O dinossauro invisível

Deus criou o universo tomando cuidado para que o homem não se sinta esmagado. Teve o critério de colocar as estrelas tão longe, que o homem não se sentisse senão iluminado e divertido por elas. Uma bolinha que brilha no céu, para nós é uma coisa que respeita nossa pequenez, nossa fragilidade.

E criou os seres formando uma hierarquia: os anjos, os homens, os animais, as plantas e os minerais. Cada um destes seres tem alguma coisa da natureza do ser superior, e tem alguma coisa também da natureza do ser inferior, numa harmonia perfeita[1].

A inimizade a essa sublime hierarquia é a essência do igualitarismo. Mas em certas épocas esse erro fatal, tão grosseiro, não deixando de existir de modo algum, passa entretanto quase desapercebido.

O movimento igualitário pretende anular toda desigualdade, e portanto toda harmonia. Mesmo a desigualdade entre seres inanimados. Em plena Revolução Francesa, durante o Terror, o Comité de la Salut Publique baixou uma ordem para que fossem derrubadas todas as torres ‒ de igrejas, castelos, residências ‒ que sobressaíssem do casario. Deveriam todas as construções ter a mesma altura. O que mostra bem o ódio do Igualitarismo a tudo que sobressai.

Trata-se de um inimigo de tudo o que é bonito, ordenado e requintado, por uma antipatia, por uma reação alérgica a tudo isso. O que é fino e selecionado o irrita, e o vulgar lhe desperta simpatia.

É a mentalidade de tantos turistas que vão ver as figuras do Aleijadinho: quebram seus dedos, escrevem o próprio nome na pedra, fazem inúmeros estragos. Por quê? Porque é preciso quebrar tudo aquilo que está direito, que é elevado.

Estes exemplos mostram bem que o Igualitarismo não se limita ‒ como muitos pensam ‒ ao campo sócio-econômico.

O igualitarismo é como uma doença de sintomas confusos que infecte nossa cidade, produzindo efeitos diferentes: num, uma pequena indisposição de estômago; noutro, uma coceirazinha; noutro, um pequeno ardor de olhos; noutro, uma dor de ouvido. A doença pode ser enérgica, fatal, porém difícil de ser diagnosticada.

Descreve Dr. Plinio: Imaginemos que estivéssemos reunidos em uma praça, e que também estivesse ali uma pequena multidão. Nisso, nós vemos um dinossauro entrar na praça, e começamos a gritar, avisando os outros daquela presença estranha e indesejável. Todo mundo olha assustado, e pergunta: “Onde está o dinossauro?” Ninguém o vê, e nós o vemos. Ele está enchendo a praça, e sua presença é dominante. Continuamos a dizer-lhes que todos estão sendo de algum modo dominados, circunscritos e orientados por ele, e perguntamos: “Vocês não estão vendo o dinossauro?” E a resposta é: “Não! Não estamos vendo”.[2]

É um tanto ridícula a posição de quem não enxerga ou só vê no Igualitarismo aspectos secundários. Mas se não o virmos nos outros, façamos um exame de consciência.e o encontraremos dentro de nós.

Dizia o Dr. Plinio: “O fato mais importante de nossos dias é uma imensa Revolução igualitária, que dirige em seu benefício o curso de todos os acontecimentos, visando à igualdade completa, por meios ora graduais e pacíficos, ora abertos e brutais” (conferência pronunciada em 1967).

Caro Leitor, porventura Você já viu este “dinossauro”?

PS.: O assunto Igualitarismo tem recebido neste site muitos comentários. Destaco o que escreveu Ninaah Viana, com erudição e firmeza, e Vladimir, que colheu inteiramente e com clareza a essência do que foi tratado: “O igualitarismo, do ideal radical do comunismo, se metamorfoseou em atraentes estilos de vida para o Ocidente… é o ideal do jeans, coca-cola, cortes de cabelo extravagantes, até a educação escolar obrigatória, às escolas unissex (ou como dizem, mistas)… Tudo isto está impregnado com o mesmo igualitarismo pregado pelo comunismo, mas revestido de outra roupagem mais apetecível ao homem ocidental moderno”.


[1] Estes dois parágrafos com que iniciamos o presente artigo são de autoria de Plinio Corrêa de Oliveira, em conferência sem data proferida nos anos sessenta.
[2] Idem ibidem.