São Luiz Gonzaga: obedecer a Deus antes que aos homens

0

(Continuação da leitura de trechos da excelente obra “Vida de San Luis Gonzaga, Patrono de la juventud”, P. Virgilio Cepari. S.J., Einsiedeln, Benziger & Co., Nueva-York/Cincinnati/Chicago, 1891):

[pp. 53-55]

No próprio dia foi ele falar com seu confessor (o Pe. jesuíta Ferdinando Paterno), o qual disse que parecia-lhe ser vocação de Deus, mas que para pôr em obra era precisa a licença do marquês, seu pai, sem a qual não poderia ser recebido.

Vídeo: https://www.pliniocorreadeoliveira.info/novidades.asp#.YM-b8xGSmMo

Os senhores estão vendo que é a vida de S. Luís Gonzaga, que continua a ser lida.

Foi então, no mesmo dia, Luís falar com a Sra. Marquesa, e manifestou-lhe suas intenções; e ela ficou tão contente que deu muitas graças a Deus, como Ana, a mãe de Samuel, e quis ser a primeira de cuja boca ouvisse o marquês a notícia. E foi isto bem necessário para aplacar a cólera e primeiros ímpetos. Depois, em diversas ocasiões, fez a marquesa este ofício, e como o marquês não sabia que ela desejava ter um filho religioso, atribuiu a diversas intenções, entre outros que ela tinha afeição pelo segundo filho, e desejava que ele herdasse os estados.

Estão vendo que era bem esperta essa marquesa. Esperta ao serviço do bem: não revelou ao marido que ela queria que seu filho ficasse jesuíta. Disfarçou, e com isso o marquês começou a ter outras idéias, como a de que queria favorecer o segundo filho, para o governo dos Estados que pertenciam a esse marquês, a fim de desviar a atenção do marido sobre seu filho mais velho e sua vocação religiosa, e ele poder entrar num convento. Ela era corajosa, pois sabia que o marquês não era biscoito. Ela reivindicou para si a honra de ser a primeira a dar a notícia, ou seja, escorar no peito a primeira raiva do marquês.

Mais tarde foi Luís pessoalmente, com a maior humildade e reverência que pôde, e disse ao marquês que ele estava resolvido, e que haveria de ser religioso.

Notem o contraste: “Foi Luís pessoalmente com a maior humildade e reverência que pôde”, e “disse que estava resolvido”. Quer dizer, respeitoso ao extremo, mas estava resolvido e não adiantava vir com histórias: ia fazer mesmo. Era maior de idade, e dispõe de si; o pai que se arranje. O resto são amabilidades e reverências necessárias e louváveis. Ele vai atender à vocação de Deus, porque “é preciso obedecer a Deus antes que aos homens”. E acabou-se.

Ficou o marquês como de fogo ouvindo isto, e com ásperas palavras expulsou-o de sua presença, ameaçando-lhe que o faria despir e açoitar e em carne viva…

Não conheço um caso de recusa de um pai para seu filho, no caso deste querer entrar para a TFP, que tenha chegado ao açoite nu e em carne viva. Isso teve S. Luís Gonzaga que enfrentar.

…e respondeu Luís: “Fosse do agrado de Deus, meu Senhor, que eu merecesse padecer algo por seu amor”. Ficou o marquês com incrível ira, e depois de alguns dias em que não pode descansar nem repousar, mandou chamar o confessor e fez com ele grandes queixas de ter colocado tais coisas na cabeça de seu filho, em quem ele depositava todas as esperanças de sua casa.

Ele via que seu filho era muito inteligente, capaz e virtuoso. Era esse um defeito de muitas famílias antigas: quando tinham um filho menos inteligente destinavam-no à vida sacerdotal; a filha feiarrona, que não conseguia encontrar casamento, ia ser freira. Os filhos capazes eram os escolhidos para continuar a família. Era uma forma de dar a Deus o lixo, e ficar para si com o melhor. Assim não se trata Nossa Senhora!

E o padre respondeu que há pouco soubera da notícia, por ter sido informado por Luís de sua resolução.

