Um míssil atingiu um prédio residencial em Priluki, no norte da Ucrânia, e matou ao menos 20 pessoas, entre elas cinco crianças. Outras oito mortes foram registradas em Kiev e em diferentes regiões durante o ataque russo de 7 de outubro, segundo relato publicado pela Folha de S. Paulo. Ao todo, a ofensiva teria empregado 70 mísseis e 46 drones a jato, atingindo também a infraestrutura energética do país.
O episódio mostra a realidade concreta que está modificando os cálculos de segurança na Europa. A guerra não se limita a uma disputa abstrata entre governos ou alianças militares: alcança edifícios residenciais, sistemas de energia e a vida cotidiana de uma população invadida. Ao mesmo tempo, seus efeitos ultrapassam as fronteiras ucranianas e levam outros países europeus a rever gastos, doutrinas de defesa e formas de preparação civil.
O retorno da preparação civil
Na cidade sueca de Grums, 37 voluntários participaram de um exercício de deslocamento para um bunker. O grupo incluía jovens, idosos, uma mulher com um bebê de dois meses e uma pessoa com mobilidade reduzida, transportada em maca. Conforme descrição da jornalista Lúcia Guimarães, a simulação procurava representar diferentes segmentos da população diante de uma eventual emergência.
Ainda segundo a mesma fonte, Suécia, Estônia, Lituânia e Letônia distribuíram a seus habitantes manuais com instruções para enfrentar uma possível incursão terrestre russa. O dado é significativo não porque demonstre que um ataque seja inevitável, mas porque revela uma mudança de mentalidade: governos e comunidades passaram a considerar, em seus planos concretos, situações que durante décadas pareceram remotas.
Essa preparação civil acompanha uma transformação mais ampla. Segundo o Instituto Internacional de Estudos Estratégicos, citado pela Folha, os gastos militares europeus cresceram mais de 90% em termos nominais entre 2021, ano anterior à invasão em grande escala da Ucrânia, e 2026. O crescimento não prova, por si só, a proximidade de uma guerra entre a Rússia e a Otan. Indica, porém, que a ameaça percebida já produz consequências orçamentárias e estratégicas de grande alcance.
O rearmamento também reabre desconfianças históricas dentro do próprio continente, sobretudo diante do peso adquirido pela Alemanha nesse movimento. A defesa europeia, portanto, não consiste apenas em acumular armamentos. Exige coordenação entre países com experiências, interesses e temores distintos, além de critérios capazes de subordinar os meios militares à finalidade legítima da proteção do bem comum.
Uma zona cinzenta de incidentes e acusações
O quadro torna-se mais perigoso com os episódios classificados como guerra híbrida, nos quais a identidade e a responsabilidade do agressor permanecem camufladas ou são objeto de contestação. A Folha menciona uma tentativa de explodir aviões na Alemanha, um incêndio em uma fábrica militar na Estônia e interrupções em aeroportos provocadas por drones. Países europeus acusam a Rússia, enquanto Moscou rejeita as imputações e as atribui ao que chama de hostilidade antirrussa.
As fontes disponíveis não permitem estabelecer definitivamente a autoria de cada episódio. Essa incerteza, longe de diminuir o risco, cria um problema adicional: como responder de modo eficaz e proporcional a uma ação cuja origem não está claramente demonstrada? Uma reação precipitada pode ampliar a crise; a ausência sistemática de resposta, por outro lado, pode encorajar novas provocações.
Há também registros de crescente atividade aérea. De acordo com Lúcia Guimarães, caças da Otan foram acionados mais de 400 vezes entre setembro de 2025 e setembro de 2026 para interceptar aviões ou drones russos. O número é apresentado pela articulista como parte de uma campanha de intimidação. Mesmo sem concluir que todos os incidentes obedeceram a um único plano, a frequência atribuída a essas operações ajuda a explicar por que a vigilância e a prontidão se tornaram elementos permanentes da segurança europeia.
Tecnologia e adaptação no campo de batalha
A guerra na Ucrânia também está alterando os meios de combate. Reportagem de O Estado de S. Paulo, produzida por jornalistas do The New York Times, descreve drones navais ucranianos equipados com mísseis terra-ar e capazes de transportar outros drones para mais perto de seus alvos. Segundo a publicação, essas operações contribuíram para afundar cerca de um terço da frota russa do Mar Negro.
