Xamanismo e Cocaína

    Evo MoralesEvo Morales, presidente da Bolívia, participa de cerimônia xamanista na qual um “sábio”, Valentín Mejillones, entrega um bastão de mando ao líder cocaleiro e coloca sobre sua cabeça um chapéu inca de quatro bicos, empossando-o como guia espiritual da nação.

    Curiosa esta posse como “guia espiritual da nação” de um Presidente da República de um Estado laico. Os laicistas de plantão, é claro, silenciaram. Mas as curiosidades não param por aqui.

    Prisão do xamã e assessor de Morales

    O xamã Mejillones alardeia a capacidade de prever o futuro das pessoas, observando como as folhas de coca caem sobre uma manta colorida.

    Foi em nome de semelhantes “práticas ancestrais” ligadas à folha de coca que Evo Morales, um líder cocaleiro, se elegeu em 2005, defendendo a expansão do cultivo da mesma para mascar, preparar chás e fabricar remédios e cosméticos.

    Entretanto, as curiosidades (para designá-las de modo ameno) ainda não se encerram aqui.

    Os meios de comunicação esta semana anunciaram a prisão do xamã Valentín Mejillones, um dos mais importantes assessores do presidente Evo Morales, por posse de 350 kg de cocaína líquida que seria transformada em pasta de coca (cerca de 240 kg) e alimentaria o tráfico.

    É claro que Mejillones adotou a tática do “eu não sabia de nada” e “fui enganado”, tão conhecida dos brasileiros. Mas as coisas ficaram muito difíceis para ele e sua prisão foi efetivada.

    A prisão de Valentín Mejillones levanta o véu sobre o conjunto do projeto das esquerdas para a Bolívia e, mais largamente, para a América Latina.

    Intervencionismo brasileiro na Bolívia

    Evo Morales, em 2003, foi um dos principais líderes das agitações de rua promovidas pelos “movimentos sociais” (apoiados externamente por Chávez) contra o Presidente Sánchez de Lozada. Este acabou por ser forçado a renunciar.

    A mão intervencionista do Presidente Lula não foi alheia a esse fato. Lula enviou seu assessor Marco Aurélio Garcia (agente do Foro de S. Paulo), para “convencer” Sánchez de Lozada a abandonar a presidência, acenando com um banho de sangue para o país caso ele resistisse. Aliás, foi Marco Aurélio Garcia quem anunciou a renúncia do presidente.

    Assumiu então o poder Carlos Mesa, vice-presidente, mas a partir de janeiro de 2005 novas agitações promovidas pelos “movimentos sociais” tomaram conta da Bolívia levando à renúncia de Mesa, em junho.

    No final do ano de 2005, Evo Morales, líder cocaleiro e líder do Movimiento al socialismo (MAS) ganhava as eleições.

    Eleição de Morales, um “sonho”

    Lula jamais fez qualquer censura à desestabilização das instituições promovida por Evo Morales. E, mais ainda, declarou ser um “sonho” a possibilidade de Morales vir a ser presidente do país vizinho.

    Após a posse do líder cocaleiro, no programa Café com o Presidente (23.jan.2006) Lula se disse feliz “porque a América Latina está dando uma demonstração de avanço”; e afirmou estar interessado “em contribuir, em ajudar para que a experiência da eleição do Evo Morales seja uma experiência rica, seja uma experiência exitosa”.

    De fato, o que o Presidente brasileiro mais tem feito, junto com sua diplomacia “companheira”, é colaborar ativamente com a “experiência exitosa” de Evo Morales, mesmo quando isso implicou na grave violação de direitos do Brasil pelo aliado ideológico.

    No dia 1º de maio de 2006, Evo Morales determinou que elementos do Exército ocupassem dependências da Petrobrás e ali anunciou o decreto supremo que determinava a “nacionalização da exploração do gás e do petróleo no país”. Para espanto de muitos, o Presidente Lula considerou a violência perpetrada pelo governo boliviano como um legítimo ato de soberania.

    O choque provocado no País pela agressão aos interesses nacionais perpetrada por Evo Morales e pela subserviência de Lula, foram consideradas por Marco Aurélio Garcia “um discurso conservador e preconceituoso”!

    Estes fatos seriam já de si suficientemente reveladores de qual o “sonho” que, para o lulo-petismo, constituía a ascensão ao poder de Evo Morales; no fundo, a reedição do socialo-comunismo, numa “integração” latino-americana, o famoso “socialismo do século XXI”.

