Uma das palavras da moda que dominam a Igreja Católica atualmente é “escuta”. Na Igreja sinodal, bispos e membros do clero são chamados a prestar especial atenção ao que os fiéis dizem sobre todas as questões candentes do momento. Desse modo, supostamente estarão em melhores condições de discernir para onde “o espírito” deseja conduzir a Igreja.
No entanto, “o espírito” não parece estar falando com clareza sobre algumas questões cruciais nos Estados Unidos de hoje. Ao que parece, por mais alto que os leigos gritem, não conseguem alcançar ouvidos clericais decididos a não ouvi-los.
A questão da imigração ilegal em massa
Em nenhum outro tema essa desconexão entre a hierarquia e os fiéis é mais evidente do que na questão da imigração ilegal em massa nos Estados Unidos.
De um lado, a maioria dos bispos fala em uníssono a favor dessa invasão assimétrica dos Estados Unidos e dessa flagrante violação de sua soberania. Ao fazê-lo, impõem aos fiéis sua posição equivocada de maneira nada sinodal.
Uma maioria considerável dos fiéis católicos se opõe à imigração ilegal em massa e deseja restrições razoáveis. Eles clamam em vão para serem ouvidos, mas os pastores continuam a ignorá-los. Mais uma vez, de maneira nada sinodal, a Igreja que escuta parece ouvir apenas o que deseja, atribuindo diligentemente “ao espírito” sua agenda esquerdista como meio de legitimá-la.
Assim, cresce uma grave divisão dentro da Igreja, enquanto os bispos se recusam obstinadamente a ouvir quem não aplaude suas opiniões sobre essa importante área da política oficial dos Estados Unidos.
Erguendo muros, não pontes
O resultado é uma situação que apresenta duas perspectivas. Bispos e clérigos católicos de esquerda mantêm, na teoria, uma consideração abstrata a respeito do imigrante. Pelo simples fato de ser humano, todo imigrante é considerado merecedor de todo benefício ou amparo, mesmo quando entra ilegalmente no país. Em vez de ser visto como alguém que invade o território e viola a lei, o imigrante ilegal é transformado na figura de uma vítima sofredora e oprimida, que se encaixa perfeitamente na teologia da libertação, o Evangelho segundo Marx. Nenhum outro fator é considerado suficiente para alterar essa perspectiva. As fronteiras devem permitir a entrada de “todos, todos, todos”, independentemente das consequências.
Relegados ao desamparo ficam os cidadãos católicos que enfrentam os resultados concretos de políticas liberais imprudentes de imigração, as quais perturbam a paz em suas comunidades e atentam contra o bem comum. Não há nada de abstrato em sua perspectiva. Embora sejam cidadãos do país, são eles que precisam sofrer. Fluxos tão maciços de imigrantes ilegais sobrecarregam a infraestrutura comunitária e a capacidade do Judiciário. Às vezes, incluem elementos criminosos. Essas políticas esquerdistas que destroem a nação também podem trazer para o país numerosos islamistas radicais, comunistas e muitos outros que nutrem hostilidade ideológica contra a Igreja e os Estados Unidos.
Transformando o debate em arma
Não surpreende que os católicos nos bancos das igrejas estejam demonstrando cada vez mais uma “opção preferencial pelo bom senso” e se deslocando para a direita quanto à imigração ilegal. Reportagens da imprensa afirmam, por exemplo, que 50% dos católicos apoiam um muro na fronteira, enquanto apenas 27% se opõem a ele. Ignorando a opinião da maioria, a Conferência dos Bispos Católicos dos Estados Unidos (USCCB) emitiu declarações contra a construção do muro fronteiriço em 2017, 2019 e novamente em 2023.
Outras estatísticas corroboram essa clara ruptura entre os bispos e os leigos quanto à imigração ilegal.
A esquerda católica afirma que os católicos conservadores ignoram o ensinamento da Igreja sobre o tema e, desse modo, desafiam a autoridade eclesiástica.
