Há quase vinte e cinco lustros, isto é, a 25 de março de 1834, um comerciante português da cidade do Porto se encontrava em graves preocupações. É que partia, nesse dia, para o longínquo Brasil, um filho seu, ainda adolescente, que aqui vinha tentar os riscos da carreira de comerciante. Situação pungente essa, de um pai que entrega o filho às incertezas da vida, quando seu caráter ainda não se formou inteiramente… e o vê partir para uma terra distante, onde são impossíveis os encontros assíduos, os conselhos dados ao longo dos acontecimentos. Talvez mesmo nunca mais se revissem. “Partir, c’est mourir un peu…” Como esse pensamento melancólico explicaria bem, para o Sr. Francisco Luiz d’Andrade e seu filho, o que sentiram nos derradeiros momentos de convívio.

Condensando os conselhos, dados sem dúvida no decurso das extensas conversas dos últimos dias, escreveu o comerciante luso, para seu filho, num livrinho de manuseio, uma longa carta, que lhe deveria servir de roteiro para toda a vida.

Nada sabemos do destinatário, nem do uso que fez destes conselhos. O documento chegou a nosso conhecimento simplesmente porque, a 28 de agosto de 1838, no Rio de Janeiro, o copiou o bisavô de um colaborador desta folha. Exumado de seu arquivo de família, damo-lo hoje à publicidade nesta secção.

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Sim, nesta secção que habitualmente se ocupa em analisar os estados de espírito que se depreendem dos costumes, que marcam os ambientes, e que dão vida às civilizações. Pois esta carta de um autor obscuro, a um destinatário anônimo, imersos ambos na existência quotidiana de simples particulares, diz muito sobre os costumes, os ambientes, a civilização como eram em Portugal e geralmente no Ocidente, nos meios do pequeno e médio comércio.

A concepção da vida que serve de fundo de quadro a esta carta, corresponde a uma etapa de transição entre os dias áureos de civilização cristã e os dias febricitantes e confusos de neopaganismo em que vivemos.

Diz São Tomás que cada ser intermediário, visto de um lado, se parece com o outro. O mestiço parece escuro entre os brancos, e branco entre os pretos.

A filosofia da vida do missivista se resume em poucas palavras. Devemos viver para nosso próprio bem terreno. Para consegui-lo, o meio é o trabalho. Tudo, pois, quanto afaste de tal fim e de tal meio é censurável. Mas o dinheiro não é o único bem. Cumpre adquiri-lo honestamente, pois a moral é condição essencial para o homem se prezar a si próprio e ser honrado pelos demais. E para o comerciante inspirar confiança e ter sucesso, há também Deus. Sim, Deus, no qual se crê sinceramente e que tanto pode fazer para ajudar na conquista da felicidade. Deus enfim que o homem encontrará como juiz no fim da vida. Assim, há que ser correto com Deus, por dever antes de tudo, e também porque esse é o meio seguro de obter que Ele seja benfazejo para o filho do Sr. Francisco Luiz d’Andrade. Luta pela Fé, apostolado, senso do bem comum, tudo isto que tornou gloriosos, em toda a terra, os portugueses de outras eras, minguou ou quase desapareceu na “weltanschaung” desse comerciante típico do século XIX.

Mas [a] quem o lê com os olhos exaustos e nauseados de um homem de bem do século XX, cansados de considerar o indiferentismo religioso total, a extravagância, a cupidez, o cinismo dos dias que correm, não é isto que mais ressalta.

Sentimos, ao longo desta carta, um contacto vivificador com um bom senso tradicional e sólido, uma ponderação, uma dignidade, uma sagacidade e uma candura que encantam. Há nestas linhas um calor de zelo paterno, que bem mostra a solidez que a instituição familiar conservava nas camadas profundas da sociedade. Enfim, há toda uma concepção de rapaz sério, que edifica e refresca a alma nestes dias que geraram Elvis Presley e o “rock and roll”. É este documento que, na pluralidade de seus aspectos, entregamos hoje à consideração de nossos leitores.

Os subtítulos são nossos. Conservamos a ortografia do original, mas, para facilitar a leitura, pusemos por extenso as numerosas abreviaturas tão do gosto da época. Os clichês são do álbum “Rio de Janeiro Pitoresco”, de Moreau e Buvellot, publicado em 1845.

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Meu Filho

Vais sahir da companhia de teus Pays, para procurar o teu estabelecimento no imperio do Brasil – e na Corte do Rio de Janeiro – como Commerciante.

