A verdadeira face do comunismo

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  • Plinio Maria Solimeo

Com o relativismo de nossos dias, as diferenças entre o bem e o mal e a verdade e o erro se diluem cada a vez mais. Há uma crescente tolerância, ou pelo menos grande indiferença diante de coisas que antes nos causavam aversão, como a homossexualidade, o amor livre, e mesmo o comunismo.

Por isso é salutar de vez em quando repisar fatos que nos mostram a maldade que há nisso, e a ofensa que faz a Deus, clamando por punição. Hoje, restrinjo-me ao comunismo, pois se está habituando a vê-lo apenas como uma forma diferente de regime político em vigor na China, Coréia do Norte, Cuba, Venezuela.  

Pouca importância se tem dado ao fato de que essa doutrina ateia, igualitária e antinatural perseguiu e continua a perseguir a Igreja Católica e o que resta de civilização cristã, com todas as suas consequências.

Dou um exemplo: a perseguição feroz e verdadeiramente animalesca que sofreu um seminarista no também comunista Vietnã, por ser fiel à sua fé. Trata-se do Pe. Rafael Nguyen [foto], 68 anos, atual vigário na Diocese de Orange, na Califórnia, como narrado pelo National Catholic Register[i].

*   *   *

O Vietnã foi colonizado pelos franceses em meados do século XIX. Depois da guerra da Indochina, em 1954, o país foi dividido em dois: o Vietnã do Norte, comunista, e o do Sul, mas não houve paz. Veio a guerra do Vietnã que terminou com a vitória comunista em 1975, e a unificação do país sob o comunismo com o nome de República Socialista do Vietnã, que perdura até nossos dias.

O cristianismo fora introduzido na região nos séculos XVI e XVII por comerciantes portugueses e holandeses. Quando chegaram os franceses, já havia algumas pequenas comunidades católicas na península. A partir de então, elas tiveram novo florescimento, de maneira que hoje, apesar do comunismo, 8% da população — seis milhões de habitantes —, professa a verdadeira religião.

Rafael Nguyen pertencia a essa minoria católica vietnamita, tendo nascido no Vietnã do Norte em 1952. A vida para sua família tornou-se muito difícil quando o comunismo dominou o país, pois os católicos eram perseguidos sem piedade. Ele se lembra ainda de que muitos anticomunistas à época eram enterrados até o pescoço, e depois decapitados por máquinas agrícolas que passavam por cima.

Para poder praticar livremente a religião, a família fugiu para o Vietnã do Sul quando Rafael era ainda pequeno. Embora lá houvesse liberdade, havia motivos de preocupação devido a guerra entre o norte e o sul. Aos sete anos, Rafael andava longa distância para acolitar a Missa. Isso despertou nele o desejo de se tornar sacerdote, pelo que, em 1963, aos 11 anos, entrou para o seminário menor. Aos 19 anos, prosseguiu ele os seus estudos no Seminário Maior de Saigon.

Com as contínuas investidas dos comunistas do norte, a situação de guerra se agravava. Explosões se sucediam por toda parte, fazendo com que o seminarista, que dava aulas de catecismo para crianças, tivesse que fazer com que elas se refugiassem embaixo das mesas quando o bombardeamento se avizinhava.

Em 1975 os americanos abandonaram o país, e os comunistas tomaram Saigon, último bastião de resistência, pondo fim à Guerra do Vietnã, e todo o país se tornou comunista. Os seminaristas tiveram de acelerar os estudos visando uma ordenação sacerdotal mais rápida. Rafael completou os três anos de teologia e de filosofia em apenas um, iniciando um estágio de dois anos preparatórios à ordenação.

Entretanto, os comunistas começaram a fazer um controle muito mais rígido sobre a Igreja, não permitindo que os seminaristas fossem ordenados. Na perseguição que se seguiu, Rafael foi preso em 1981 sob a alegação de que ensinava ilegalmente religião às crianças. Durante pouco mais de um ano ele esteve num campo de concentração na selva vietnamita, condenado a trabalhos forçados.

Quando não conseguia concluir a tarefa designada para o dia ou por alguma suposta “infração às regras”, era severamente espancado, além de lhe tirarem a comida. Narra ele que às vezes era obrigado a trabalhar em pé dentro de um pântano, com água até o peito, e onde as árvores densas bloqueavam a luz do sol.

Cobras, sanguessugas e javalis eram um perigo constante para ele e os outros prisioneiros. Entre eles havia dois sacerdotes que celebravam a missa em segredo, e ouviam confissões. Rafael ajudava a distribuir a Sagrada Comunhão aos prisioneiros católicos, ocultando as hóstias sagradas em maços de cigarro.

