Em seu primeiro debate como únicos pré-candidatos democratas, o ex-vice-presidente Joe Biden e o senador Bernie Sanders fizeram questão de tentar introduzir uma nova maneira de cumprimento com pretexto da ameaça da peste chinesa.

O leitor já deve ter tomado conhecimento do que vem sendo revelado por todos os veículos de comunicação: em tempos de coronavírus, não só aspectos das relações internacionais vão se modificando, também são atingidos detalhes da vida quotidiana. Talvez a grande imprensa não deixe muito claro, no entanto, que variações irrelevantes nos modos de ser, nos comportamentos, acabam por provocar alterações profundas nas mentalidades, nas ideias, e por fim nos fatos, nas instituições. Esta é uma das teses principais de Plinio Corrêa de Oliveira na sua obra mestra Revolução e Contra-Revolução.

Gostaria de merecer a sua atenção, caro leitor, para alguns exemplos.

A partir da popularização da televisão nos lares, o relacionamento familiar foi aos poucos se transformando. Quase ninguém deu importância ao fato, mas as conversas entre pais e filhos minguaram paulatinamente, e hoje quase não existem mais.

Consequências nas noções de lar e família

Cada um de nós foi percebendo os efeitos da pandemia ao presenciar fatos sem importância aparente. No meu caso, uma das primeiras constatações me veio numa noite de sábado, estranhamente silenciosa. Como a quarentena obrigou o cancelamento das aglomerações de pessoas, há meses não se ouvem mais os barulhos das casas de festas e shows noturnos nos finais de semana. “Melhor assim”, alguém dirá. Concordo, no que se refere ao desejável silêncio. Mas o que isso representa em matéria de alterações nos hábitos? Permanecem agora essas pessoas em casa, sem “fazer nada”, diante da TV ou da internet?

Podemos afirmar que a resposta é afirmativa para uma parte delas, pelo menos. Mas qual das duas atitudes é a menos nociva: os desregramentos dos “festejos” noturnos ou a perigosa indolência do confinamento? Não entro aqui no juízo comparativo sobre essas duas consequências, mas foi noticiado pela imprensa que as ocorrências de violência doméstica aumentaram 20% no estado de São Paulo,1 desde o início da quarentena. Causa desconforto a possível conclusão: ficar em casa, na companhia de familiares, é perigoso! Indo mais além nessa tenebrosa lógica: melhor mesmo é não ter família e viver sozinho!

E por falar em gestos familiares, os apertos de mão entraram na lista de banimentos. Agora se usam os cotovelos ou os pés para cumprimentar. Até o presidente Bolsonaro se adaptou à novidade.2 Um conhecido site de vendas aderiu também, e substituiu seu logotipo — um aperto de mãos — por cotovelos que se tocam!

Seguindo tal fenômeno, padrões corriqueiros de relacionamento humano vão caindo. Parentes próximos, pais e filhos, avós e netos, pararam de se abraçar. Pode-se ter a esperança de que tudo volte ao normal após a crise? Não deixarão esses hábitos sequelas imperceptíveis no convívio familiar?

Caso lhe pareça que tais mudanças constituem fatos irrelevantes, contraponho um exemplo tirado de meados do século passado. A partir da popularização da televisão nos lares, o relacionamento familiar foi aos poucos se transformando. Quase ninguém deu importância ao fato, mas as conversas entre pais e filhos minguaram paulatinamente, e hoje quase não existem mais. A educação que os pais davam aos filhos, nas conversas domésticas, foi assim substituída pela deseducação da TV. O empobrecimento nos costumes, mormente nas relações em família, corrói profundamente a civilização cristã. São consequências graves a partir do depauperamento nos pequenos costumes. E os exemplos poderiam ser multiplicados.

O medo prepara o mundo novo

Rafael Nadal, conhecido tenista espanhol: “Não quero nova normalidade, quero a normalidade de antes”

O governo do Distrito Federal colocou carros de som nas ruas, recomendando: “fiquem em casa”. Faz lembrar cenas de filmes antiquados sobre o desaparecimento da sociedade como conhecemos hoje. Mas agora se trata da vida real, e não há como evitar a apreensão sobre as incertezas do amanhã.

O medo vai assim se instalando, e junto com ele a dúvida sobre se voltaremos ao mundo como era antes. O tenista espanhol Rafael Nadal registrou sua apreensão em uma entrevista: “Não quero nova normalidade, quero a normalidade de antes”. E explicitando o que talvez seja o desejo da maioria da população, acrescentou: “Quero recuperar minha vida, quero que as pessoas possam se abraçar, quero que possam ir felizes para o trabalho, que possam se reunir sem medo. Não quero um mundo muito diferente”.3

Em função da pandemia, há uma faixa do público aspirando por um novo mundo mais “superconectado”. Mas entra aí um aspecto ainda não entendido pelos adeptos dos atuais meios de comunicação, os quais nem preciso enumerar: quanto mais conectado, mais isolado. Parece paradoxal, mas é profundamente real, pois conexão não é o mesmo que convívio. As novas gerações não devem ter aprendido a diferença entre uma coisa e a outra.