    O incentivo ao tráfico de drogas

    Mas um outro aspecto, sumamente grave, se relaciona mais diretamente com o tema deste post.

    Cocaleros reunidos no interior de La Paz
    Cocaleros reunidos no interior de La Paz

    Um dos grandes temores em relação à nova realidade política na Bolívia era a de que Evo Morales passasse a incentivar o plantio da coca, não apenas para seus usos “tradicionais”, mas para alimentar o tráfico de drogas.

    Os temores se tornaram realidade. E hoje está claro que faz parte da “experiência exitosa” de Evo Morales, a transformação da Bolívia em grande produtor de cocaína e fomentador do narcotráfico. O Brasil é grande vítima desse “êxito”.

    Após a eleição de Evo Morales, a Bolívia passou a produzir pó de cocaína, com a colaboração dos cartéis colombianos; a produção de cocaína e pasta de coca cresceu 41% e a quantidade de cocaína que entra no Brasil pela fronteira com a Bolívia aumentou 200%.

    Na nova Constituição boliviana a coca é qualificada como um “recurso natural renovável da biodiversidade da Bolívia e fator de coesão social”.

    As ações de combate ao narcotráfico foram sendo paulatinamente extintas pelo governo de Evo Morales. Acabou com a política de incentivos a agricultores para substituir suas plantações de coca por plantações de café, cacau, banana e melão; e a agência antidrogas americana (DEA) foi expulsa do país em 2008.

    Apoio de Lula ao projeto “cocaleiro”

    A essa política não foi também alheia a diplomacia lulo-petista e, muito acentuadamente, o Presidente Lula.

    O governo brasileiro deu apoio imediato à expulsão da agência norte-americana de combate às drogas.

    No ano de 2009, no reduto político de Evo Morales e importante produtor de coca, Lula, sob o pretexto de assinatura de atos entre os dois países, transformou o evento em um comício a favor da reeleição do boliviano, num descarado gesto de intervencionismo.

    Com um colar de folhas de coca ao pescoço, e protegido por centenas de cocaleiros armados com bastões, Lula anunciou um empréstimo de 332 milhões de dólares do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para o trecho de uma rodovia na principal zona cocaleira da Bolívia, que só facilitará o escoamento da cocaína para o Brasil.

    Lula faz que não vê…

    À vista deste quadro, a prisão do xamã e assessor de Evo Morales, ganha relevo. Não se trata de um evento fortuito. Convido, pois, aos que acompanham o Radar da Mídia a ler a reportagem de Veja (4.ago.2010), intitulada O traficante que coroou Evo:

    “ O aimará boliviano Valentín Mejillones é considerado um sábio, um “amauta”. Dos oito irmãos da sua família, diz a lenda, foi o único que nasceu de pé. Em 2006 e em janeiro passado, em cerimônias realizadas nas ruínas da extinta civilização de Tiwanaku, foi ele quem empossou o presidente boliviano, Evo Morales, como guia espiritual da nação.

    Em nome dos indígenas do país, entregou um bastão de mando ao líder cocaleiro e colocou sobre sua cabeça um chapéu inca de quatro bicos. Entre as aptidões do sacerdote está prever o futuro das pessoas, observando como as folhas de coca caem sobre uma manta colorida. Tudo muito exótico, mas Mejillones ganhava dinheiro mesmo era com a comercialização da cocaína extraída da planta.

    Na semana passada, a polícia boliviana encontrou 350 quilos de cocaína líquida em sua casa em El Alto, vizinha à capital La Paz. O xamã, o seu filho e um casal colombiano foram presos. O material seria transformado em 240 quilos de pasta de coca e poderia ser vendido em São Paulo por 3 milhões de reais. Mejillones, segundo a polícia, exercia a função de vigilante. Ficava à espreita e avisava os demais toda vez que a polícia se aproximava.

    A prisão de Mejillones, um dos principais conselheiros de Evo Morales, foi um acidente inconveniente para o governo. Os vizinhos estavam incomodados com um cheiro forte de produtos químicos que saía da casa e reclamaram à polícia. Evo Morales foi eleito em 2005 defendendo a expansão do cultivo de folha de coca para preparar chás, mascar e produzir cosméticos e remédios.

