Com a morte de Giovanni Cantoni [foto ao lado] desaparece uma das personalidades mais fortes do mundo católico italiano do final do século XX. Nascido em Piacenza em 23 de setembro de 1938, de uma família que sofreu as consequências da guerra civil de 1943-1945 (seu pai havia ingressado na República Social), Cantoni fazia parte daqueles jovens próximos ao Movimento Social Italiano que rejeitaram o regime político do país pós-guerra, fundado no mito da resistência antifascista. Suas referências culturais foram o filósofo idealista Giovanni Gentile (1875-1944) e o teórico neopagão Julius Evola (1898-1974). Separando-se de Evola, o escritor Attilio Mordini (1923-1966) estabeleceu em sua casa na via della Pergola, em Florença, um cenáculo de estudos católicos que atraiu alguns desses jovens, incluindo o conde Neri Capponi, o historiador Franco Cardini e o próprio Cantoni, que mais tarde ingressou nos Centros da Ordem Civil, surgidos em 1960, por iniciativa do padre Gianni Baget Bozzo (1925-2009), para contrarrestar a abertura da democracia cristã à esquerda.

No mesmo ano de 1960, por ocasião do centenário da unificação da Itália, Cantoni — juntamente com o conde e o estudioso piacentense Carlo Emanuele Manfredi — editou alguns escritos contrários ao Risorgimento, de autoria do sacerdote jesuíta Luigi Taparelli d’Azeglio (1793-1862), intitulados La libertà tirannia. Saggi sul liberalismo risorgimentale [Tirania da liberdade. Ensaios sobre o liberalismo do Ressurgimento]. De 1962 a 1966, dirigiu a seção de não ficção das Edizioni dell’Albero, fundadas em Turim por Alfredo Cattabiani (1937-2003). Nessa editora, ele publicou em 1964 a obra magistral de Plinio Corrêa de Oliveira, Revolução e Contra-Revolução. A publicação e divulgação deste trabalho continua sendo talvez o maior mérito de Giovanni Cantoni. Uma segunda edição veio à luz em 1972 e uma terceira em 1977, em ambos os casos na editora Cristianità, em Piacenza; em 1998 foi publicada uma quarta edição pela associação Luci sull’Est e em 2009 uma quinta, na Sugarco, por ocasião do cinquentenário da primeira aparição da obra no Brasil.

Enquanto isso, Cantoni havia se vinculado a seu colega piacentense Agostino Sanfratello que, após abandonar o neomarxismo dos Quaderni piacentini com o qual colaborava, abraçou completamente a fé católica e se tornou o líder carismático da oposição estudantil à Revolução de 68 que eclodiu na Universidade Católica de Milão. No final dos anos sessenta, Cantoni e Sanfratello fundaram a Alleanza Cattolica, da qual Sanfratello depois se separou.

Cantoni não completou seus estudos universitários, mas era um homem de vasta cultura, que gostava considerar-se acima de tudo um “filólogo”. Seu cuidado com os textos e notas era escrupuloso ao excesso. Basta pensar que a edição princeps de Revolução e Contra-Revolução, que ele anunciou para 1999, nasceu apenas 10 anos depois, devido à revisão meticulosa à qual ele queria submeter o trabalho. Essa atenção aos detalhes parecia obsessiva, mas contribuiu para uma formação cultural mais rigorosa dos jovens direitistas da época, propensos à superficialidade e à simplificação. Cantoni odiava a leviandade e o romantismo desses ambientes e queria se apresentar, mais do que como intelectual, como um “teórico da ação” severo e intransigente. Ele leu Gramsci e Lenin e, parafraseando o título de uma obra do revolucionário russo (Extremismo, a doença infantil do comunismo), gostava de repetir que “o moderantismo é a doença infantil do anticomunismo”.

Esse espírito intransigente levou-o a redescobrir e difundir o pensamento contra-revolucionário italiano e europeu. Em 1971, num encontro de jovens monarquistas em Monteombraro, perto de Modena, à pergunta “Quem mais é deles” (Dante, Inferno, canto X), ele respondeu com estas palavras: “O pensamento contra-revolucionário do século XIX e sua continuação em nosso século pela obra viva de Plinio Corrêa de Oliveira, Francisco Elías de Tejada, Rafael Gambra Ciudad, Marcel De Corte, Léon de Poncins e Gustave Thibon”. Cantoni gostava de citar o trecho no qual Plinio Corrêa de Oliveira — que mais tarde ele considerou seu mestre — definia o contra-revolucionário como aquele que “ama a Contra-Revolução e a Ordem Cristã, odeia a Revolução e a anti-ordem, e faz desse amor e desse ódio o eixo em torno do qual gravitam todos seus ideais, preferências e atividades”.