CONDIÇÕES DE ÊXITO NA “CARREIRA COMMERCIAL”

A carreira do Commercio he aquella que tem seguido teus Pays e Thios, e aquella que eu julgo mais vantajosa para ti, e mais adequada a índole que te descubro.

Muitos homens grandes têm aprezentado a carreira Commercial; o que depende muito de sua boa fortuna, mas especialmente do seu bom comportamento, honra, e probidade; e sobre tudo do assíduo trabalho a que se sugeitárão desd’a sua tênra idade, como he a tua agora.

Tomando esta profissão nobre, e honrada, tu podes sêr hum dia tão grande homem, como tem sido muitos, mas hé necessario que te sugeites como elles se sugeitárão, ao trabalho, e às fadigas proprias da mesma nobre profissão. Hum homem, que se sugeita ao trabalho nos principios da sua vida fica sempre apto, ou habilitado, para tomar qual quer rumo, que a forctuna lhe distinar na carreira da sua vida. Pelo contrario hum homem que na sua infancia hé perguiçôzo, e indolente ja mais póde vir a ser couza alguma no futuro, e até se torna hum ente aborrecido, e só digno de desprezo.

Para entrares pois, na Carreira do Commercio hé indespensavel começar por te arrumares em caza de algum Patrão Commerciante, a onde aprenderás servindo, a ser hum dia negociante, e talvez mesmo grande homem.

“AGENCEAR FORCTUNA GRANDE NO IMPERIO DO BRAZIL”

Se as circunstancias da tua Patria – de que já mais te deves esquecer – fossem mais favoraveis, ou mostrassem hum aspecto fucturo mais lisonjeiro, aqui mesmo poderias arrumarte; e nem eu te alongaria das minhas vistas se o não julgasse proveitozo para ti mesmo, por que a esperiencia, que é a melhor mestra dos homens, tem mostrado que raras vezes no proprio Paiz s’agenceão forctunas grandes, e que a escola do mundo, viajando produz ampliaçoens de conhecimentos, e de relaçoens, que são muito vatajozas a quem se dedica a profissão do Commercio. Estas rasoens, entre outras, são as que me decedirão a inviarte ao Imperio do Brazil, e para ahi aprendêres o Commercio; e quando a tua idade te permittir mais raciocinio, conhecerás então a verdadeira razão, e as paternaes vistas com que te faço agora dár este passo por tua propria utilidade.

Direi agora o que te cumpre faser, chegando ao Rio de Janeiro.

A JURISDIÇÃO PATERNA NÃO EXPIRA NAS PLAGAS LUSAS

Teu Primo o Sr. João Luiz da Rosa, a cujo principal cuidado te entrego, e a quem deves obedecêr como a mim mesmo, já que eu não posso acompanharte; leva a incumbencia de te procurar hum Patrão; e eu estou tão seguro da sua probidade, e boa amisade, que não duvido que elle fará a este respeito tanto como eu mesmo faria. Tu deves entrar na Caza do Patrão que elle te destinar, e conservarte n’ella em quanto o Primo não tiver a bem mudarte; nem já mais mudarás de Patrão por teu proprio arbitrio, e sem o consultar, e esperar a sua approvação.

O PATRÃO, “QUE ENSINA E DÁ DE COMER”

Deves estár na certesa de que não convém andar a mudar de Patrões, por que essas mudanças desacreditão a hum rapaz que coméça a sua vida commercial, e mostrão que elle se não sugeita ao trabalho, sem cuja sugeição nunca se pode ser homem, e negociante.

Seja qual fôr o Patrão que a sorte te destinar, deves obedecer como se fosse teu Pay: deves ser-lhe muito fiel; muito cuidadozo no seu serviço; muito zelozo dos seus interesses; e mui prompto em executar as suas ordens, sem nunca mostrar enfado; pois que o teu Patrão tem direito a exigir de ti todo o bom e zelozo serviço, em troco de te insinar, e darte de comer: he por tanto huma divida que lhe deves o ser-lhe muito obediente, muito fiel, e muito zelozo dos seus interesses; e praticando o contrario te expõens a que te castigue, e a que te não queria na sua caza; o que te pode tolher o teu arranjo em outro Patrão, por que ninguem te quererá na sua Caza talvez, tendo sahido d’outra, sem hum justificadissimo motivo. Repito pois, que sem approvação do Primo o Sr. João Luiz da Roza, ou do Sr. Domingos Carvalho de Sá na sua falta, nunca mudarás de Patrão.

