Heroísmo. E em nossos dias

O heroísmo está démodé, e quase não existe mais em nossos dias? Deixo ao leitor a resposta. Em todo caso, no Oriente as coisas parecem estar diferentes que nesta parte do mundo.

Por exemplo, no distante Paquistão, o católico Shabaz Bhatti, de 42 anos, ministro das minorias no governo, como ministro ousara contraditar a lei sobre a blasfêmia, pela qual qualquer pessoa acusada de fazer críticas a Maomé poderia ser presa por qualquer um, e ter um destino trágico. Ele voltava de uma viagem de carro, no dia 2 de março de 2011. Em determinado momento, apareceram quatro homens armados e o mataram. Era o único católico em um cargo tão alto.

Algumas semanas antes, ele havia declarado:  ”Vivo para defender meus concidadãos que sofrem e estou pronto a morrer para defender seus direitos”.

As igrejas católicas nesse país são vítimas de vandalismo todos os meses, e os fiéis sofrem  agressões frequentes por parte dos muçulmanos. Apesar de tudo, a heroica conversão destes ao catolicismo prossegue em um ritmo modesto porém constante.

Mas o caso de Shabaz Bhatti é caso único, dirá alguém. Não é. No Oriente há centenas, edificantes e atuais casos de martírio.

Vejamos, para começar, o que ocorre na Nigéria, o maior país cristão da África, onde desde 2009os cristãos assassinados por sua fé, foram várias centenas. 50 igrejas foram alvo de ataque islamita a bomba, a maioria destruídas ou seriamente danificadas, e dezenas de padres morreram. Toda semana há um novo relato de crimes contra os católicos desta nação.

Em todos os países em que ocorreu a primavera árabe,  as já numerosas hostilidades contra os cristãos aumentaram.

Segundo a organização especializada Portes Ouvertes[1] , os países onde ocorrem mais perseguições são a Coréia do Norte, o Afeganistão, a Arábia Saudita, a Somália, o Iran, as Maldivas, o Paquistão, o Iraque, o Iemen e o Uzbequistão. No Egito, no Sudão e na Nigéria ‒ a nação onde há mais cristãos na África ‒ a perseguição está crepitando. Num total, existem mais de 60 países onde há perseguições, presentemente.

O sangue dos mártires é semente de novos cristãos”, dizia Tertuliano. Mas nós, que por enquanto podemos praticar nossa santa religião, não devemos ficar indiferentes a tanto sangue derramado, do qual a mídia e uma parte do clero nunca falam.

Vem a propósito recordar o caso da Luiza Carneiro, que pode ser lido entre os “Bilhetes de Paris”, de Eça de Queiroz. Conta o escritor que, numa noite, uma senhora lia para uma roda de pessoas um jornal repleto de notícias calamitosas. As catástrofes eram lentamente comunicadas: dois mil javaneses sepultados em um terremoto, a Hungria inundada, soldados matando crianças, um comboio esmigalhado na ponte, fomes, pestes e guerras. A indiferença era geral. De repente a leitora solta um grito, leva as mãos à cabeça e exclama: “Santo Deus!” Todos se ergueram, sobressaltados, e perguntaram o que havia acontecido. A leitora balbuciou: ‘Foi a  Luiza Carneiro, da Bela Vista!… Esta manhã!… Destroncou um pé!’

As senhoras largaram a costura, os homens esqueceram charutos e poltronas, e todos se debruçaram, reliam a notícia no jornal amargo e se repastavam da dor que ela exalava: “A Luizinha Carneiro! Destroncou o pé! Já um criado correra furiosamente para a Bela Vista, a buscar notícias. Mas o pé destroncado da Luíza Carneiro esmagava os corações. Pudera! Todos conheciam a Luizinha, e ela morava adiante, no começo da Bela Vista, naquela casa onde a grande mimosa se debruçava no muro, dando à rua sombras e perfume”.

Os martírios de que falávamos não se passam aqui perto, mas não façamos como os amigos da Luiza. Saibamos colocar nosso coração em união com nossa Igreja que sofre, perto ou longe. Em certo sentido, dado o dogma da comunhão dos santos, esses mártires são carne de nossa carne e sangue de nosso sangue. É como se estivéssemos sendo martirizados!


[1] www.portesouvertes.fr.