[p. 56]

Começou a suspeitar o marquês se não seria uma manha de seu filho para afastá-lo do jogo, a que era muito afeiçoado, e no qual já perdera milhares de escudos, e na própria tarde em que Luís falou com ele acabara de perder seis mil escudos. Mas à vista da perseverança de Luís, que cada dia pedia licença para por em obra suas intenções, protestando que só o movia o desejo de servir a Deus, veio a pensar que de fato seria uma inspiração divina.

Confirmou-lhe isto o testemunho do Revº. Pe. Frei Francisco Gonzaga, Geral dos Franciscanos, e seu parente, quando se encontrava visitando as províncias da Espanha, o qual, tendo examinado a Luís por duas largas horas, ficou tão satisfeito que disse ao Marquês que por nenhum caminho se poderia duvidar que aquela vocação fosse de Deus.

[pp. 57-58]

Tendo ido um dia visitar o colégio da companhia Luís, com seu irmão Rodolfo, disse no fim aos que o acompanhavam que poderiam voltar a casa, que ele não mais queria voltar, mas ficar lá.

Acabou-se! Acabou-se! Muito respeito… Mas é preciso obedecer a Deus antes que aos homens: portanto, não saio mais daqui! Foi com jeito. Não disse até logo, em casa, para o pai, nada disso. Ele pretextou uma visita ao colégio (dos jesuítas), e depois ficou lá. Disse: “Não, vocês vão-se embora, e eu vou ficar aqui!” O pai, se quiser, que venha cá – está dado a entender isso. Assim fazem os homens fortes.

Há um modo errado de conceber o homem forte que é o de ele ser tonitruante: como um trovão e relâmpagos. Às vezes é, outras não: é jeitoso e macio, mas chega onde deve chegar. O que é ser homem forte? É o homem que obedece à vontade de Deus, e segue todos os meios lícitos para fazê-la. Esse é um homem forte. O resto é conversa.

Eles, depois de ter porfiado um bom tempo, tiveram de voltar sozinhos, e contar o fato ao marquês que estava de cama, o qual enviou vários mensageiros para fazê-lo retornar, e só conseguiram isto quando argumentaram que era um menoscabo da autoridade paterna fazer isso sem licença, e o escândalo que daria; e assim Luís achou que era o caso de voltar.

Falou pois o marquês com o Pe. Geral dos Franciscanos, seu parente, para que vendo a perda que faria à família e o Estado, em perder um filho que tão cristãmente poderia governar os vassalos, se encarregasse de dissuadir a Luís de deixar o século, pois no governo dos estados poderia fazer muito serviço a Nosso Senhor. Respondeu o Pe. Geral que ele não poderia cumprir tal encargo com boa consciência.

Instou de novo o marquês para que, ao menos, dilatasse a entrada até a volta à Itália, e que ele dava palavra de que lá daria a licença. Lembrou-se então o Pe. Geral que quando de sua entrada em religião os parentes fizeram o mesmo com ele, com intenção de, com o tempo, fazê-lo dissuadir do intento, mas ele não tendo querido consentir entrou num convento da Ordem na própria Espanha; e assim, não disse ao marquês que faria.

Mas foi ter com Luís e contou toda a conversa com o marquês, e acrescentou: “Eu teria escrúpulo em fazer este pedido, por muito que o marquês prometa que dará a licença chegando na Itália”.

Mas Luís, pensando que o marquês cumpriria a promessa, respondeu ao Pe. Geral que com gosto daria esse prazer a seu pai, pois não encontrava perigo, pois já tinha pesado tudo o que podia acontecer, e com a graça de Deus achava-se tão firme nos seus propósitos que não temia mudança neles.

E assim ficaram todos de acordo.

[pp. 60-61]

Chegaram, pois, à Itália no mês de julho do mesmo ano, e tinha Luís dez e seis anos e quatro meses.

Esperava ele que seu pai daria logo a licença, e começou a lembrá-lo cada dia. O Marquês escusou-se dizendo que era forçoso antes fizesse ele com seu irmão Rodolfo as visitas de cortesia às cortes da Itália, e isto fazia com a intenção de ver se, entretanto, ele esqueceria e entibiaria de aqueles desejos. Mas Luís, pôs-se a caminho com seu irmão e uma grande comitiva, e visitou todos os senhores da Itália.