“QUANDO NÃO HA O QUE FAZER, NÃO SE BRINCA”

Não deves estar nunca occiozo: a ociosidade é a may dos vicios. Procura sempre occuparte no serviço que houver a faser na caza, ou Loja do teu Patrão: espanar a fazenda; endireita-la; dobra-la; po-la no seu lugar; mostra-la a quem a procura, tratando com muito, e bom modo a todos; e finalmente faser o que te mandarem os mais velhos quer seja o mesmo Patrão, quer os Caixeiros, ou ainda os rapazes mais antigos, são occupaçõens em que deves entreter o tempo sempre: e quando não ha que faser, não se brinca; escreve-se, e fasem-se contas para hir aperfeiçoando a letra, e habilitando-te na contabilidade.

OS “RAPAZES BREJEIROS” CORROMPEM O APRENDIZ DE NEGÓCIO

Quando te mandarem fóra a algum recado, vai-se depreça e se volta logo dando resposta exacta do recado que levaste. Nunca te demores pela Rua ficando pasmado aqui e a colá: e de nenhum módo te entretenhas a brincar com os outros Rapazes. Hum minino que foi bem creado como tú não lhe fica bem misturar-se com os Rapazes mal educados, e brejeiros.

O tempo de brincar acabou para ti, assim que entrares na caza de teu Patrão. Desde então só deves cuidar em sêr sizudo, e trabalhador para ganhares a amisade de teu Patrão, e da sua Mulher e Filhos se os tivêr: a todos deves respeitar como superiores, lembrandote de que hum dia tambem has-de ser obedecido quando fores Dono da tua Caza; e que agora em quanto és servo, e Aprendiz de Negocio deves têr huma obediencia, e respeito completo não só ao teu Patrão, como a sua familia.

Nunca procures, antes deves fugir da companhia de Rapazes da tua idade, ou ainda mais velhos que tu: procura sim a companhia, e os conselhos dos homens já maduros, e experimentados como o Primo João Luiz e o Sr. Domingos Carvalho de Sá; por que a companhia de homens como estes dá credito e instrução, e a dos Rapazes não pode trazer se não mal, e ruina.

“HUM CAIXEIRO DE COMMERCIO NÃO DEVE ACEAR-SE COMO HUM PITIT MAITRE”

Os Conselhos que te dou como aprendiz de negocio, tambem te servem para quando fores Caixeiro, e que como tal ganhes teu salario. Se a tua conducta como Rapaz deve sêr boa, ainda deve ser melhor como Caixeiro.

Hum Caixeiro a quem seu Patrão dá hum Ordenado, tem dobrada obrigação de lhe ser muito fiel, e de lhe faser não só o serviço correspondente ao Ordenado que recebe, mas ainda muito mais, assim por gratidão, como por convidar a boa vontade e saptisfação do Patrão, a augmentar-lhe o Ordenado , e a juda-lo. Quando vieres a têr o teu ordenado, hé neccessário que o não gastes em loucuras: déves sêr muito economico, e poupar muito o dinheiro do teu ordenado, gastando d’elle tão somente o que te for muito preciso para vestir e calçar, e para lavajem de roupa e engoma-la. Nunca uzes de módas estravagantes no teu vestuario, por que essas modas inculcão leveza de Cabêça e falta de juizo, alem de augmentarem as despesas: hum rapaz ou Caixeiro de Commercio não deve acear-se como hum – Pitit maitre – mas sim andar vestido com gravidade, e com decencia.

Muito mais eu poderia dizer-te nesta materia, mas omitto-o por que julgo mais conveniente dizerte, e recomendarte, e a té mandarte que te guies pelos conselhos que te dêr o Primo João, a este e a todos os respeitos; por que não só elle é homem maduro, mas tambem muito experiente do Brazil, e pode por conseguinte melhor que eu ainda guiarte no que deves fazer; e eu espero da sua amizade que ele assim o fará.

NOS DOMINGOS E DIAS SANTOS, CALIGRAFIA, CONTAS E LITERATURA FRANCESA

Já disse a traz e o torno a repetir, que nunca estejas em ociosidade: Quando te sobejar tempo do serviço de teu Patrão, e nos Domingos ou dias Santos em que se não trabalhar, occupa-te em escrever para te aperfeiçoares, e em fazer contas; e tambem em cultivar a lição do Francez, lendo o teu Telemaco que é livro de grande instrução e proveito para guiar a mocidade, e firma-la nos principios de boa moral, de honra e de probidade; e ja mais te esqueças do quanto no Telemaco se persuade – nunca mintir –: hum homem mentiroso é sempre um máo homem: Telemaco antes quiz expor-se à morte do que mentir –: tu deves pois nunca ser mintirozo, e diser sempre a verdade quer seja a teu favor, quer não. O homem verdadeiro, e que he sincero nos seus contratos, he sempre bem avaliado e acreditado: pelo contrario um mentirozo só merece desprezo, e ninguem quer contractos com elle, nem o sofre em sua Caza.

