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Crédito: Editorial

Um drone carregado com explosivos foi encontrado, em agosto, numa área restrita do Aeroporto de Leipzig/Halle, importante centro de cargas da Alemanha e ponto utilizado na logística de apoio à Ucrânia. No mês seguinte, o governo alemão atribuiu a operação à Rússia. Moscou negou envolvimento, mas Berlim passou a tratar o episódio como parte de um padrão mais amplo de operações híbridas contra países europeus.

O dano material imediato foi limitado: partes do aeroporto foram fechadas temporariamente e foi aberta uma investigação antiterrorismo. A repercussão estratégica, porém, foi mais ampla. A Alemanha reforçou a proteção de infraestruturas críticas, discutiu medidas contra espionagem e sabotagem e reuniu seu Conselho Nacional de Segurança para examinar ameaças atribuídas a Moscou.

O caso ilustra um paradoxo da atual pressão russa sobre a Europa. Operações de sabotagem, incursões de drones, ataques cibernéticos e campanhas de influência podem gerar medo, consumir recursos e explorar divisões políticas. Quando, porém, são percebidas como expressão de uma ameaça comum, também podem levar governos a coordenar respostas, ampliar capacidades defensivas e recuperar estruturas de proteção civil antes relegadas a segundo plano.

O episódio convida a olhar além do aeroporto. A invasão da Ucrânia, as suspeitas de sabotagem e a preparação europeia para uma crise mais ampla trazem de volta uma pergunta que muitos julgavam pertencente ao século passado: até que ponto a paz pode ser preservada quando se negligenciam as condições morais e institucionais da ordem?

Para um leitor católico, a pergunta recorda a advertência de Nossa Senhora em Fátima. Ao falar da Rússia, Ela anunciou a difusão de seus erros pelo mundo, guerras e perseguições à Igreja caso seus pedidos não fossem atendidos. A mesma mensagem anunciou a conversão da Rússia e o triunfo de seu Imaculado Coração. É preciso recordar as duas partes da mensagem sem transformar cada incidente contemporâneo numa identificação automática com a profecia.

Da contenção da Otan à ampliação de sua fronteira com a Rússia

A invasão em larga escala da Ucrânia, iniciada em fevereiro de 2022, foi apresentada por Moscou, entre outras justificativas, como reação à expansão da Organização do Tratado do Atlântico Norte. Um resultado observável, entretanto, foi a entrada da Finlândia na aliança. Com isso, a fronteira terrestre da Otan com a Rússia cresceu em aproximadamente 1.300 quilômetros.

Esse dado não autoriza concluir que todos os objetivos russos tenham fracassado, nem que a Europa esteja unida de modo irreversível. A guerra prossegue, persistem divergências entre governos ocidentais, e o apoio à Ucrânia sofre pressões eleitorais, econômicas e sociais. Ainda assim, a ampliação da aliança contrasta com o propósito declarado de reduzir sua presença junto às fronteiras russas.

Em menor escala, uma inversão semelhante pode estar ocorrendo com a campanha híbrida atribuída ao Kremlin. Segundo análises citadas pela BBC, essas operações procurariam elevar o custo do apoio a Kiev, criar discórdia, testar a prontidão da Otan e permanecer abaixo do limiar que provocaria uma resposta militar coordenada. O centro de estudos Globsec identificou 151 casos de atividade russa contra a Europa entre fevereiro de 2022 e fevereiro de 2026, incluindo acusações de sabotagem, incêndios criminosos, vandalismo, distúrbios e tentativas de assassinato.

A atribuição desses episódios, contudo, nem sempre é simples. Especialistas observam que intermediários recrutados pela internet, pessoas sem vínculos formais com serviços de inteligência e embarcações registradas por empresas de fachada tornam as investigações lentas e juridicamente complexas. A Rússia nega envolvimento tanto no caso de Leipzig quanto em outros episódios. A incerteza sobre autoria, intenção e resposta adequada é, precisamente, um dos elementos que podem tornar eficazes as ações híbridas.

Perturbar sem desencadear guerra aberta

As operações descritas pelas fontes não precisam provocar grande destruição para produzir efeitos políticos relevantes. Um drone de pequeno porte pode interromper a atividade de um aeroporto, provocar um incêndio ou exigir ampla mobilização de segurança. Uma ação contra ferrovia, cabo submarino ou instalação energética pode impor custos muito superiores aos recursos empregados para realizá-la.

O jornal espanhol El Mundo informou que serviços de inteligência americanos teriam alertado governos europeus sobre uma possível operação russa com drones lançados de navios contra Espanha, França ou Itália. A reportagem se baseia em fontes anônimas próximas a autoridades de defesa e em analistas que afirmaram conhecer a circulação do relatório. No material fornecido, não há confirmação pública da CIA sobre seu conteúdo.