Estando em Turim, no Palácio do Ilmº. Sr. Jerômino de la Róvere, com vários cavaleiros jovens, estava entre eles um cavaleiro de sessenta anos, e começou este a introduzir algumas conversas menos honestas.

Logo o velho, heim!

Indignado, voltou-se contra ele Luís e disse-lhe: “Não fica envergonhado um velho, da categoria de Vossa Senhoria, de tratar estas coisas com estes cavaleiros moços aqui presentes? Este é um gravíssimo escândalo e mau exemplo, porque, como disse São Paulo: Corrumpunt bonos mores colloquis prava. E isto dito, pegou um livro e saiu para outra sala.

[pp. 62-65]

Concluídas as visitas, voltou a Castiglione, mas seu pai ainda não quis dar-lhe a licença, com a esperança que passada a juventude esquecesse estes desejos. Obteve o marquês do duque de Mântua que enviasse um bispo muito eloquente dizer, da parte do duque, que se acaso não gostava de ficar leigo, fica-se homem de igreja, que poderia servir melhor em coisas da maior glória de Deus e bem do próximo, do que estando numa religião; e não faltavam exemplo de homens santos, como o Cardeal Carlos Borromeo e outros.

Ficar padre secular e não membro de uma ordem religiosa.

E insistiu o bispo várias vezes e com diversos argumentos.

E respondia Luís que agradecia a preocupação do duque mas que exatamente ele escolhera a Companhia, porque nela não poderia aceitar nenhuma dignidade, e que não pretendia outro gênero de vida.

Veio também uma pessoa da família argumentar que, se queria deixar o mundo, não entrasse na Companhia que ficava perto dele, mas fosse entrar nos Cartuxos ou outra ordem distante. E fazia isto com a intenção de, se ele mudasse de ordem religiosa, arguir de inconstante, e por dolo no resto da vocação. Mas respondeu Luís que ele não sabia fugir do mundo a não ser entrando na Companhia.

E foram várias as pessoas, religiosos e prelados que o marquês mandou falar com Luís para tentar dissuadi-lo.

Os senhores veem aí a decadência religiosa da época: o marquês encontra uma série de eclesiásticos, que vão fazer a obra do demônio junto a S. Luís. É muito característico isso: um vai aconselhar S. Luís a entrar numa ordem severíssima, se não me engano dos cartuxos e dos camaldulenses. São contemplativos no rigor do termo. Por que o marquês poderia preferir que ele ficasse cartuxo ou camaldulense do que jesuíta? era que os jesuítas estavam na ponta da Contra-Revolução. E naturalmente ele ter um filho assim, teria inimigos. Se entrasse para uma cartuxa ou para outra ordem semelhante, ficaria trancado lá, que bonito, acabou: ao menos esse espantalho sairia de diante de seus olhos.

Um deles, Pe. Panigarola, não se atreveu a negar o pedido que fez o marquês, e depois comentou: “Obrigaram-me a fazer com este mancebo ofício de demônio, e já que tinha de fazê-lo, fiz o melhor que soube, mas não adiantou nada, pois ele estava tão forte que não havia como entrar”.

[pp. 65-68]

Pensou, assim, o marquês que estaria mais amolecido o filho, e o mandou chamar, e perguntou-lhe o que pensava fazer. Respondeu Luís que pensava o que antes havia pensado, de servir a Nosso Senhor na religião que dissera.

Religião, naquele tempo, queria significar ordem religiosa.

Encolerizou-se o marquês, e com rosto irado e palavras pesadas expulsou-o da sala, mandando que sumisse de sua vista. Tomou Luís estas palavras por uma ordem, e foi-se a um convento que está a uma milha de Castiglioni, junto a uma laguna, e mandou levar os móveis e pertences de seu quarto, e ali começou a levar vida recolhida. E ninguém atreveu-se a dizer isto ao marquês, que continuava de cama atacado gota.