“DEUS NOS DÊ FORCTUNA NESTA VIDA E A SUA GLORIA NA OUTRA”

Sobre Religião tenho a diserte o seguinte.

A Religião Catholica Romana he aquella que professão teus Pays, e aquella que tu professaste tambem, e que unicamente déves seguir: foge de quem te disser o contrario; por que te querem arruinar, e perder. Nunca deixa de recordar a Doutrina que aprendeste e os Documentos que te derão teus Pays desd’a tua infancia. O primeiro devêr do homem he respeitar a Deos, que o creou, e que o Remio, e Salvou. Sem temôr de Deos, e sem o seu auxilio Divino, não podem os homens prosperar, e serem felizes. He pois necessario que te encomendes a Deos orando-lhe que te ajude a sêr homem de bem, e que te não desampare; para o que podes usar do teu livro que levas em Francez – La Journée du Chrectien – ao mesmo tempo que fizeres oração por elle, te hirás recordando do Francez que aprendeste. Deves têr especial devoção a N. S., e rezar-lhe todos os dias alguma couza, ao menos a Coroa, e huma Salve Raynha, para que te ajude e te guie na carreira da tua vida. Quem não hé amigo de rezar, não hé ajudado de Deos; e nós todos que somos seus filhos, temos obrigação de o reconhecêr como Pay, e recorrer a elle nas nossas tribulações, e trabalhos da vida, pedindo-lhe que nos accuda, e que nos valha, e que nos dê forctuna nesta vida e a sua Gloria na outra.

As minhas oraçõens, e as de tua May e Thios tambem não faltarão para que sejas bom e feliz; mas he necessario que tu da tua parte não faças por desmerecer o effeito da Porteção divina que lhe supplicar-mos.

Na Igreja deves estar sempre com muita devoção e respeito, quer seja a ouvir Missa, quer a assistir a qual quer Festividade ou Acto da nossa Santa Religião. Não se deve conversar ou rir na Igreja: ali é a Caza de Deos e só se deve conversar com elle por meio da Oração. Nunca deixes de saptisfaser aos Mandamentos da Ley de Deos que aprendeste; e aos Mandamentos da Igreja, ouvindo Missa nos dias de preceito, e confeçando-te pelo menos huma vez cada anno pela Desobriga: e se te confessares mais vezes ao anno farás muito bem, procurando um Confessor sabio e prudente, sem fanatismo; e observando os conselhos espirituaes que te der a respeito da tua conducta Religiosa, e Civil.

ALTERNATIVA ENTRE O BEM E O MAL, O EXITO OU O FRACASSO

Em fim, meu Filho, se te guiares sempre por estas instruções que te dou como Pay, e como mais experiente do mundo, has de hir bem com a tua vida, e sêr feliz, dando nisto muito gosto a teus Pays e Thios: mas se desprezares os meus conselhos, e te não condusires bem, darme-has muito desgosto, e me occasionarás talvez a morte, e a tua May; e a final ficarás perdido. Em duas palavras: se queres sêr hum homem de bem, hum Negociante probo e honrado, e merecer a estima de todos os teus parentes, has de fazer o que aqui tenho dito; e Deos N. S. te ha de ajudar. Se porem obrares pelo contrario, nem podes sêr ajudado de Deos, nem sêr feliz; e causando a tua propria ruina, ficarás perdido.

Vê meu Filho o que escolhes: ou darme, e a tua May e parentes muito gosto com hum comportamento digno; ou darme a morte com o disgosto dos teus desvarios. Eu espero que o meu Filho Francisco, antes ha-de querer dar-me gosto, do que a morte. Espero que elle refletirá hum dia, que deve corresponder aos cuidados, e despezas que seu Pay fez com a sua educação, procurando dar-lhe a saptisfação de vêr no seu bom comportamento, o fructo dos seus disvelos e cuidados.

A INTERVENÇÃO NA POLÍTICA É CONTRARIA À HOSPITALIDADE, E NOCIVA À CARREIRA COMERCIAL

Resta-me dizerte alguma couza sobre a tua conducta Politica.

Tu vais sêr hum Estrangeiro no Brazil: tu és Portuguez, e os Brasileiros são outra Nação diversa, posto falem a nossa mesma lingoagem. Os Estrangeiros pois, não devem nunca misturar-se nos Negocios Politicos do Paiz em que rezidem. Como Estrangeiro no Brazil deves só cuidar no Commercio, que é o fim unico a que te diriges e nunca te meter nas questoens do Governo do Brazil, que nada te devem importar.