O emprego combinado de robôs aéreos, marítimos e terrestres permite que uma força naval menor imponha perdas a um adversário mais poderoso. Estrategistas de outros países, segundo a pesquisadora Emma Salisbury, estão estudando a experiência ucraniana. Mas um comandante citado pela reportagem advertiu que a vantagem decisiva não está num equipamento isolado, e sim nas equipes capazes de se adaptar rapidamente.
Essa lição vale além do Mar Negro. Quanto mais acessíveis, móveis e autônomos se tornam os sistemas de ataque, mais difícil é identificar de imediato a origem de uma ação e calcular a resposta adequada. A inovação pode fortalecer a defesa de um país agredido, mas também aumenta a velocidade dos acontecimentos e reduz o tempo disponível para decisões políticas.
A sombra nuclear
A dissuasão europeia tornou-se mais ostensiva quando a França testou um míssil com capacidade nuclear. O presidente Emmanuel Macron acompanhou o lançamento e afirmou que a dissuasão nuclear francesa protege o país e continuará a protegê-lo. O Kremlin, por sua vez, criticou o teste, conforme a reportagem sobre o ataque à Ucrânia.
Em outro episódio mencionado pela Folha, o chanceler polonês sugeriu que a Otan exercesse pressão militar sobre o território russo de Kaliningrado, situado entre a Polônia e a Lituânia. Vladimir Putin respondeu recordando a possibilidade de emprego de armas atômicas contra uma ação dirigida ao território russo. A mesma análise considera improvável a concretização dessa ameaça, mas adverte para o perigo de entrechoques acidentais.
A lógica da dissuasão contém uma tensão inevitável. Para impedir o ataque, um país procura demonstrar capacidade e disposição de reagir. Contudo, cada demonstração pode ser interpretada pelo adversário como preparação ofensiva, provocando nova resposta. Forma-se assim uma espiral em que medidas concebidas como proteção aumentam simultaneamente a capacidade defensiva e o risco de erro de cálculo.
Isso não autoriza concluir que uma guerra direta entre Rússia e Otan esteja próxima. A própria análise da Folha observa que, embora alguns países aliados falem em risco iminente, a aliança não endossa essa avaliação. O perigo documentado está menos numa certeza de guerra do que no acúmulo de forças, ameaças e incidentes cuja combinação pode escapar ao controle.
Combatividade e princípios
A Europa prepara abrigos, amplia seus orçamentos militares, testa novos armamentos e acompanha a acelerada transformação tecnológica da guerra. Diante da agressão sofrida pela Ucrânia, tais providências podem constituir legítimos instrumentos de defesa.
Entretanto, nenhuma superioridade material será suficiente se o continente perder de vista a ordem moral que deve presidir o emprego da força.
Uma civilização verdadeiramente forte não se sustenta apenas sobre arsenais, mas sobre autoridades conscientes de seus deveres, povos dispostos ao sacrifício pelo bem comum e uma clara hierarquia de valores.
A paz não nasce da capitulação diante do agressor, nem de uma escalada movida pelo medo, pelo orgulho ou pelas paixões coletivas. Ela é fruto da ordem — de uma ordem fundada na justiça, na prudência e no domínio das paixões, capaz de defender o que deve ser defendido sem transformar a própria defesa em fator de desordem.
Mais do que preparar-se tecnicamente para a guerra, a Europa precisa reencontrar os princípios de civilização que dão sentido àquilo que pretende proteger.
Fontes consultadas
- Folha de S. Paulo — Crise entre Rússia e Europa entra em nova e perigosa etapa — Folha de S. Paulo, domingo, 4 de outubro de 2026
- Folha de S. Paulo — Europa se previne para agressão russa — Lúcia Guimarães* — Folha de S. Paulo, quinta-feira, 8 de outubro de 2026
- O Estado de S. Paulo — Em meio a tensões com a Rússia, França testa míssil com capacidade nuclear — O Estado de S. Paulo, quarta-feira, 7 de outubro de 2026
- Folha de S. Paulo — Rússia faz mega-ataque com mísseis e mata 28 na Ucrânia — Igor Gielow — Folha de S. Paulo, quinta-feira, 8 de outubro de 2026
- O Estado de S. Paulo — Drones navais usados pela Ucrânia revolucionam guerra travada no mar — Maria Varenikova e Nicolau Kulish, The New York Times — O Estado de S. Paulo, domingo, 4 de outubro de 2026