Quando, depois de vários dias, disseram o que aconteceu, ele mandou chamar de novo, e inquiriu-lhe que porque fizera tal, e Luís respondeu que só estava cumprindo seu mandato, e então mandou o ficar trancado no quarto. Respondeu Luís: “Vou só pela obediência”. Entrando nele, trancou a porta tirou a camisa e começou a tomar uma larga disciplina. Nisto o marquês, no qual lutavam o amor de pai com a consciência, temendo ter provocado amargura com suas palavras, passada a cólera, mandou chamar ao governador do lugar, e que fosse ver o que fazia Luís.

Foi o governador e achou um criado na porta que contou como Luís tinha-se trancado e não queria que ninguém entrasse, mas o governador chegou até a porta e com a adaga abriu um buraquinho nas fendas da madeira, e então viu a Luís ajoelhado diante de um crucifixo, chorando e disciplinando-se fortemente.

Movido de compaixão, voltou ao marquês com lágrimas nos olhos, pedindo para que não estorvasse mais os intentos de Luís, e chorando contou tudo o que vira, e com tanto espanto que o marquês não acabava de acreditar.

No dia seguinte, à mesma hora, mandou o marquês que o levassem numa cadeira até os aposentos de Luís, e ficou à espreita pelo buraco da porta, e viu-o do mesmo modo, disciplinando se e chorando. E ficou um bom tempo fora de si, que não sabia o que fazer, e dissimulando, mandou chamar à marquesa, e batendo na porta entraram os dois e acharam o chão manchado do sangue da disciplina, e Luís tão banhado em lágrimas como se tivessem jogado água encima. E assim resolveu dar a licença que pedia, e enviou um emissário a Roma para oferecer seu primogênito ao geral da Companhia, Pe. Claudio Aquaviva, e ao Imperador para tratar da renúncia dos estados.

[pp. 69-]

Esperando as licenças piorou o Marquês da gota e foi preciso tratar dos negócios do governo em Milão, e mandou a Luís em cuja prudência e juízo fiava. E foi Luís cumprir a obediência, e ficou em Milão oito ou nove meses tratando negócios dificultosos com tanta diligência que no fim saíram como o marquês desejava.

[pp. 73-75]

Tinha respondido o Pe. Aquaviva que achava melhor que entrasse Luís no seminário de Roma, e chegou também a licença do imperador para renunciar ao Estado. Luís estava com dezessete anos, quando levantou-se outra tormenta.

Determinou o pai ir pessoalmente a Milão, para uma última tentativa, e chamando seu filho perguntou quais eram suas intenções, e achou Luís tão firme quanto antes. Mostrou então cólera, mas voltando-se com brandura disse não ser tão mal cristão que quisesse se opor à vontade de Deus, mas que o amor aos pais, que tanto manda Deus, e outros assuntos de suas obrigações certamente obrigariam a não tomar esse estado, e mostrou-lhe todas as qualidades que Deus lhe dera para o governo dos estados, e a firmeza e determinação na vocação, apesar de viver no mundo, e que isso mostrava que não haveria para ele perigo de viver no mundo como religioso, e não só ser assim bom para com Deus, mas também bom para com seus vassalos.

Lembrou-lhe o bom conceito que os súditos tinham dele, e o amor e respeito que lhe cobraram, e a estima que tinham por ele os príncipes, e como os tinha conquistado a todos com seu trato cortês e afável; e que seu irmão Rodolfo, em favor de quem iria renunciar, por ser muito vivo, e pela falta de experiência e idade não era tão apto para o governo.

E que olhasse, finalmente, a que ele, seu pai, estava doente, e continuamente com gota, sem poder mexer da cama, e precisando de alguém que o aliviasse das cargas do governo. E que certamente se Luís entrasse religioso nasceriam para ele dificuldades que não poderia resolver, e acabaria morrendo de ocupações, de doenças e de pesar. E começou a chorar, misturando palavras de dor e ternura.

Escutou tudo Luís agradecendo o afeto que lhe mostrava, mas respondeu que todas as razões já tinha pesado muito devagar, e via que a obrigação que tinha era de atender a Deus, que o chamava; e que se não fosse o chamado de Deus, era sem razão não dar gosto a seu pai, mas que ele não entrava em religião para fazer vontade própria, mas por obedecer a Deus, que o chamava; e que o próprio Senhor ordenaria as coisas para bem e proveito da casa e do Estado.