Comparações equivocadas
Massimo Faggioli chegou a comparar a atual imigração ilegal em massa à contracepção após a Humanae vitae. Quando essa encíclica papal foi publicada, em 1968, alguns leigos se revoltaram contra o ensinamento moral da Igreja de que a contracepção é “intrinsecamente má” e ingressaram, segundo Faggioli, em um “cisma informal”. De fato, foi muito informal, pois, tanto naquela época quanto hoje, os bispos raramente usam os sermões dominicais para recordar aos fiéis nos bancos das igrejas a condenação inequívoca da contracepção pela Igreja.
Os católicos conservadores devem rejeitar essa comparação. O ensinamento da Igreja sobre a contracepção envolve uma posição doutrinal de natureza moral que jamais pode mudar. Opor-se à imigração ilegal em massa, porém, não é “intrinsecamente mau”. A maneira de lidar com a imigração ilegal em massa envolve um juízo prudencial. Isso confere aos fiéis católicos — estejam ou não no governo — o direito de se opor a políticas equivocadas que viabilizam a imigração ilegal em massa. Esse direito se transforma em dever quando tais políticas colocam em risco o bem comum e a salvação das almas.
O dr. Faggioli também insiste em associar esses católicos conservadores aos pensadores pós-liberais, embora seja evidente que a maioria deles desconhece o pensamento desses intelectuais.
Usando o bom senso
O debate é, em grande medida e de maneira inadequada, enquadrado como uma disputa entre imigração ilegal em massa e deportação em massa.
Há uma maneira adequada de lidar com os imigrantes ilegais que respeita tanto a caridade com que devem ser tratados quanto as necessidades e os direitos de bom senso das comunidades locais.
A Igreja tem respostas para esses problemas sem recorrer a narrativas da teologia da libertação baseadas na luta de classes. O essencial é remover o sensacionalismo e a propaganda esquerdistas que cercam a questão e abordá-la pela verdadeira perspectiva de virtudes cardeais como a justiça e a caridade, e não pelo prisma esquerdista distorcido da ira e da revolução.
O ensinamento de Santo Tomás
Assim, Santo Tomás de Aquino ensina claramente que a imigração deve ter em vista duas coisas: a unidade da nação e o bem comum. O bem-estar dos cidadãos é a preocupação primordial, pois são eles que mantêm e financiam a ordem pública. Uma sociedade sobrecarregada por uma imigração desordenada jamais pode ser aceita em nome da justiça.
Quando a imigração ocorre, ela deve buscar a assimilação como objetivo, e não a segregação; jamais “um Estado dentro do Estado”. O imigrante não deve buscar apenas os benefícios, mas também as responsabilidades de ingressar plenamente na comunidade nacional. Ao tornar-se cidadão, a pessoa passa a integrar, a longo prazo, uma grande família, e não a ser acionista de uma sociedade por ações em busca apenas de interesses próprios de curto prazo.
A imigração proporcional sempre foi um desenvolvimento saudável para a sociedade, pois injeta nova vitalidade e novas qualidades no corpo social. Contudo, quando perde essa proporcionalidade e solapa a finalidade do Estado, ameaça o bem-estar da nação.
Explicando a inquietação
Isso explica por que tantos norte-americanos sentem inquietação diante de uma imigração maciça, desproporcional e ilegal. As políticas esquerdistas de imigração criam artificialmente uma situação que destrói os pontos comuns de unidade e excede a capacidade de uma sociedade absorver organicamente novos elementos em uma cultura unificada. Tais políticas podem até oferecer uma acolhida suicida àqueles que odeiam a nação e pretendem destruí-la. O bem comum é ignorado.
Quando isso acontece, seria bom “escutar” os sólidos conselhos de Santo Tomás de Aquino e os princípios bíblicos. A nação deve praticar a justiça e a caridade para com todos, inclusive os estrangeiros, mas deve, acima de tudo, salvaguardar o bem comum e sua unidade, sem os quais nenhum país pode perdurar por muito tempo. Não deve dar ouvidos a “espíritos” volúveis que criam divisões e debates mal formulados.
Fonte: The American TFP — https://www.tfp.org/when-it-comes-to-illegal-mass-immigration-a-listening-church-stops-listening
