Comentários do Prof. Plinio ao soneto “Não me Move”, de Santa Tereza:

        Não me move meu Deus para querer-te o Céu que me tens prometido, não me move o Inferno tão temido para deixar por isso de ofender-te.

       “Mas como? Eu exatamente tenho medo de ofender-te por causa do Inferno, eu te amo por causa do Céu”. E este soneto começa a dizer que não é isso que me move. Quer dizer, já é uma afronta ao espírito tímido, vulgar, ordinário. Já começa [por] vencê-lo.

Depois continua: “Tu me moves senhor, move-me o ver-te cravado na Cruz e escarnecido“. Quer dizer, esse soneto é o esbofeteamento do egoísta. Para o tipo egoísta, [este] diz: “Bom, o que [me] move? A mim, para amar-te chagado, escarnecido? Então eu não amo a nada. Eu não te amo por vantagem minha? Eu tenho que te amar neste estado de humilhação?” É uma segunda afronta, mas é uma segunda vitória do amor, é um segundo hino de adoração.

Depois continua: “Move-me ver teu corpo tão ferido, move-me tuas afrontas e tua morte“. Acaba então falando da morte. É o ferido, é o machucado, é o arruinado, é o morto… Eu não faço questão de ouro, não faço questão de prata, não faço questão de glória, eu não faço questão de nada, vou dizer mais: nem do Céu eu faço questão, nem de [ficar livre do] Inferno como elemento determinante único do meu amor, ou como elemento principal do meu amor. Como elemento colateral sim, como elemento principal não. [O] principal para amar é aquilo de que todos os homens têm horror: escárnio, feridas, sangue e morte. E [é por] isso que eu amo-te.

[Os] senhores estão vendo como vai subindo e o paradoxo como vai ganhando altura. E toda a audácia da alma cristã, da verdadeira alma católica, como se faz sentir aí. Ele continua, ela continua (a gente diz “ele” subconscientemente, tão másculo é isso): “Move-me por fim teu amor e de tal maneira que ainda que não houvesse Céu eu te amaria e ainda que não houvesse Inferno eu te temeria“. Isso é magnífico, é uma espécie de réplica, confirma, é um arrebite no paradoxo inicial. A gente vê que a pessoa fica assim meio tonta e diz: “Bem, está bom, então eu fico sabendo”. “Ainda que não houvesse Céu eu te amaria, ainda que não houvesse Inferno eu te temeria“. E isto por causa das tuas chagas, etc., etc. É uma beleza como audácia, não é isto?

Não me tens que dar para que eu te queira, pois ainda que o que eu espero eu não esperasse, o mesmo que eu te quero eu te quereria“. Isso é o ponto final, diz o último não é? Pode dar-me, eu aceito, eu espero teus dons, eu os quero mas, ainda que não desses, eu te quereria. Quer dizer, o amor puro na sua manifestação mais desinteressada, mais grandiosa, mais cavalheiresca, enfim, mais sobrenatural e mais admirável. A gente sente aí a alma católica fervendo, tão diferente desse ecumenismo aguado, dessas concessões, desse “amor ao (falso conceito de) bom senso”.

A gente só ama verdadeiramente uma Doutrina quando a gente ama todos os paradoxos a que esta doutrina pode se prestar. A gente ama as formulações mais excessivas e mais estridentes dessa doutrina. E a gente as ama mais do que todas as outras. É assim que a gente ama qualquer coisa. E não é com essa espécie de endeusamento de um “bom senso” assim mais ou menos de encomenda.

               Aplicação às horas tristes por que passa a Santa Igreja

Agora, é bom nesta hora triste da Igreja que nós estamos atravessando, considerarmos que estas reflexões, estas palavras se aplicam também à Santa Igreja Católica. A Santa Igreja Católica está chagada, a Santa Igreja Católica está ferida, a Santa Igreja Católica está crucificada e Ela só não morrerá porque Ela é imortal. Porque todas as razões de morte nesse momento coincidem nEla. E, então, tomando o Corpo Místico de Cristo, que é um outro Jesus Cristo, nós podemos dizer também para a Igreja Católica: “Não me move ó Santa Igreja para querer-te o Céu que tu me prometeste, nem me move o Inferno tão temido para deixar por isto de ofender-te“. Realmente, à Santa Igreja Católica nós não devemos ofender nem é por amor ao Céu, nem por medo do Inferno, mas por um amor gratuito, filial, tão amoroso que tem fibras de adoração pelo meio, à Santa Igreja Católica, como instituição.

         “Tu me moves ó Santa Igreja Católica, move-me o ver-te cravada em uma cruz e escarnecida. Move-me ver teu corpo tão ferido, move-me tuas afrontas e tua aparente morte. Move-me por fim o teu amor e de tal maneira que — (e isto é bem verdade [quanto a] nós em relação a Igreja Católica —  ainda que não houvesse Céu nós amaríamos a Santa Igreja Católica, ainda que não houvesse Inferno nós a temeríamos). Não me tens que dar para que eu te queira, pois ainda que o que eu espero não esperasse, do mesmo modo ó Santa Igreja eu te quereria”.

Conclui o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira: “São esses os sentimentos em relação à Santa Igreja que nós devemos ter nos dias tristes em que vivemos”.  https://www.pliniocorreadeoliveira.info/DIS_SD_651015_Sta_Teresa_dAvila_Audacia_no_Paradoxo_2.htm#.XaToVUZKjIU

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