Poder-se-ia fazer poeticamente a seguinte pergunta: no conjunto das flores que Deus criou, pode-se conceber uma flor preta? E que relação ela teria com as harmonias do universo?

Santa Josefina Bakhita (1869-1947)

A raça negra certamente foi beneficiada pelo fato de missionários católicos exercerem na África seu apostolado e terem convertido à verdadeira Fé muitas pessoas. Além do que, o deslumbramento produzido pela civilização ocidental levou número considerável de africanos a abandonar hábitos milenares censuráveis e adotar estilo de vida menos distante de uma conversão.

Alguns pequenos fatos ocorridos em minha vida, mas com significado simbólico, ilustram o encanto que se pode discernir na cor preta e na raça negra.

Tulipa preta, “rainha da noite”

Certa vez, passeando de automóvel, em Paris – creio que ia a caminho do aeroporto –, atravessando alguns bairros periféricos, encontrei numa loja, exposto numa vitrine, um vaso com tulipas. O bonito e o pitoresco do vaso – com aquela nota picante que só os franceses sabem dar – continha uma tulipa preta. Em torno dela, tulipas de um vermelho cor de sangue, amarelo dado a dourado e brancas, formavam uma policromia em que a cor preta era a nota firme, que dava encanto a todo o resto. Isso fez-me lembrar da raça negra…

Não posso me esquecer também de certa noite que tive de passar no continente africano, em Dakar, capital do Senegal, numa de minhas viagens à Europa, devido à escala do avião. Minha grande recompensa foi ver os negros.

Dakar é uma grande cidade. Sob influência da França, modelou-se muito, sem deixar de ser uma grande cidade negra.

Fui visitar um parque, juntamente com companheiros de viagem. De repente, notei um certo movimento e percebi que era uma celebridade que estava chegando. Realmente, cercada de um grupo de outros negros, seus conterrâneos, vinha uma mocinha, de uns 18 a 20 anos, na flor de sua juventude portanto, preta como ébano. Podia ser filha ou sobrinha do Bem-aventurado Pierre Toussaint

Estava vestida de tal modo que, creio, nunca me esquecerei em minha vida… Um cor-de-rosa muito mimoso, muito leve, com panejamentos abundantes e um turbante da mesma cor. Portava também miçangas com vidros coloridos que ela sacudia, modo indireto de chamar a atenção. Era um livro africano com encadernação francesa…

A moça tinha aprendido mantien [atitude ereta do tronco e da cabeça]. Seus modos não eram altivos, mas dignos e distintos, com desembaraço. Seu modo de sorrir afável, mas mantendo distância, pareceu-me bem moralizado. Em torno de si, mantinha uma atmosfera de gracejo leve e inocente, como uma brisa vinda do mar.

Prestei atenção nos outros negros que estavam andando por ali. Eram altos, bem constituídos e com fisionomia séria, portando um fez: um chapeuzinho em forma de cone truncado, de um vermelho escuro, alguns deles ostentando no alto um pompom preto.

Os senegaleses usavam duas peças de roupa: as túnicas, que iam do alto do pescoço até as plantas dos pés, de cores diferentes, mas muito discretas; e, por cima delas, uma cobertura para o corpo, sem mangas, uma espécie de colete, de aberturas bem grandes para deixar passar os braços, e não fechada na frente.

Toda essa indumentária comunicava-lhes uma atitude que evocava um tanto a de um professor catedrático de uma grande Universidade, quanto um pouco a de janízaros.(**)

* * *

Isto posto, o que concluir sobre a raça negra? Ela manifesta, em certas circunstâncias e ocasiões, uma capacidade de expressão, que não é tanto a da palavra, mas sim do porte, do movimento, do gesto, do riso e da compenetração, que lhe dá um poder que é de causar inveja – não querendo ofender ninguém – a muitos povos brancos. Eu seria tentado a dizer que a todos. Excetuo, entretanto, todo mundo que queira se excetuar…

Notas:

(*) Excertos da conferência proferida pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira para sócios e cooperadores da TFP em 31 de maio de 1991. Sem revisão do autor.

(**) Corpos de infantaria regular do exército turco, que constituíam a guarda dos sultões, criados pelo Vizir Halil Pacha durante o reinado do Sultão otomano Murat (13l9-1389).

Fonte: Catolicismo, N° 582, julho de 1999

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Plinio Corrêa de Oliveira
Homem de fé, de pensamento, de luta e de ação, Plinio Corrêa de Oliveira (1908-1995) foi o fundador da TFP brasileira. Nele se inspiraram diversas organizações em dezenas de países, nos cinco continentes, principalmente as Associações em Defesa da Tradição, Família e Propriedade (TFP), que formam hoje a mais vasta rede de associações de inspiração católica dedicadas a combater o processo revolucionário que investe contra a Civilização Cristã. Ao longo de quase todo o século XX, Plinio Corrêa de Oliveira defendeu o Papado, a Igreja e o Ocidente Cristão contra os totalitarismos nazista e comunista, contra a influência deletéria do "american way of life", contra o processo de "autodemolição" da Igreja e tantas outras tentativas de destruição da Civilização Cristã. Considerado um dos maiores pensadores católicos da atualidade, foi descrito pelo renomado professor italiano Roberto de Mattei como o "Cruzado do Século XX".

1 COMENTÁRIO

  1. Santa Josefina Bakhita, sua expressão me enleva desde que vi um quadro seu.
    Ao conhecer a vida desta santa, mais ainda me surpreendeu seu olhar terno e expressão de alegria interior.
    Uma vida pontilhada de dificuldades e tanto amor e carinho seu olhar expressa.

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