O contra-revolucionário — explicava Cantoni — “sabe que a maioria nem sempre está certa, assim como nem o Estado, nem o líder carismático, nem a nação, nem a raça, nem o proletariado estão sempre certos e, portanto, também sabem que nem mesmo o rei está sempre certo. A loucura de um mundo ‘iluminado’, cheio de oráculos ‘infalíveis’, parece evidente para ele, enquanto a infalibilidade autêntica, a autêntica vox Dei, é cercada por muitas precauções legítimas. Portanto, como um bom católico, de acordo com as leis da Igreja, ele concorda com o que, sob certas formas e sob certas condições, é proclamado por Pedro, assim como um bom monarquista grita sua ‘longa vida ao rei, apesar de tudo!’ e continua em sua luta pela ordem natural e cristã, certo de que, respeitando todo direito legítimo, normalmente conclui pela monarquia”.

Eu estava entre os jovens que ingressaram nesses anos na Alleanza Cattolica em Monteombraro. De 1973 a 1981, fui editor chefe da revista “Cristianità”, da qual Cantoni foi diretor efetivo. Naqueles anos, conheci Marco Tangheroni, Mauro Ronco, Alfredo Mantovano, Massimo Introvigne, Rino Cammilleri, Ettore Gotti Tedeschi, AttilioTamburrini e muitos outros que eram militantes da Alleanza Cattolica ou estavam próximos, os quais, em medida diversa, receberam uma influência benéfica. O encontro da Alleanza Cattolica com os Exercícios Espirituais de Santo Inácio foi decisivo. Pregado segundo o método do padre Francisco Vallet (1884-1947) pelo padre Ludovic-Marie Barrielle (1897-1983), após esses exercícios alguns jovens da associação, liderados por Don Piero Cantoni, irmão de Giovanni, entraram no seminário de Ecône. A saída deles, alguns anos depois, causou profunda dor ao padre Barrielle, que morreu em odor de santidade e considerou-se o cofundador do seminário ao lado de Mons. Lefèbvre.

Com a eleição de João Paulo II em 1978, Cantoni, que tinha grande confiança no novo Papa polonês, julgou que a Alleanza Cattolica deveria mudar sua estratégia, passando da “oposição” para o “entrismo”, como ele chamava, servindo-se do jargão trotskista, a colaboração com autoridades e movimentos eclesiásticos. Quais foram os motivos dessa reversão da estratégia? Cantoni citou frequentemente a frase do Conde de Maistre de que a “Contra-Revolução não é uma revolução com sinal oposto, mas o oposto da Revolução”. Aquele que conhecia tão bem, além do pensamento contra-revolucionário, a filosofia de Gramsci e Lenin, talvez tenha esquecido que à filosofia da práxis não se deve opor uma práxis com um sinal contrário, mas o oposto da filosofia da práxis, ou seja, o primado da Graça divina na vida de homens e povos. De fato, existe um perigo oposto ao do sobrenaturalismo, que é o do naturalismo, o qual, no nível espiritual, consiste em querer prever e planejar tudo, sem considerar a ação imprevisível da Graça, à qual é preciso abandonar-se docilmente. A expressão dessa nova estratégia “praxista” foi, em 1981, o apoio de Alleanza Cattolica ao referendo “mínimo” sobre o aborto promovido pelo Movimento pela Vida, sob a égide do episcopado italiano. Isso acarretava problemas legais e morais espinhosos e, em consciência, senti-me compelido a me dissociar dessa escolha. Fui, portanto, forçado a deixar a Alleanza Cattolica à qual havia dedicado, sem reservas, nove anos da minha vida. A história da associação após esses anos não me pertence e outros a escreverão. Para mim, esta é apenas a hora de rezar pela alma de Giovanni Cantoni, um italiano sério a quem tenho uma dívida de gratidão.

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(*) Fonte: “Corrispondenza romana”, 22-1-2020. Matéria traduzida do original italiano por Hélio Dias Viana.

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