Então pediu o marquês a várias pessoas, religiosos e leigos, que examinassem novamente a Luís, para persuadi-lo de que o maior serviço de Deus seria atender ao governo dos Estados.

Os senhores estão vendo: é uma guerra!

E assim foi feito, e todos ficaram admirados e asseguraram ao marquês que a vocação era de Deus, acrescentando mil coisas em louvor de seu filho.

[pp. 75 -]

Finalmente, o marquês fez-se levar em cadeira até a casa professa da Companhia, e mandando chamar certo padre que tinha muita renomada na cidade, explicou-lhe que era duro perder o primogênito, e logo tal primogênito, e queria pedir-lhe o seu conselho, rogando que examinasse Luís na sua presença, sobre a vocação, e propusesse o mais viva e eficazmente que pudesse as razões contrárias; e se isto fosse feito, ele dava sua palavra de fazer tudo o possível para se aquietar.

Aceito, o padre ficou uma hora inteira sondando Luís com muita seriedade, e dando os argumentos mais fortes que podia para provar o espírito, e ver se a vocação era boa ou não; e em particular apresentou-lhe tais e tantas dificuldades da Companhia como jamais se pusera a ninguém antes de entrar; e ele falava tão convicto que parecia não havia outra saída senão a de não entrar na Companhia; e Luís (como ele me contou depois) começou a suspeitar que falava verdade. Mas como tinha muito boa opinião desse padre ficou pensativo durante um tempo, porque nunca ninguém tratara dessa forma naquela matéria tão ex propriis, como ele.

Mas, contudo, respondeu com tanto senhorio e desfez os argumentos e dúvidas com raciocínios e com citações da Sagrada Escritura e dos Doutores, de sorte que o padre ficou não só edificado, mas espantado de o ver tão bem fundamentado na sua vocação.

E no fim, maravilhado, o padre exclamou: “Sr. D. Luís, V.S. Ilmª tem muita razão; a verdade é tudo quanto disse, não se pode duvidar; eu fico muito satisfeito e edificado”. O que consolou não pouco a Luís, por ver que o padre não tinha falado com convicção, mas só para prová-lo.

E o marquês confessou que ficava convencido de que aquela era uma grande vocação de Deus, e logo começou a contar a grande santidade com que Luís vivera desde menino, e disse que ele não queria mais impedir, mas que em boa hora entrasse religioso.

E voltou a Castiglioni, e deixou ordenado que concluindo Luís certo negócio, voltasse para fazer a renúncia da primogenitura.

Antes de empreender viagem, escreveu Luís uma carta ao Geral da Companhia narrando todas as suas aflições, e pedindo conselhos para o futuro, solicitando licença para, caso tentassem de novo impedir ou adiar a entrada em religião, pudesse ele fugir a uma casa da Companhia, pois que ficara provada como era verdadeira e boa sua vocação.

Não quis o Padre Geral romper com o Marquês, e respondeu que podia sempre procurá-lo por todos os meios, porque certamente isso era a maior glória de Deus, o seu bem particular e o de toda a Companhia.

Aceitou Luís o parecer, mas antes de voltar a Castiglioni esteve em Mântua, onde, para confirmar-se na vocação e se armar contra os assaltos que temia, quis fazer os Exercícios Espirituais de Santo Inácio num colégio da Companhia. (pp. 76-77)

Resolvido o espinhoso assunto da renúncia à primogenitura chegou a Roma, hospedando-se em casa do Patriarca Gonzaga. Tendo descansado foi à Casa da Companhia, à procura do Pe. General, Claudio Aquaviva. O Padre desceu até o jardim para recebê-lo, e Luís prosternou-se a seus pés, pedindo-lhe que o recebesse por filho e súdito, e isto com tanta humildade e devoção, que não podiam levantá-lo do chão.

Mais tarde foi visitar vários cardeais, e todos o receberam com muita honra e instaram para que se hospedasse em seus palácios. Nesta ocasião entregou Luís ao padre Geral a seguinte carta de seu pai, D. Ferrante, Marquês de Gonzaga:

“Ilustríssimo e reverendíssimo senhor meu osservantissimo.