Libertado em 1986, ele resolveu fugir de seu país prisão. Com amigos, conseguiu um pequeno barco, e rumou para a Tailândia. Mas num mar muito agitado o motor falhou, tendo ele escapado por pouco de um naufrágio, até que conseguiram voltar para a costa vietnamita, e serem capturados pela polícia comunista.

O fugitivo foi novamente preso, e ficou na prisão por 14 meses. Lá ele foi submetido a uma nova tortura — choques elétricos. A dor era tão terrível que o fazia desmaiar. Ao voltar a si, por alguns minutos ficava sem saber quem era e onde estava. Apesar dos tormentos, o futuro padre Rafael descreve o seu tempo na prisão como “muito precioso”, pois rezava “o tempo todo, o que lhe ajudava confirmar a sua vocação”.

Quando foi liberto em 1987, fez nova tentativa de fuga visando chegar à Tailândia. O pequeno barco carregava 33 pessoas, incluindo crianças. Eles partiram e ao longo do caminho encontraram um novo perigo — piratas tailandeses  que roubavam os pobres refugiados, às vezes matando os homens, e estuprando as mulheres.

Se o barco conseguisse chegar à costa tailandesa, seus ocupantes receberiam proteção da polícia; mas no mar eles estavam à mercê dos piratas. Duas vezes o padre Raphael e seus companheiros encontraram os piratas. Eles apagaram as luzes do barco e fugiram deles. Essa tática afastava os atacantes, e o pequeno barco fez um percurso bem-sucedido.

Na Tailândia os fugitivos foram transferidos para um campo de refugiados, onde Rafael viveu quase dois anos esperando aprovação do pedido de asilo feito a diferentes países. Ali, eles tinham pouca comida, os alojamentos apertados e foram proibidos de deixar o lugar. “As condições eram terríveis”, comentou o padre Rafael. “A frustração e a miséria pioraram tanto que algumas pessoas ficaram desesperadas. Houve cerca de 10 suicídios durante meu tempo lá.

Rafael fazia o que podia para elevar os ânimos, organizando reuniões regulares de oração, e solicitando alimentos para os mais necessitados. Em 1989, ele foi transferido para um campo de refugiados nas Filipinas, onde as condições melhoraram. Seis meses depois, pôde ir para os Estados Unidos.

Em Santa Ana, na Califórnia, depois de tantas vicissitudes e à sua idade, ficou incerto sobre o que fazer. Estudou ciência da computação em uma faculdade comunitária. Resolveu então procurar um sacerdote vietnamita para orientação espiritual. Ele observa: “Rezei muito para saber o que fazer”.

Sua orações foram atendidas, pois sentiu que Deus ainda o chamava para o sacerdócio. Procurou o diretor vocacional da diocese, monsenhor Murray, que comentou: “Fiquei muito impressionado com ele e com sua perseverança na vocação. Confrontado com as dificuldades que suportou; muitos outros teriam desistido”.

Mons. Murray observou que outros padres vietnamitas e seminaristas sofreram um destino semelhante ao do padre Rafael no Vietnã comunista. Rafael entrou para o seminário São João, em Camarillo, em 1991. Embora soubesse um pouco de latim, grego e francês, aprender inglês foi uma luta para ele. Finalmente, em 1996, foi ordenado aos 44 anos.

O Pe. Rafael comenta que demorou para se ajustar ao choque cultural com a mudança para os EUA. Aí ele goza de liberdade, mas sente falta da cultura tradicional vietnamita, que mostra maior respeito pelos anciãos e pelo clero. Aliás, os vietnamitas mais velhos se preocupavam com a moral frouxa e o mercantilismo americano, e seus efeitos funestos sobre seus filhos.

Ele acredita que a forte estrutura familiar vietnamita e o respeito pelo sacerdócio e pela autoridade conduziram um número enorme de padres vietnamitas. Para o Pe. Rafael — sangue de mártires é semente de cristãos —  a perseguição comunista no Vietnã levou a uma fé mais robusta entre os católicos vietnamitas. Pe. Rafael tem alegria em servir como sacerdote: “É incrível que, depois de tanto tempo, Deus me escolheu para ser um sacerdote para servi-Lo e ao próximo, especialmente àqueles que sofrem”.


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[i]https://www.ncregister.com/blog/father-raphael-nguyen-profile?utm_campaign=NCR%202019&utm_medium=email&_hsmi=106929876&_hsenc=p2ANqtz-8m8RcXBuYL2lpvM_MPGHSIATtD8wgqg8ycDoRc27qLzKAFlpHwqY2WtsLS-JGRVBrmNLXAvr-gPltqPHrCBeNJF_pWBQ&utm_content=106929876&utm_source=hs_email

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