Lendo trechos da terceira encíclica do Papa Francisco, Fratelli tutti, assinada, em Assis, a 3 de Outubro pareceu-nos tão patente sua semelhança com o lema de D. José Gaspar de Afonseca e Silva, Arcebispo de São Paulo, Ut omnes unum sint, que resolvemos publicar aqui alguns comentários do Prof. Plinio naquela época.

“Todos Irmãos”, ou “Para que todos sejam um”

O Prof. Roberto De Matei acaba de publicar em nosso Site uma substanciosa análise da encíclica.

De nossa parte, queremos demonstrar que essa vaga, rousseauniana e lírica concepção da bondade humana, vem de há muito. Repetindo as ideias de Rousseau, o arcebispo D. José Gaspar adotou como seu lema: UT OMNES UNUM SINT.

Escreveu o Prof. Plinio: “O conhecimento – o mais elementar – dos Santos Evangelhos, mostra o ardor extremo com que Nosso Senhor Jesus Cristo pedia para a Igreja, e recomendava aos fiéis, a união. Pode-se, mesmo, afirmar que poucas preces brotaram dos lábios divinos com ardor igual.”

Restabelecer o vínculo de união, que estava partido, através da graça

“A razão é simples, como deve ser concebida segundo a doutrina dos Santos Evangelhos, está no cerne da própria missão de Nosso Senhor Jesus Cristo no mundo. Como Salvador, veio Ele restabelecer o vínculo de união da graça que estava partido desde o pecado original. E, ao mesmo tempo, unir na abundância exuberante das graças da Nova Aliança todos os fiéis entre si, recomendando-lhes que trabalhassem por unir a Si todo o gênero humano, no aprisco único, sob o báculo do único Pastor.

“União do homem a Deus, dos fiéis à Igreja, dos filhos da Igreja entre si, e dos infiéis ao Corpo Místico de Nosso Senhor Jesus Cristo, nisto se pode resumir a obra do Divino Salvador.

O que significa, por exemplo, a frase “Ide e ensinai a todos os povos” senão “Ide e uni na comunhão da doutrina e da vida da graça a todos os povos”?

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Para me unir ao próximo preciso estar unido a Nosso Senhor

“No que me diz pessoalmente respeito, a primeira execução que devo dar ao lema do Ex.mo Rev.mo Sr. Arcebispo é referente à minha união interior com Deus Nosso Senhor. “Que a intensidade dos trabalhos não faça minguar mas, pelo contrário, crescer em mim a intensidade da vida interior, que minha piedade se torne mais ardente e minha vida de oração mais autêntica, eis a primeira de minhas preocupações, que menciono apenas para pedir, neste sentido, a tantas almas piedosas que leem o “LEGIONÁRIO”, o apoio de suas orações. Porque se neste terreno não houver progresso, terei implicitamente traído a confiança de meu Pastor, tornando sem frutos reais e sem mérito diante de Deus meu apostolado.”

União com Nosso Senhor, união com a Santa Igreja

“Essa união a Nosso Senhor tem como condição e como consequência necessária uma união cada vez maior com a Santa Igreja de Deus. Mas a Santa Igreja está muito longe de ser um ente abstrato. (…)


“Unidos todos nós à Igreja, estaremos unidos entre nós. O conhecimento do que seja a Igreja, o amor à Igreja, obediente à Igreja, eis a medula de todo e qualquer programa de união.

“Mas tal objetivo só se alcança por métodos impregnados de espírito católico. Se, como diz Santo Agostinho, Deus sabe governar “suaviter et fortiter” [com suavidade e com força] o coração humano, não deve ser outro o modo pelo qual se deve desenvolver o dulcíssimo e oportuníssimo apostolado de união no Corpo Místico de Cristo, que é a Igreja.


Trairíamos nossa graça batismal se entendêssemos essa união como uma transigência com aquilo que nele deve ser reformado. Pelo contrário, a expressão mais genuína de nossa caridade deve consistir em elevá-los à luz da vida da graça, isto é, à prática correta dos Mandamentos.

“Se, ao cabo do afanoso apostolado que se abre diante de nós, fosse um pouco menos numerosos os casos em que Nosso Senhor “in sua venit et sui eum nom receptorum” [veio entre os seus e os seus não o receberam], quem poderá medir a intensidade de nosso júbilo?”

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Nosso zelo se extende aos que estão fora da Igreja

“Mas o zelo não tem limites. Ele se estende ainda – e com que ardor! – para as muitas almas que, arrastadas pelo pecado da apostasia ou nascidas na ignorância da verdadeira Religião, se encontram hoje fora do grêmio da Igreja Católica. Judeus, protestantes, cismáticos, espíritas, maçons, comunistas, nazistas a todos eles quereríamos ver finalmente reconduzidos ao bom caminho, cantando ao nosso lado as glórias de Deus.

Que Nossa Senhora, que sendo Porta do Céu é implicitamente Porta da Igreja, se digne incendiar nosso zelo com todos os recursos necessários para atingir ao menos em parte tão almejado fim, é esta nossa ardente oração a este respeito.


(…)

“Sejamos um na oração, um na vida interior, um no modo de pensar, de sentir e de viver, e necessariamente seremos um na hora do combate. Esse grande exército, assim unido, poderá infundir terror no adversário e – o que é muito mais importante – atrair sobre si a abundância das bênçãos de Deus.” (1)


“Que todos sejam um à sombra da Igreja, sob os olhares de Maria, nos pés do Santíssimo Sacramento!

“Que todos sejam um no professar intransigentemente a Verdade ensinada pela Igreja! Que todos sejam um no praticar inflexivelmente os Mandamentos, não apenas quando atraentes e formosos aos olhos de nossa sensibilidade, de nossa fantasia, mas ainda quando árduos, ingratos e áridos os deveres por eles impostos!

“Que todos sejam um no trabalho de evangelizar as almas sedentas da água viva, que é a única a poder sacia-las!

“Que todos sejam um, governantes e governados, ricos e pobres, plebeus e nobres, cultos e ignorantes, não em uma unidade que, à moda socialista, confunda e amalgame em um verdadeiro caos o corpo social, mas em uma unidade que consolide e penetre de suave harmonia o funcionamento e as relações das classes, desiguais pela fortuna e pela situação!

“Que todos sejam um no trabalho para aliviar as dores físicas e combater as moléstias do corpo! Mas que, sobretudo, sejam todos um para combater intransigentemente os fautores de desordem que enchem de angústias, de perturbações e de perigosas inovações todo o corpo social.” (2)

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O lema “ut omnes unum sint, na linguagem da Pastoral, poderia ter esta tradução: para que todos se unam na posse da Verdade e na prática do Bem, isto é, no aprisco da Igreja.

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