Bem que até agora tenha julgado conveniente atrasar a licença para que meu filho, D. Luís, entre nessa santa religião, por temor de alguma inconstância em razão de sua pouca idade, no entanto, agora, parecendo-me poder assegurar que ele está sendo chamado por Nosso Senhor, não só não quero distraí-lo, ou diferir mais longamente a licença, que tão insistentemente tem-me sido pedida; mas, pelo contrário, para satisfazê-lo, com o ânimo muito tranquilo e consolado o mando a V.S. Reverendíssima, como a quem lhe será pai mais útil do que eu. Eu não chamo a atenção sobre nenhum particular de sua pessoa, tão somente certifico a V.S. Reverendíssima que é o mais caro bem que eu tinha no mundo, e a principal esperança que tinha na conservação de esta minha casa, a qual, para o futuro, terá grande confiança nas orações deste meu filho e de V.S. Reverendíssima, a cujas boas graças me encomendo… Il Príncipe Marchese de Castiglione (p. 356)

Viu-se o grande domínio que tinha sobre si mesmo quando morreu o Marquês seu pai, dois meses e meio depois de começado o noviciado; não lhe causou mais impressão que se não fosse com ele. Nesta ocasião foi-lhe dito que escrevesse a sua mãe para consolá-la, e ele começou a carta dizendo que dava graças a Deus, pois em adiante poderia dizer mais livremente: “Pai nosso que estais nos céus”.

Este é um santo!

Isto causou admiração em todos os que o conheciam, pois sabiam a reverência e o grande amor que ele sempre tivera por seu pai; tal era, que ele comentava que deixando de lado a salvação, aqui nesta terra não havia coisa que mais amasse. O próprio Luís disse que se olhasse a morte de seu pai com olhos naturais, senti-lo-ia muito, mas vendo que vinha da mão de Deus não achava que devesse ter pena, pois sabia que era do gosto de Deus. O viver inteiramente dependente do gosto de Deus fazia-o superior a todas as alterações e acontecimentos humanos.

Neste fato ficou mais uma vez patente o grande amor que Deus lhe tinha e a particular Providência com que velava por ele, pois se o Marquês tivesse morrido dois ou três meses antes, haveria grande risco que o Padre Geral não o quisesse receber na Companhia, para não privar àquela Casa de pessoa tão a propósito para governo. E por isso arranjou Deus as coisas de forma que primeiro entrasse na Companhia, e quando estava a salvo, quis levar seu pai.

Ainda mais manifestou-se a Providência especial de Deus nesta morte, pois o Marquês sempre fora um cavaleiro muito dado a pretensões de honrarias e grandezas mundanas, para si, para seus filhos e para sua Casa, e com motivo da entrada de Luís em Religião fez tal mudança de vida que deixou totalmente o jogo, ao qual tinha tanta inclinação, e todas as noites mandava que trouxessem diante da cama um crucifixo que Luís deixara e rezava os sete salmos penitenciais e as Ladainhas. E mandava que viessem a Marquesa e seus filhos, e tomando o crucifixo na mão, golpeava-se o peito e dizia: “Senhor, misericórdia: pequei, Senhor, tende misericórdia de mim”. E espantado ele próprio da ternura que sentia e das lágrimas que derramava, acrescentava: “Bem sei de onde vem estas lágrimas, tudo é efeito de Luís; Luís alcançou-me de Deus esta dor e este arrependimento de meus pecados”. (pp. 106-107)

Vejam o qual é o problema da profundidade do pecado. O mundo hoje está cheio de jogadores, em toda a parte. Os senhores não acham dificílimo que um deles morra nessas condições. É quase impensável. O marquês, não. É claro que contribuía, e em muito, para isso o mérito de S. Luís Gonzaga. Também é verdade que esse homem tinha restos de boas resoluções, tradições e não estava tão gangrenado pela Revolução como estão os de hoje. Resultado: era capaz de um arrependimento sério, profundo, até edificante, depois de ter feito uma oposição a mais tremenda possível à vocação do filho, e morreu na graça de Deus. É uma bonita morte, a do marquês.

Antes de completar seus estudos de teologia, faleceu aos 23 anos de uma doença contagiosa.

