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Crédito: Imagem gerada pelo ZAIN

Até os liberais mais empedernidos precisam admitir que há algo de errado com a ordem liberal que há muito domina a modernidade. As estruturas sociais e culturais sobre as quais essa ordem se assenta ruíram — notadamente a família, a comunidade e a Igreja. Como filosofia política dominante, o liberalismo deve assumir ao menos parte da culpa pela atual decadência social.

Assim, trava-se um debate acalorado sobre o futuro do liberalismo. Os liberais clássicos redobram a aposta e insistem que o modelo está funcionando. Seria apenas uma questão de ajustar o sistema ou de manter sob controle os liberais “woke”, que, na verdade, nem sequer seriam liberais.

Rotulando os pós-liberais

Enquanto isso, todos aqueles que, de alguma forma, se opuseram ao liberalismo desde a Revolução Francesa (ou até antes) são agrupados sob o rótulo de “pós-liberais”. Esse universo diversificado abrange ultramontanos, santos do século XIX, papas e estudiosos, figuras medievais, membros da Action Française, nacionalistas, seguidores de Franco, conservadores nacionais, nacionalistas cristãos, populistas e integralistas católicos.

Esse agrupamento aleatório de pessoas é o alvo do livro Por que o pós-liberalismo fracassou (Why Postliberalism Failed). A obra procura enquadrar o debate e desacreditar o desafio pós-liberal à ordem liberal. Os autores James Patterson e Thomas Howes constroem uma vasta e complexa teia conspiratória, composta por figuras do passado e do presente que atacam a ordem liberal. Eles se concentram especialmente no pós-liberalismo católico.

Em vez de tentar deslindar as peculiares perspectivas históricas dos autores, basta dizer que o livro traz três grandes decepções.

Quem fez o pós-liberalismo fracassar

A primeira decepção diz respeito à incapacidade de reconhecer a gravidade da crise atual e de abordar a legitimidade de se questionarem certos princípios liberais.

O livro é uma refutação evidente de Por que o liberalismo fracassou, de Patrick Deneen. Essa obra apontou o efeito corrosivo de princípios liberais que minam os próprios fundamentos do liberalismo. Deneen mostrou como o individualismo excessivo do liberalismo atomiza as pessoas, como sua perspectiva secular exila Deus da esfera pública e como seu globalismo pode corroer a identidade cultural. Essas são críticas bastante tradicionais ao liberalismo em particular e à modernidade em geral, e estão abertas ao debate.

Por que o pós-liberalismo fracassou não aborda essas críticas; em vez disso, concentra-se em algumas das figuras que se opõem à ordem moderna. Ataca esses mensageiros, muitas vezes bizarros, e não a mensagem sobre aquilo que aflige a modernidade. Em seguida, os autores transformam essas figuras estranhas em porta-vozes de todos os que questionam a ordem liberal.

Teorias da conspiração

A segunda decepção diz respeito à falta de perspectiva histórica do livro, sobretudo no que se refere ao século XIX.

Os autores sofrem de uma obsessão por teorias da conspiração. Por exemplo, classificam como pós-liberais aqueles que eram pré-liberais. Assim, Bonifácio VIII (1235–1303!) é apresentado como integrante de um movimento pós-liberal.

Além disso, apresentam todos os que se opuseram ao liberalismo (incluindo papas) como figuras que reduziam sua luta à acusação de que uma conspiração judaico-maçônica era responsável por todos os males do século. Explicam que “os pensadores reacionários esperavam escamotear problemas muito reais do ancien régime [da França pré-revolucionária] recorrendo à conspiração judaico-maçônica”.

Ao denunciar uma teoria da conspiração, os autores constroem outra, pois qualquer referência passageira a uma figura ultramontana basta para envolver uma pessoa nessa teia de intrigas contra o liberalismo. Todo esforço legítimo para se opor aos ataques contra os direitos da Igreja é confundido com essa conspiração.

Um século de luta pelos direitos dos católicos

Os dramas políticos do século XIX não podem ser reduzidos a tais termos. Os católicos tiveram de lutar pelos direitos da Igreja. Naquele período, estava em curso uma intensa mobilização nos campos da religião, da cultura, da política e da sociedade, que a narrativa do livro não relata. Ela envolveu papas, elites, estadistas, teólogos, santos, membros da Academia Francesa e filósofos.

Houve, por exemplo, figuras ultramontanas como Daniel O’Connell e o cardeal Henry Edward Manning, que tiraram os católicos da Irlanda e da Inglaterra de sua existência confinada a guetos nas Ilhas Britânicas protestantes. Há pouco reconhecimento dos ataques brutais e anticlericais contra os bens da Igreja, do confisco injusto dos Estados Pontifícios e da supressão de instituições eclesiásticas, acontecimentos que exigiram e receberam uma resposta.

Além disso, os autores tratam as notáveis obras dos papas do século XIX contra o liberalismo e a maçonaria como meros documentos políticos, em vez de considerá-las parte do Magistério ordinário da Igreja, que os fiéis são chamados a acolher com assentimento religioso.

Leão XIII, por exemplo, escreveu a encíclica Humanum genus contra a maçonaria e a Libertas contra o liberalismo, advertindo sobre perigos muito reais, não sobre tramas imaginárias. Esses documentos não podem ser casualmente desconsiderados. E, no entanto, são. Em seu lugar, aparecem documentos do Concílio Vaticano II escolhidos a dedo, que os autores apresentam como os únicos dignos de ser seguidos.

