Um igualitarismo nada igual… e as desumanas interpretações dos “direitos humanos”

“Quando há vida, há esperança”, dizia Teócrito. A vida é o pressuposto, é o que vem primeiro, é a base do edifício social material. É um direito universal: basta ter corpo e alma para o receber. E nesse sentido é igual para todos, independentemente de avaliações feitas pelos já nascidos, inclusive sua mãe, seu pai, o médico, os aconselhadores sociais, etc.. Essa igualdade fundamental não é afetada por eventuais defeitos físicos dos pequeninos, como queria o nazismo, e querem alguns ‘”bem graduados” no Brasil, no caso dos anencéfalos e outros.

As cotas por “raça” também incidem na falta de igualdade dos igualitários. Os que dela se valerem, não agem como iguais aos similares, pois sob a roupagem de ajuda aos mais necessitados, serão os titulares de um privilégio. Porque esta espécie de discriminação? Mesmo entre os favorecidos, há críticas, porque essas cotas são humilhantes para eles. Se eles são iguais, qual a razão de serem tratados como menores de idade, que precisam de uma assistência especial para fazerem o que todos fazem?

Quanto à Comissão da Verdade, pretendendo que a verdade está apenas de um lado ‒ o lado dos esquerdistas ‒ também vai contra princípio de que todos são iguais. O diplomata Paulo Sérgio Pinheiro, um dos sete escolhidos para fazerem parte desse grupo , disse que: “nenhuma comissão da verdade teve ou tem essa bobagem de dois lados, de representantes dos perpetradores dos crimes e das vítimas. Isso não existe”. [1] Existe o “audietur et altera pars” ‒ ouça-se a outra parte ‒, que é um princípio antigo e consagrado  de Direito.

O caso do aborto é característico. O nascituro, para eles, é uma espécie de marginal. Para o qual não há direitos humanos. Estão fora da igualdade fundamental.

Vemos, então, um paradoxo, pois os esquerdistas ‒ e geralmente se trata deles ‒ pregam o igualitarismo apenas quando lhes convém. Quando a igualdade pode e deve ser defendida,  são furiosos anti-igualitários.

Faz lembrar uma poesia, sobre um gato que em jejum é socialista, mas quando come é conservador (Trilussa).  No nosso caso, quando se trata de luta de classes, a esquerda é de fato igualitária, mas quando está no Poder, ela é uma ferrenha inimiga das igualdades justas… Nada de vida humana,  propriedade,  justiça equânime.

O agronegócio e a lavoura são um longo assunto  e outra vez entra em jogo o problema da igualdade. Diz um produtor rural que o único país do mundo que não tem subsídio para agricultura, pecuária e abastecimento,  é o Brasil. Existem incentivos para automóveis, tijolos, cimentos, máquinas de lavar, etc. E, pergunta,  quem come esses produtos? São exemplos de igualitarismo antigualitário: igualitário quando não deve, antigualitário quando se trata de uma justa igualdade.

“Somos a favor do que o povo quer”, repetem sempre os esquerdistas, mas a maioria da população é contra o aborto, o casamento homossexual, a lei do desarmamento (como os resultados do plebiscito de 23 de outubro de 2005 mostraram), e tantas outras coisas. [2]

O que diz a doutrina católica desta problemática? Estampamos a seguir uma breve explanação de Plinio Corrêa de Oliveira, que já foi qualificado de “o teólogo das desigualdades sociais”:

 

“Os limites da desigualdade estão traçados na própria natureza humana. Isto é, por ser naturalmente inteligente e livre, o homem — todos os homens — têm uma dignidade comum que deles faz reis do Universo.[…] Debaixo desse ponto de vista todos os homens são iguais. E o que reduza, de qualquer maneira, no homem essa dignidade fundamental e nativa, essa igualdade natural e radical, o mutila, amesquinha e ofende.

“Mas sucede que, além dessas qualidades básicas, os homens são dotados de inúmeras outras, que variam entre si como que ao infinito, também pelo simples fato de serem homens. E assim, a própria igualdade natural e legítima costuma ser o ponto de partida de desigualdades legítimas, que estão, elas também, na ordem natural das coisas. Tão numerosas são elas, e tão diferentes, que seria interminável tentar

enumerá-las todas.”[3]

Fiquemos com o Papa  São Pio X que, condensando o ensinamento de Leão XIII, disse que no corpo social deve haver  ‘príncipes e vassalos, patrões e proletários, ricos e pobres, sábios e ignorantes, nobres e plebeus’ [4]. Ou seja,  o contrário da luta de classes que os igualitários ‒ os autênticos  ‒ pregam.


[1] O Estado de S. Paulo, sexta-feira, 11 de maio de 2012.

[2] Nesta data, o governo Lula levou a referendo um inciso do Estatuto do Desarmamento que proibia a comercialização de armas de fogo, com grande propaganda em favor de sua aprovação. Tal inciso, entretanto, foi derrotado nas urnas. O comparecimento foi de 78,15% dos eleitores e a proibição de comercialização foi derrotada por 63,94%  a 36,06%.

[3] Plinio Corrêa de Oliveira, discurso em Washington por ocasião do lançamento do livro Nobreza, Elites Tradicionais Análogas. Em 30-9-1993.

[4] Motu proprio Fin dalla prima de 18 de dezembro de 1903, item III – Coleção Documentos Pontifícios, Vozes, Petrópolis, 1959, 3ª  ed., vol. 38, p. 23.