[Falecido Luís] obtiveram em Mântua a faculdade de expor à pública veneração uma relíquia dele, na igreja paroquial de S. Nazário e Celso. Os mesmos que assistiram à despedida do príncipe, vinham agora venerá-lo como morador do céu. Na igreja cheia de fiéis, estava ajoelhada uma matrona com muita devoção perto do altar. Era Da. Marta, mãe de Luís, que tinha a dita de venerar o fruto de suas entranhas.

É uma cena linda e comovedora: a mãe prestando culto ao próprio filho.

No sermão, o P. Silvestre Ugoletti, dominicano, nascido em Castiglione, tomando para comentar as palavras do Apocalipse (III, 12): Qui vicerit faciam illum columnam in templo Dei mei, et foras non egredietur amplius, et scribam super eum nomen Dei mei, et nomen meum novum, descreveu com santo entusiasmo a gloriosa vitória que Luís havia conseguido sobre o mundo, o demônio e a carne; e voltando-se para Dª Marta, disse-lhe: “ Mãe afortunada, cujo filho está no céu com a fronte coroada de imortalidade. Que rainha ou imperatriz poderás invejar a sorte de ter descendência mais ilustre? Quantas mães choram de alegria vendo seus filhos com uma coroa de ouro, ou de louros, na fronte, levados em carros de triunfo como semi-deuses, e talvez amanhã o chorarão ainda mais ao contemplá-los mortos, levados ao sepulcro? Mas tu, que vês triunfar a teu próprio filho no céu, a fronte aureolada com o oiro puríssimo do amor, e selado com o nome santíssimo de Jesus, razões tens para derramar lágrimas de alegria sem temor de que se convertam em lágrimas de tristeza, porque absterget Deus omnem lacrymam ab oculis Sanctorum (pp. 284-285).

Tomou maior auge a devoção dos fiéis quanto em Maio de 1605 Paulo V permitiu colocar no sepulcro de Luís sua imagem com auréola.

O 21 de junho [aniversário do falecimento], na igreja do Colégio Romano foi colocada esta frase:

“B. Aloysio Gonzagae, Sacri Imperii Principi, Marchoni Castellionis, e Societate Jesu, qui generis nobilitatem auxit gloria meritorum, santorum gloriam vitae sanctitate aequavit, multorum sanctitatem summa innocentia superavit, ambae Humanitatis Classe, Legati caesarei nomine, posuerunt.”

As festas religiosas duraram oito dias, com Missas de ação de graças e pedindo a exaltação do servo de Deus. Depois houve ainda mais oito dias de conferências literárias no Colégio Romano sobre as glórias do antigo aluno.

A 26 de setembro desse ano, Paulo V publicou o Breve de beatificação.

Diversos tinham sido os pedidos de beatificação. O primeiro foi o apresentado pelo Cardeal Dietrischstein, em 21 de maio de 1605. […].

O Imperador Rodolfo escreveu desde Praga ao Sumo Pontífice, em 15 de outubro de 1605, e além de fazer a lembrança “da pura, piedosa, santa e mortificada vida de Luís”, acrescentava esta razão: que “era Príncipe do Sacro Romano Império, e parente seu, e tinha dado a todos tão preclaro exemplo de desprezar o mundo”.

Os senhores vejam como os tempos mudaram: o mais alto personagem temporal da Cristandade, naquele tempo, era o imperador do Sacro Império, que se interessava pela canonização ou beatificação de uma pessoa. Escrevia direitamente ao papa, intervindo como filho primogênito, em certo sentido da palavra, da Igreja para a beatificação do servo de Deus. Hoje em dia, governos laicos. Para este nada disso vale, não lhes interessa; se não forem governos perseguidores, que proíbem etc.

A Infanta Margarida de Áustria, irmão do Imperador, assegurava, na sua súplica, que Luís, desde a idade de doze anos, já era tido por santo. (pp. 286-289). 

* Comentários sobre a fisionomia de S. Luís

Meus caros, o comentário já foi feito, ao longo das páginas.

Vai ser agora distribuído um santinho que reproduz exatamente a figura de S. Luís aqui. Quando estiver distribuído, comentaremos um pouco a sua fisionomia dele.