    Esse discurso encobre uma realidade perversa. O mais recente relatório da Organização das Nações Unidas sobre a Bolívia, publicado no mês passado, estima que 64% da produção de folha de coca seja para o narcotráfico. Na região do Chapare, onde Morales foi reeleito em junho para a presidência das seis federações de cocaleiros, mais de 93% das folhas são transformadas em crack ou cocaína.

    Pressionado pela oposição por causa do crescimento da violência no país, Morales passou a dizer neste ano que ignorava o poder dos traficantes. Mejillones, ao ser preso, também usou a estratégia do não-sei-de-nada. “Fui enganado. Disseram-me que pretendiam fabricar comprimidos de ervas e pomadas”, explicou ele, referindo-se ao casal colombiano encontrado em sua casa.

    Não é a primeira vez que pessoas próximas a Morales são flagradas com drogas. Em 2008, suas amigas Elba e Juana Teran foram pegas com 147 quilos de cocaína, 20.000 dólares e um punhado de jóias na cidade de San Isidro. Elas são irmãs de Margarita Terãn, uma dirigente cocaleira do partido Movimento ao Socialismo (MAS), de Evo Morales.

    Duas estatísticas aparentemente díspares comprovam a ascensão do narcotráfico na Bolívia. A primeira: a área coberta por plantações de coca já é a maior dos últimos dez anos. A segunda: o preço das máquinas de lavar no país aumentou 50% nos últimos seis meses. O eletrodoméstico é usado para secar e transformar em pasta-base a cocaína liquida. Como o produto é muito ácido, o equipamento dura apenas uma semana. Por isso, na Bolívia, quando a demanda pelas lavadoras dispara, é sinal de que os laboratórios de cocaína estão expandindo sua produção.

    O presidente Lula faz que não vê a conivência de Evo Morales com o narcotráfico, cujo impacto na sociedade brasileira é evidente, da mesma forma que não deu importância às denúncias do governo colombiano sobre a transformação da Venezuela em refúgio das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). Na quarta-feira passada, Lula definiu a crise entre Venezuela e Colômbia como “conflito verbal” e, há duas semanas, disse que “as Farc são um problema da Colômbia”.

    O presidente colombiano Álvaro Uribe, às vésperas de deixar o cargo, emitiu uma nota afirmando que Lula ignora “a ameaça que representa para a Colômbia e o continente a presença dos terroristas das Farc na Venezuela”. Como demonstram os escândalos cocaleiros na Bolívia, há muitos outros fatos sendo ignorados pelo governo brasileiro na região. “

    Xamanismo e cocaína, duas faces de um projeto

    O mínimo que se pode dizer é que a diplomacia lulo-petista tem sido complacente com Evo Morales e seu processo político, que inclui entre outras coisas o incentivo à plantação de coca e, como se vê, ao narcotráfico, e o ressurgir de uma estranha espiritualidade xamânica, promovida por um Estado oficialmente laico.

    Não é difícil compreender o “sonho” que Lula acalentava quando aludia à possibilidade de Evo Morales vir a ser presidente da Bolívia.

    O ressurgimento das práticas xamânicas, e de velhas práticas e costumes indígenas (que incluem castigos físicos públicos, como chibatadas), bem como a proliferação da plantação e tráfico de cocaína são duas facetas entrelaçadas do projeto do “socialismo do século XXI” para a América Latina. Projeto que nada mais é do que a ressurreição do velho cadáver das ideologias comuno-socialistas (com roupagens autóctones).

    Premunir-se contra as tentativas de implantar no Brasil projetos semelhantes é uma necessidade. Ou seja, impedir que aqui se instale o “chavismo cordial” de que falou recentemente o insuspeito Arnaldo Jabor.

    Encerro este meu post com transcrição das palavras de Evo Morales, em que este parafraseia o slogan dos Fóruns Sociais Mundiais (“Outro mundo é possível”), palavras que bem sintetizam os ideais radicais tão bafejados por ele, Chávez, Correa, Lula, Ortega, Lugo etc.:

    “Quero dizer-lhes: assim como se brada permanentemente ‘outro mundo é possível’, também quero dizer-lhes que outra fé, outra religião, outra Igreja também são possíveis” (discurso no Fórum Social Mundial, janeiro de 2009, Belém do Pará).

    Para bom entendedor…