A obrigatoriedade do uso de máscara vem muito a calhar para os seguidores dessa aspiração. A prática do rosto coberto conduz inevitavelmente a maior anonimato e à exacerbação do individualismo: não se precisa ver a face do interlocutor, todos “se escondem”. Assim se ampliou uma consequência, corriqueira para qualquer observador da “onipresença” dos smartphones: ninguém se fala mais olhando o interlocutor nos olhos. Mesmo entre os que vão juntos aos restaurantes, por exemplo, já era grande o número dos que se refugiam nas suas redes sociais enquanto se alimentam. Com a máscara o isolamento tende a aumentar; pois há uma incompatibilidade evidente entre o uso obrigatório e uma conversa frente a frente em um restaurante. É de prever, portanto, uma redução drástica nos grupos que frequentam restaurantes como forma de convívio social civilizador. Esse novo componente obrigatório nas relações humanas poderia então ser denominado: máscara isolante de contatos.

O escritor americano Anthony Esolen4 constatou a curiosa aliança entre o individualismo egoísta e o incremento do poder do Estado. Há muita sutileza na ideia do autor. Não disponho de espaço para desenvolvê-la aqui, mas sua tese resume-se assim: o egoísta se volta apenas para seu bem-estar e seus entretenimentos, entre os quais se incluem o uso do celular e da internet. Quem deve garantir o funcionamento desses instrumentos de prazer é o Estado, daí o egoísta estar disposto a delegar tudo — até direitos básicos, como a liberdade — ao “governo-todo-poderoso”, desde que este lhe propicie usufruir constantemente o seu hedonismo egoísta. Por esse caminho tortuoso segue-se a justificativa de um governo mundial, apoiada no individualismo.

Nesses últimos meses, a ideia de um poder mundial, dominando acima de todas as nações, vem encontrando cada vez mais ressonância na mídia e em governantes de diversos países, nunca faltando para isso os ideólogos de plantão. Coincidem para favorecer a aceitação dessa proposta as pequenas mudanças nos comportamentos e nas mentalidades, como nos poucos exemplos que apresentamos. Tais mudanças, em conjunto com outras, favorecem a aceitação de novas ideias, que passam a ser aplicadas nas instituições, transformando-se em fatos. Confirma-se assim a sequência explicitada por Plinio Corrêa de Oliveira: Tendências → ideias → fatos.

Solapando a influência da Igreja

D. Victor Manuel Fernández, Arcebispo de La Plata, Argentina

E há o pior: novas práticas de religiosidade. A missa online foi imposta na rotina de muitos católicos. Milhões assistem por essa via à celebração de missas — por exemplo, aquela celebrada pelo Papa Francisco, transmitida direto de Santa Marta, em Roma. Em vários países, grupos de católicos insatisfeitos com o fechamento das igrejas lançaram apelos aos bispos para que elas fossem reabertas. Mas, para certo tipo de fiéis, a comodidade da “missa em casa” — que não conta com as graças abundantes da presença real de Nosso Senhor Jesus Cristo na Eucaristia — provocará um resfriamento do fervor religioso.

As missas dominicais voltarão ao normal? Se depender de D. Victor Manuel Fernández, Arcebispo de La Plata, Argentina, amicíssimo do Papa Francisco, é provável que não. Pois, numa declaração surpreendente, ele afirmou que “o preceito dominical não é indispensável, e é algo que poderia cair”.5

Parece precipitada a afirmação do prelado, sem fundamento na disciplina e doutrina da Santa Igreja. Além disso, após tornar-se rotina a “missa online”, adeptos do progressismo encontrariam terreno fértil para novas ideias. E assim chegaríamos ao fato, impensável até alguns meses atrás, de se generalizar a defesa do fim do preceito dominical, uma tradição católica estabelecida desde os tempos apostólicos. Quantas transformações por meio de comportamentos aparentemente insignificantes!

Lembra-se o leitor do estranho silêncio que percebi num sábado à noite? Em outra noite silenciosa como aquela, ouvi tocarem os sinos da igreja próxima de minha casa. Não é normal ouvi-los, pois ficam a mais de um quilômetro de distância, e os harmoniosos, evocativos e tranquilizadores sons daqueles sinos só podem ser ouvidos quando emudecem as agitações da vizinhança.

Se não for emudecido tudo de bom que a Igreja Católica nos oferece, prosseguirá dando-nos alento e orientação, pois retém a promessa do Salvador: “As portas do inferno não prevalecerão contra a Ela”.

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Notas

Fonte: Revista Catolicismo, Nº 834, Junho/2020.

  1. Cfr. https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2020/04/ocorrencias-de-violencia-domestica-saltam-20-em-sp-na-quarentena.shtml
  2. Cfr. https://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/redacao/2020/04/30/bolsonaro-tenta-apertar-a-mao-de-militares-e-recebe-toque-de-cotovelo.htm
  3. Cfr. https://www.abc.es/deportes/tenis/abci-nadal-no-quiero-nueva-normalidad-quiero-normalidad-antes-202005042206_video.html
  4. Cfr. Esolen, Anthony, Manual politicamente incorreto da Civilização Ocidental, Vide Editorial, Campinas, SP, 2019, pp. 281 e 282.
  5. https://www.religiondigital.org/opinion/Monsenor-Victor-Manuel-Fernandez-personas-ayuda-presencia-iglesia-emergencia-coronavirus-virtual-sacramentos-muerte-argentina_0_2226377348.html

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