Quais são os que conseguir ver à distância esta figura? Um certo número. Vou daqui a pouco fazer um comentário, porque é uma outra figura de S. Luís em menino, pintado em vida dele, e muito sugestiva do que ele foi depois. Aliás, talvez mais valesse a pena vê-lo primeiro como menino, para depois vê-lo como homem maduro.

O quadro dá uma impressão contraditória na aparência, mas muito agradável de se ver. É um menino de doze anos. Vê-se que é tem um organismo débil de um menino que está começando a expandir, a tomar força, mas, ao mesmo tempo, com uma qualquer coisa de inocência, impregnada profundamente na sua pessoa, com uma resolução e força de vontade que se nota pela posição do pescoço e da cabeça. A atitude não é propriamente arrogante, mas a de quem sabe o que quer, e fará o que acha que deve fazer.

Toda a confrontação dele com o marquês já está anunciada nesse jeito: consciência inquebrantável do dever; ele fará o que for seu dever; a vontade de Deus ele a cumprirá. Nesse sentido é a continuação nos tempos modernos do guerreiro da Idade Média. Se fosse convocado para a Cruzada, não faria outra coisa senão tomar uma espada e matar mouros.

Agora têm a fotografia dele já moço feito. Deve ser pouco antes de entrar na ordem religiosa. Vamos analisar um pouco a figura dele. Naturalmente, encorpou muito, dir-se-ia até que tende a ser um pouco gordo. Tomem o peito, a sua estatura inteira: ele é cheio de corpo. Notem que seu rosto também não é de um magro, mas com uma carnatura conveniente, adequada.

Observem, antes de tudo, a postura de extrema tranquilidade dele. Está cingindo uma espada grande. Porém, apoia-se sobre ela, com uma serenidade de quem está inteiramente seguro de sua própria consciência, sossegado e que não tem torcida, frenesi, nada. É um homem que caminha plácida e firmemente para o Céu. 

* O rosto de um grande batalhador

Analisemos a figura.

O rosto tem alguns traços que denotam, apesar de tudo, uma firmeza extraordinária. Digo apesar de tudo, porque ainda é muito jovem. A primeira coisa a observar é o olhar. É plácido, até afetuoso, pacífico, de uma pessoa que gosta de viver bem com os outros. Ao mesmo tempo que denota isso, tem uma fixidez e limpidez de quem diz: “o que eu vi, vi; o que é, é; e o que tem que ser, tem que ser; ninguém me abala em nada!”

Devem perceber que é um olhar de quem não se deixa atemorizar por nada. Olharia um dragão com essa mesma naturalidade estampada na gravura, confiante em Deus e Nossa Senhora, e resolvido a qualquer batalha e dificuldade.

Vamos ver as sobrancelhas. São muito delicadamente arqueadas, mas de um traçado muito coerente, bem desenhado e lógico. Cada uma é um par inteiramente adequada da outra. Mas o modo de estarem arregaladonas, assim, indica também, por assim dizer, agarram o olhar. É ali! A força de vontade mais uma vez está presente.

É interessante o nariz, que, salva a reverência, qualifico-o de feio e até feíssimo: grande demais para o rosto. Depois, um desses narizes que parecem feitos de vários projetos malsucedidos de narizes. Há um primeiro lance de nariz que vem das nascentes ou base, até mais ou meio aqui (meio do nariz); depois há um outro projeto; e, por fim, o resultado que não é confirmado por nenhum dos projetos anteriores. Um nariz que se projeta tanto, que é quase inclinado, formando quase um telhado sobre os beiços.

Examinando o nariz, notam que tem qualquer coisa de um bico de ave de rapina, forte, não cede, está na linha das sobrancelhas, do olhar e do resto. Homem doce e forte: homem de Deus.

Notam um ligeiro buço que começa a delinear-se no lábio superior; e depois os lábios e o queijo não chamando mais especialmente a atenção. O conjunto do rosto dá ideia de uma resolução inabalável. Um homem certo naquilo que ele pensa; certo no que quer; e que fará calma, fria e implacavelmente o verum, bonum e pulchrum que Deus pede dele.

Em suma, o rosto de um grande batalhador! É a impressão que este grande santo me dá.

Deixe uma resposta