Os Brazileiros fasem-te muito favôr em te admittirem no seu Imperio para aprenderes o Commercio, e sigui-lo; e portanto seria offendê-los o meter-te em partidos que lhes possão sêr oppostos. O Commerciante Estrangeiro como tu, não deve nunca sêr mais nada que Commerciante, e sempre alheio, e estranho a desordens politicas, que possão perturbar o giro do seu Commercio, e torna-lo odioso para com os Nacionaes que lhe dérão azilo.

Se por desgraça houver ahi alguma commoção ou dezordens; prohibo-te expressamente que sahias de Caza: o homem prudente nunca sahe da sua Caza em taes occasiõens, só se he para fugir dos perigos, mas nunca para se misturar n’elles.

“LEMBRA-TE SEMPRE DE QUE SÃO OS CONSELHOS DE TEU PAY”

Quando tu tiveres mais idade, e mais juizo por conseguinte, então é que poderás avaliar bem, o quanto he prudente o meu Conselho sobre a tua conducta Politica; e então tambem é que has-de conhecer a importancia, e utilidade das instruçõens que aqui te dou a todos os respeitos, as quaes tomei o trabalho de te escrever neste Livrinho para que conservando-o, me trazeres quando voltares, e para lêr com frequencia, possas não só executar o que te recommêndo n’elle; mas lembrar-te sempre de que são os Conselhos de teu Pay dados na occasião da tua partida para o Rio de Janeiro, escriptos por elle mesmo para teu bem, e para tua guia, visto que lhe não hera possivel acompanhar-te.

“ESCREVE-ME POR TODOS OS NAVIOS, COM LICENÇA DO PATRÃO E PEDINDO PAPEL AO PRIMO”

Assim que chegares ao teu distino deves escrever-me pelo primeiro Navio que sahir para Portugal, dando-me nocticias da tua viagem, – que Deos permitta que seja muito filiz – e da tua chegada ao Rio; e se já estiveres arrumado deves dizer-me tambem o nome de teu Patrão, e a Rua em que mora. Para esta primeira Carta te dirigirás pelo que te insinuar o Primo o Sr. João Luiz da Roza.

Para as que me dirigires depois, espero que as escrevas por ti mesmo, para eu hir vendo os progressos que fases em escrever, e discorrer. Eu quero que sem falta me escrevas por todos os Navios que d’ahi vierem para Portugal, e muito principalmente para esta Cidade do Porto; mas vê que deves pedir licença para isso ao teu Patrão, o qual certamente ta não negará se tu souberes têr merecido o seu agrado, e amizade. Não precizo que nas Cartas que me escrevêres me contes novidades: eu só quero saber da tua saude, e do teu arranjo, bem como dos teus progressos como Commerciante.

Vê que se chigar aqui algum navio sem Carta tua, isso será para mim e para tua May hum grande disgosto, e se faltares com as tuas Cartas começarás a dar-nos suspeitas de que não marchas bem na tua carreira, e que os nossos conselhos te não aproveitárão.

O Primo te fornecerá o papel percizo para escrevêres, assim como pagará os pórtes das Cartas que recebêres de mim: a primeira que has-de receber de mim será em resposta à quella primeira que me escrevêres: antes não te escreverei nem tenho para que; por que, quando te chegarem saudades da tua Patria, e de teus Pays, pódes neste Livro vêr a sua letra, e as suas Ordens.

“MEU PAY, AQUI LHE ENTREGO ESTE LIVRINHO”

A Deos meu Filho: A Deos meu Francisco…

Que gosto terei se marchares sempre pelo caminho da Religião, da honra, e da probidade!

Que gosto terei hum dia se souber que estás hum homem de juizo, e hum Negociante probo e honrado; e que soubeste ganhar a tua forctuna licitamente!

Que gosto terei hum dia se ter vir e abraçar dando-te a minha benção que tu merecêste pela tua boa conducta!

Que saptisfação terás tu mesmo quando voltes à tua Patria, podendo dizer-me = Meu Pay, aqui lhe entrego este Livrinho que me deu escripto com os seus conselhos: eu segui, e fui feliz = !…

Só as ideias da tua felicidade podem, meu Filho, suavisar a magoa que me fica, alongando-te de mim, bem que pôr teu proprio benificio, e utilidade.

A Deos…

Porto, 25 de Março d’1834

Francisco Luiz d’Andrade

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