tornaram tão escassos aos fiéis, que mesmo estes batendo às portas dos sacerdotes para ministrá-los – infelizmente não foram poucos casos –, eram recusados com as mais estapafúrdicas desculpas. Entretanto, o padeiro não deixou de distribuir o pão, inclusive aos religiosos, os mercados não fecharam suas portas, os trens e metros continuaram a circular. E, as igrejas fechadas, fechado o acesso aos Santos Sacramentos.

Sem dúvida a maior graça que um enfermo nesta pandemia poderia ter, era receber o último dos sacramentos, a unção dos enfermos (extrema-unção)! Mereceria cada um desses heróis sacerdotes um monumento, pelo fato de não terem negligenciado sua missão – que foi dada por Deus, – uma vez que ensina o Apóstolo: a sem as Obras se torna morta.

***

Todavia, a condição do homem nesta Terra é de prova. Mas se tivéssemos um Papa santo, uns cardeais e bispos santos, padres e religiosos também santos, e até o meu amigo mais próximo santo, e aí sim as coisas seriam outras… Uma pergunta não se cala! Onde é que Eu entro nesta história?

Não seria uma oportuna ocasião de pedirmos a Deus, por intercessão de Nossa Senhora, que esta chama da Fé não deixe de fumegar em nós, para afastar o Sono culposo, individualista, tíbio e interesseiro que abateu os Apóstolos, para não seja também essa a nossa desgraça. E se por algum motivo for: Meu Deus, nos perdoe!

Mande o seu novo “Pentecostes”, rejuvenescedor da Fé! Enviai o Vosso Espírito e tudo será criado e renovareis a face da Terra.

Afasta-me, Senhor! Deste Sono culposo, individualista, tíbio e interesseiro que abateu os Apóstolos…

Fonte: ¹= https://www.ncregister.com/daily-news/we-never-leave-the-lord-alone-135-years-of-eucharistic-adoration-at-sacr-co

² = https://www.pliniocorreadeoliveira.info/RCR.pdfRevolução e Contra-Revolução, pag. 28.

Citação: *= São João, (10,27)  – Bíblia Católica Online: https://www.bibliacatolica.com.br/biblia-ave-maria/sao-joao/10/

Deixe uma resposta