Segundo essa avaliação, drones Gerbera poderiam ser transportados em embarcações e lançados a algumas centenas de quilômetros da costa. Sua carga não seria suficiente para destruir grandes instalações, mas poderia interromper temporariamente portos ou aeroportos, danificar equipamentos expostos e evidenciar a vulnerabilidade da retaguarda europeia. O efeito pretendido seria, portanto, econômico e psicológico, além de militar.

A hipótese corresponde ao padrão descrito por especialistas ouvidos pela BBC: causar perturbações desproporcionais, explorar fragilidades políticas e testar os limites da resposta ocidental sem buscar deliberadamente uma guerra direta com a Otan. Esse cálculo, porém, envolve riscos próprios. Acidentes, mortes de civis ou interpretações equivocadas podem desencadear uma escalada não planejada por nenhuma das partes.

Da advertência à preparação concreta

As respostas europeias já ultrapassaram o plano das declarações. Depois do incidente de Leipzig, a França determinou a elaboração de um plano para proteger infraestruturas críticas, instalações da indústria de defesa e empresas de tecnologia contra drones e ataques cibernéticos. Ao reunir dirigentes partidários, o presidente Emmanuel Macron afirmou que as ações atribuídas a Moscou visariam intimidar os europeus e romper o apoio à Ucrânia, mas sustentou que produziriam o efeito oposto.

A Polônia, um dos principais corredores logísticos para o abastecimento da Ucrânia, mobilizou até 10 mil militares para auxiliar na proteção de infraestruturas após uma explosão numa linha férrea, em novembro de 2025, atribuída por Varsóvia à Rússia. Em janeiro seguinte, o governo polonês assinou contratos de mais de R$ 21 bilhões para sistemas antidrone ao longo de sua fronteira oriental.

A Alemanha elaborou um plano nacional que integra Forças Armadas, empresas, transportes, hospitais, infraestrutura e autoridades civis para um eventual conflito. O planejamento considera o papel do território alemão como base logística para o deslocamento de tropas e equipamentos ao flanco oriental da Otan. Berlim também estuda reativar estruturas médicas da Guerra Fria, entre elas instalações subterrâneas do hospital militar de Ulm.

Em âmbito continental, a União Europeia lançou, em março de 2025, uma estratégia de preparação para crises. O programa contempla estoques de equipamentos essenciais, fortalecimento dos sistemas de energia, telecomunicações, transporte e saúde, além da recomendação de que a população mantenha suprimentos básicos por pelo menos 72 horas. A Otan, por sua vez, publicou requisitos de resiliência destinados a preservar água, alimentação, energia, comunicações e assistência médica durante crises e conflitos.

Até a Suíça, que não integra a Otan e preserva uma política histórica de neutralidade, aprovou em 2026 uma estratégia para proteger infraestruturas, ampliar sua capacidade defensiva e enfrentar ataques híbridos. O governo suíço considera improvável uma agressão armada direta no futuro próximo, mas admite que drones e mísseis de longo alcance poderiam atingir seu território mesmo sem invasão terrestre.

A ameaça pode despertar; a conversão exige mais

A pressão russa pode estar despertando na Europa um legítimo instinto de conservação. Povos que haviam relegado a defesa civil a segundo plano voltam a pensar em reservas, hospitais, proteção de fronteiras e continuidade dos serviços essenciais. A intimidação, concebida para dividir, também pode tornar mais clara a existência de uma ameaça comum.

Esse despertar, porém, ainda é limitado. Comprar sistemas antidrone não equivale a restaurar uma ordem cristã; coordenar ministérios não equivale à conversão dos corações. Revolução e Contra-Revolução ajuda a compreender por quê: se a crise alcança tendências e ideias, sua resposta não pode permanecer somente no plano técnico. A autoridade precisa ser exercida com justiça; a liberdade, acompanhada de responsabilidade; e a solidariedade, traduzida em deveres concretos. 

A mensagem de Fátima dá a essa reflexão sua dimensão mais profunda. Nossa Senhora não convidou os homens a calcular datas de catástrofes, mas a atender a seus pedidos diante da perspectiva de guerras, perseguições e sofrimento. Recordar a advertência sobre a Rússia exige levar a sério os acontecimentos.

A Europa ainda enfrenta divisões, falhas defensivas e dúvidas sobre como responder a ações abaixo do limiar da guerra aberta. Não há motivo para anunciar um desfecho. Há, sim, uma lição presente: a paz não se conserva pela confiança de que o perigo permanecerá distante. Ela pede vigilância, instituições sólidas e homens dispostos a cumprir seus deveres. E, para quem contempla a história à luz de Fátima, pede também a conversão que nenhuma estratégia de segurança pode substituir.


Fontes consultadas

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