A questão do judaísmo estava presente tanto na esquerda quanto na direita durante esse período, quando Marx, Proudhon e até G. K. Chesterton foram acusados de antissemitismo. Tropos e estereótipos antijudaicos estavam por toda parte. Se esse for o critério para julgar as figuras daquela época, pouquíssimas sairiam ilesas. Reduzir todos os que lutaram pelos direitos da Igreja a teóricos de uma conspiração judaico-maçônica é, de fato, decepcionante.

Narrativas de luta de classes

Ainda mais decepcionante é o fato de essa conspiração ser inserida em uma estrutura de luta de classes que sempre distorceu os fatos históricos.

Assim, a Revolução Protestante é apresentada como uma revolta contra uma hierarquia eclesiástica lamentavelmente decadente, e não como expressão de uma heresia horrível. A Revolução Francesa é vista como um choque espontâneo entre classes, e não como uma revolta igualitária contra a autoridade e a hierarquia, que, como os próprios autores admitem, desencadeou uma terrível perseguição contra a Igreja e a civilização cristã.

Esse ponto de vista transforma a história em um conflito de interesses particulares, em vez de princípios. Com efeito, os autores explicam que a Igreja condenou o liberalismo anticlerical posterior à Revolução Francesa não porque ele estivesse errado, mas porque isso constituía “um esforço desesperado da Igreja para impedir outra Revolução Francesa e proteger-se de futuros abusos por parte dos poderes temporais”.

Nenhuma dimensão espiritual

Tal perspectiva não admite um aspecto espiritual da história. O século XIX foi um período de renovado fervor religioso após o terror da Revolução Francesa. Foi repleto de novas congregações e de santos como São João Bosco, São João Maria Vianney, o Beato Pio IX, Santa Teresinha de Lisieux, São Pedro Julião Eymard e Santo Antônio Maria Claret.

Esses santos e outros tiveram um imenso impacto positivo nessa luta. Uma Contra-Revolução estava em curso, mas essas contribuições gloriosas não estão presentes nem são registradas na visão histórica desequilibrada do livro. Tampouco são tratadas as aparições da Santíssima Virgem em Lourdes e, mais tarde, em Fátima, que tiveram grandes implicações antiliberais.

A história da Cristandade é a história de seus santos, mártires e heróis. É uma narrativa de fervor e fracasso, conversão e conflito. Ela registra o triunfo da Igreja sobre as piores manifestações da natureza decaída.

As perspectivas seculares excluem Deus da história e negam os efeitos de Sua graça, que pode operar maravilhas e converter nações inteiras.

Regimes integralistas não são ideais nem católicos

A decepção final é que os autores apresentam os modelos pós-liberais do século XX, implementados em muitos países, como se fossem as soluções ideais para os católicos e para todos os que questionam o liberalismo. Em dado momento, perguntam: “Deve um católico considerar ideal um regime integralista?”

De fato, os autores demonstram de modo convincente que esses modelos pós-liberais do século XX fracassaram. Mostram que os pós-liberais atuais que seguem esses mesmos modelos também fracassarão. Contudo, tais propostas não são ideais nem católicas. Aqueles que enfrentam a crise atual devem rejeitá-las.

Chega de cruzadas sem Deus

Na maioria das vezes, os líderes desses movimentos citados eram ateus, como o francês Charles Maurras; oportunistas, como o brasileiro Plinio Salgado; ditadores carismáticos, como Benito Mussolini; ou homens fortes, como o argentino Juan Perón. Esses líderes viam a Igreja como um instrumento útil para promover seus próprios objetivos.

Nenhum deles queria um verdadeiro programa católico, como aquele inspirado pelo apelo de São Pio X para “restaurar todas as coisas em Cristo”. Nenhum apresentou um governo verdadeiramente católico como o de Garcia Moreno, no Equador.

Além disso, os atuais movimentos pós-liberais estão repletos daqueles que propõem o que o escritor europeu Tobias Cremer chama de “cruzadas sem Deus”, ricas em imagens cristãs, mas desprovidas de fé. Em suas fileiras, podem-se encontrar ateus, pagãos e “cristãos culturais”, muitos dos quais levam uma vida imoral.

O que os autores demonstram é que sistemas não católicos não podem produzir resultados católicos. Eles sempre fracassarão.

Não é de regimes assim que virá um verdadeiro renascimento católico. Do mesmo modo, a solução não é, como insinuam os autores, mais liberalismo.

A solução não se encontra no liberalismo nem no pós-liberalismo. Não está em modelos complicados nem em ideologias rígidas.

O que se faz necessário são as moções da graça de Deus, como aquelas que converteram o Império Romano e os povos bárbaros e, mais tarde, deram origem à sociedade cristã orgânica encontrada na Cristandade. O que falta são santos capazes de inspirar e motivar as pessoas a amar a Deus e praticar a virtude. Dessas conversões virá todo o resto. Com efeito, as palavras de Nosso Senhor oferecem a fórmula: “Buscai, pois, em primeiro lugar o reino de Deus e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas (Mt 6,33).”


Fonte: The American TFP — https://www.tfp.org/why-anti-postliberalism-also-fails

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