No histórico 15 de março, no monumental protesto contra o governo PT ocorrido na Av. Paulista, um manifestante ampliou uma das capas da “VEJA” para ostentar seu descontentamento. Curioso que essa própria revista, na edição seguinte aos protestos, não deu nenhum destaque ao grande acontecimento. Por quê “VEJA” ignorou fato de tal magnitude? A revista mostrou que a presidente Dilma esta com os olhos fechados para a realidade brasileira, mas a própria “VEJA” não viu…
No histórico 15 de março, no monumental protesto contra o governo PT ocorrido na Av. Paulista, um manifestante ampliou uma das capas da “VEJA” para ostentar seu descontentamento. Curioso que essa própria revista, na edição seguinte aos protestos, não deu nenhum destaque ao grande acontecimento. Por quê “VEJA” ignorou fato de tal magnitude? A revista mostrou que a presidente Dilma esta com os olhos fechados para a realidade brasileira, mas a própria “VEJA” não viu…

Eu não conhecia quase nada fora dos limites da minha cidade, nenhuma referência sobre o tamanho do mundo, e estranhei quando o Repórter Esso não noticiou um fato local importante, manancial inesgotável para nossas conversas durante algumas semanas. Fiz até um rascunho de carta para reclamar, e só não a enviei por não ter encontrado o endereço. Do Repórter Esso, é claro, pois Rádio Nacional significava outra coisa no meu limitado conhecimento do mundo. Nunca perdoei o Repórter Esso por esse olímpico desprezo aos nossos fatos importantes. Ao invés de alardear Panmunjon, Coréia, muito mais simpático seria Minas Gerais, Mutum, e depois relatar o que atraía a atenção de todos no nosso centro do mundo.

Muito tempo depois de ter viajado quantum satis dentro e fora do País, continuo estranhando o grande destaque da imprensa para fatos sem a mínima importância, quando outros realmente importantes são inexplicavelmente omitidos no noticiário.

O leitor que acompanha minhas crônicas já deve estar cogitando do meu tema real de hoje, pois até agora só estou limando minhas flechas e calibrando a pontaria. Não o farei esperar, e lanço chapadamente estas perguntas: Quais são os critérios para avaliar a importância de uma notícia? Quem decide se será publicada ou não? Quando se deve omitir uma notícia? Por fim, a dúvida atroz de quem escreve: Se disser o que sei e penso sobre isso, será que perderei meu emprego?

A propósito desta última pergunta, lembro-me de um diálogo do proprietário de uma grande revista (que já saiu de circulação) com o seu redator-chefe:

— Por que você emitiu aquelas ideias no editorial, sabendo a minha posição?

— Escrevi exatamente o que penso.

— Quando você quiser publicar a sua opinião, crie a sua própria revista.

Eis um critério cômodo para a seleção das notícias: preservar o emprego.

Coreia-229x300Vários anos atrás, uma enorme foto de primeira página ilustrou o aparecimento de um jacaré no poluído rio Tietê, em São Paulo. Nem se via um jacaré, só as ondas concêntricas em torno de um ponto onde talvez houvesse um jacaré. Que importância tinha esse réptil para o jornal que se edita nas margens do Tietê? Na mesma edição, certamente fatos de real importância foram omitidos ou relegados a segundo plano, mas não podia faltar o assunto do dia naquela confraria jornalística.

Eis um critério infalível para tornar-se piada entre os leitores.

Um fato de grande importância colocou diante da revista americana Time a perspectiva de perder muitos leitores. A revista já estava pronta para ser enviada, quando chegou a notícia da derrubada de um avião da Korean Air Lines por artilharia russa, em plena guerra fria. Em reunião de emergência, a diretoria decidiu inutilizar quatro milhões de exemplares e reimprimir tudo, tendo aquela notícia como matéria de capa. Não destacá-la, acarretaria prejuízo maior – a perda de prestígio.

Eis um bom critério para a seleção das notícias: Não perder prestígio.

Decisão diferente dessa foi tomada pela revista Veja, cuja diagramação é concluída na Sexta-feira à noite, para ser impressa e distribuída no Sábado. Mas a manifestação do dia 15 de março, no domingo seguinte, foi surpreendentemente numerosa. Não sei que turbulências isso provocou dentro da redação, mas o fato concreto é que a edição seguinte só mencionou marginalmente uma manifestação que muitos consideram um importante divisor de águas no País. Ignorar um fato dessa magnitude? A mim isso parecia impensável, mas aconteceu. Haveria outras opções para suprir essa falta, mas eu não imaginaria que decidissem ignorar o acontecimento. Não creio estar fora da realidade, concluindo que muitos leitores perderam em alguma medida o grau de credibilidade que antes depunham na revista.

Eis um critério equivocado: Revista semanal sonegar um comentário minucioso sobre notícia importante da semana. O ombudsman acusaria: Veja não viu.

Nestes poucos exemplos que minha crônica comporta, chocam-se diversas gamas de interesses, desde o que pensa um redator sobre a perda do emprego até o que pensaria todo o País ou todo o mundo. Como ponderar tudo isso e publicar seletivamente, infalivelmente, os fatos ou dados mais importantes? Como saber o que tem importância? O assunto é complexo, e não me parece estar inteiramente resolvido nas cabeças que decidem. Mas fica-me a impressão de que a pergunta mais constante, mais abrangente, mais importante na cabeça dessas confrarias publicitárias, ao avaliar uma notícia, é esta: Isso tem importância para mim e os meus amigos?

Caro leitor, veja a coincidência: Desde aquele meu assunto da infância, até os fatos de alcance mundial, os critérios habituais para a seleção das notícias não têm grande variação: Isto interessa aos meus amigos?

2 COMENTÁRIOS

  1. Jacinto, tome cuidado com o que fala, não vá perder seu emprego… seria prejuízo para seus leitores. Já faz um tempinho, aprendi que a notícia não merece nossa fé irrestrita, todas me parecem peneiradas, camufladas, manipuladas em benefício de interesses maiores e obscuros, mas acho lindo e às vezes dou boas gargalhadas quando determinados cronistas atiram suas flechas daqui e dali, procurando instigar a crítica dos leitores, apresentando-lhes reflexões misturadas com poesia…

  2. Interessantíssimo esse artigo.
    Já há algum tempo venho pensando em fazer um comentário a respeito destes “critérios” usados na informação que a mídia nos passa.
    Esse artigo me dá essa ocasião.
    Leio e procuro me aprofundar, tanto quanto sou capaz, nos diversos temas do estudo que Sr. Dr. Plínio Corrêa de Oliveira escreveu : “Revolução e Contra Revolução”.
    No cap. XI da Parte I cujo título é :”A Revolução, o pecado e a Redenção – A utopia revolucionária”. Lemos ali o seguinte ” ….sem se afirmar diretamente que a moral não existe, se faz abstração dela….” peço a atenção na palavra ABSTENÇÃO.
    O exercício da informação que se nos prestam é em torno desta palavra. Creio bem estar aí a solução do “enigma” do critério usado em todos os veículos informantes. No capítulo citado Dr. Plínio dá exemplos das QUESTÕES-CHAVE escamoteadas e negadas ao nosso conhecimento. Em várias outras, informações que realmente importam nos são sonegadas.
    Não fosse Dr. Plínio Corrêa de Oliveira eu seria um zumbi perdido no tempo e no espaço.

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