Ex-presos cubanos denunciam brutal violação dos direitos humanos. Por que ninguém os defende?

    Atilio Faoro

    O ambiente das prisões em Cuba é degradante, violento e imundo.

    O quadro de brutal violação de direitos humanos nas prisões cubanas ficou mais uma vez evidente pelos dramáticos depoimentos dos presos políticos que, após negociações entre a Igreja Católica e os governos espanhol e cubano, foram enviados à Espanha, na semana passada.

    O escândalo deveria levantar vozes indignadas de defensores humanitaristas de Norte a Sul do País. A começar pelos ativistas da Secretaria dos Direitos Humanos do ministro Vannuchi. Porém, isso não aconteceu.

    Um cenário brutal

    Ratos e baratas, água a cada três dias, comida podre, autoflagelação e excrementos pelo chão. Esse foi o cenário que os ex-presos políticos de Cuba enviados à Espanha na semana passada afirmaram haver enfrentado nos últimos sete anos que passaram encarcerados em presídios da ilha.

    “Convivíamos com ratos, baratas, lacraias e excrementos. E comíamos um almoço que vinha podre, feito 12 horas antes”, declarou Júlio César Rodríguez. Água, nunca tratada, era um recurso ao qual tinham acesso a cada três dias, por dez minutos. “Às vezes, com o calor, alguns companheiros sugavam de uma mangueira com a boca”, contou Omar Rodríguez.

    “Como nunca limpavam o banheiro, fizemos uma trilha para chegar ao vaso sanitário sem pisar em excrementos. Éramos totalmente saudáveis [antes da prisão], mas saímos de lá cheios de problemas”, disse. Para conseguir atendimento médico, presos recorriam à autoflagelação, disse Normando González.

    Condenação sem amplo direito de defesa

    Omar Rodrigues, agora na Espanha, foi condenado a 27 anos de prisão “por atividades contra-revolucionárias”. “Eles ameaçaram de condenar-me à morte. Diziam que iriam matar minha esposa e meus filhos. E não tinham nenhuma acusação concreta a lançar sobre minhas costas”.

    Omar descreve a “farsa” que foi o seu processo, com quatro outros detidos. “Durou doze horas. Eu não tive mais que cinco minutos para falar com meu advogado, um embriagado que tinha passado a noite em claro e que dormiu durante a audiência. Eu nem sequer fiquei sabendo o seu nome”.

    Omar Rodrigues fala também das condições inumanas nas várias prisões por que passou, encarcerado com os detentos comuns. Em Nieves Morejón, em Sancti Spiritus, por exemplo, o ambiente é degradante, violento e imundo: “Foi a primeira vez que vi a sodomia, o sangue, as agressões e os ratos que eram o dia-a-dia da prisão”. E depois, foi transferido para a prisão de Aguica, onde ele era o único preso político a compartilhar uma cela de seis metros por seis onde se amontoavam 24 prisioneiros!

    Duras críticas a Lula

    Em Madri, os dissidentes cubanos chamaram ao presidente Lula de populista e afirmaram que ele podia ter salvado a vida do preso político Orlando Zapata, que morreu por greve de fome em 23 de fevereiro de 2010, no mesmo dia em que Lula visitava Cuba. “Só que o Lula se aliou ao crime e não à justiça”, declarou o dissidente Omar Rodríguez.

    Lula foi alvo de duras críticas também do jornalista Guillermo Fariñas, que interrompeu uma greve de fome de mais de quatro meses pela liberação dos presos. “O Lula é um mal-agradecido. Esqueceu-se de sua essência humana. Sorte para o povo brasileiro que já não pode mais ser eleito”, disse Fariñas à “Folha de São Paulo”, por telefone.

    Está cada vez mais evidente que a campanha de defesa dos direitos humanos orquestrada pela dupla Lula-Vannuchi e apoiada por certos setores progressistas da Igreja católica tem mão e não tem contra-mão.