Caro leitor,

Diante da discussão sobre a formação educacional e cultural no Brasil, reproduzo um artigo de Plinio Corrêa de Oliveira. Ele eleva o debate e vai ao seu cerne. Já em 1969, na Folha de São Paulo, ele indagava: “Cadê os jovens-chave em suas receptivas carreiras-chave para servirem de exemplo para edificar a Educação e Cultura de nosso país?


Folha de S. Paulo, 21 de dezembro de 1969

Sacerdotes, militares, juízes e mestres

Fim de ano. A mocidade se prepara febrilmente para os vestibulares. É a etapa suprema para a solução da magna questão: que carreira escolher? Inúmeros dentre eles fazem, no momento, o balanço último e decisivo entre os prós e os contras das várias carreiras em perspectiva. E naturalmente, cada qual fixa sua escolha em função de dados pessoais: os atrativos que sentem por esta ou aquela matéria, as promessas, as lutas e as incertezas de tal ou tal outra situação futura, etc. Entretanto, esta escolha afeta também — e altamente — o interesse nacional. É sobre este último ponto que convido o leitor para uma reflexão.

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É fundamental, para um país, ter os homens certos nos lugares certos. Isto importa — quanto ao dia de amanhã — em que, para as carreiras-chave, afluam o que poderíamos chamar os jovens-chave. Ou seja, os moços que a natureza e a educação dotaram do maior potencial de fé, de moralidade, de talento, de dinamismo, de intrepidez, de sadia obstinação no esforço e na luta. Se a compacta maioria dos moços assim dotados se orienta para um só (ainda que nobilíssimo) tipo de carreiras, deixará insuficientemente guarnecidos no futuro próximo, muitos postos-chave. E com isto o próprio futuro do país poderá periclitar…

Há certas carreiras de importância tal, que não basta ao país serem suas fileiras habitualmente preenchidas por homens capazes e probos. É preciso que, nas situações pinaculares dessas carreiras, haja bom número de pessoas de valor exponencial, aptas a resolver as situações críticas que a vida pública traz sempre e capazes, ademais, de elevar por seu exemplo o “tonus” da produção dos homens normalmente competentes que as lotam.

Cumpre aprofundar este último ponto. Um grande profissional difunde em torno de si como que uma luz, a qual comunica um redobramento de categoria e eficiência a toda a massa de seus colegas. No Brasil, por exemplo, muita gente bem dotada toca excelentemente piano porque temos Guiomar Novaes. Não a tivéssemos, e o “tonus” da produção artística dessa gente — entretanto bem dotada, insisto — seria de menor categoria. Assim, o efeito difuso da presença das figuras pinaculares em uma carreira ou profissão vai muito além da mera atuação individual dessas figuras. Tais pessoas elevam toda a sua classe.

Tudo isto posto, nasce uma pergunta: a mocidade brasileira se distribui harmonicamente pelas várias carreiras-chave?

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Serei concreto. Sem pretender fazer uma tabela de todas as carreiras-chave, quatro há que indiscutivelmente o são: o sacerdócio, as armas, a magistratura e o magistério. Em outros termos, um país que, nessas carreiras, tenha um pequeno contingente de homens exponenciais, está exposto a vegetar sem progresso autêntico nem verdadeira glória, nos períodos tranqüilos; e a sucumbir nos períodos tormentosos. Ora, não são de tranqüilidade os prognósticos para os dias de amanhã…

Assim, pergunto: essas carreiras contam, nas suas condições presentes, com todos os fatores para atrair à escola de um forte contingente de jovens-chave?

Compreendo bem que carreiras tão elevadas devem ser desposadas muito mais por ideal do que por vantagens pessoais. Mas é justo, é legítimo que um jovem idealista pense no apoio que deve a seus pais, e, excetuado o seminarista, à família que vá fundar. Essas quatro carreiras-chave, que perspectiva oferecem neste sentido? E, ademais, o que se faz em nosso ambiente, para suscitar, prestigiar e firmar esse idealismo?

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Prefiro não tratar — nas circunstâncias presentes — do espinhoso problema do sacerdócio. Isto é, da carreira mais alta, mais santa, mais admirável que seja dado a um homem trilhar. Doe-me por demais fazê-lo. E tenho para isto motivos tragicamente óbvios dos quais um salta aos olhos: é a extrema dificuldade de se indicar aos jovens, seminários em que a peçonha do progressismo não se tenha esgueirado, ou não se possa introduzir de um momento para outro.

Mas pensemos nas três outras carreiras. Uma característica de todo povo em ascensão, ou no fastígio, é que, em seu seio, o militar, o magistrado e o professor estão nimbados por uma auréola que iguala e supera as maiores dentre as maiores. O tipo humano que cada uma destas carreiras modela, é tido, em povos tais, não só por admissível e correto, mas por admirável, pleno, sublime. Povos assim cultivam uma profunda admiração, uma lúcida compreensão, um enternecido enlevo pelos trabalhos, pelas fadigas, pelas lutas que essas carreiras trazem. E se empenham em recompensar, de todos os modos cabíveis, os que nelas autenticamente se imolam.

Pergunto agora: isto é inteiramente assim na juventude do Brasil atual? — Respondamos com franqueza.

A mentalidade desenvolvimentista de largos setores de nossa mocidade tem um olho penetrante, o qual vê, com uma acuidade extrema, a importância da produção econômica, e o que há de atraente nas atividades técnicas, que esta exige. Porém, a acuidade do outro olho vai morrendo. Sim, o outro olho deveria ver — com clareza ainda maior — que o desenvolvimento plenamente humano supõe propulsão ainda mais forte nas coisas do espírito que nas da matéria. Ora em numerosos ambientes, o sentido da vida vai sendo cada vez mais o dinheiro. De onde, em muitas famílias uma propensão a encaminhar os jovens sempre mais para as carreiras lucrativas. Daí também uma tendência, nos orçamentos públicos e privados, a pagar fartamente os técnicos-chave da propulsão econômica. E a tornar, de medíocre para suficiente, a remuneração do militar, do mestre ou do juiz.

Considerem-se as presentes condições de vida de um juiz, militar ou professor sob o aspecto do lucro, não seria — com freqüência — mais vantajoso ser, já não digo um técnico, mas proprietário de um botequim muito bem afreguesado? Ora, pergunto, é isto justo, cabível, decoroso? Facilita-se, assim, a indispensável distribuição dos jovens-chave pelas carreiras-chave? Que futuro se nos prepara com este desenvolvimentismo caolho?

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A solução fundamental está, a meu ver, em que as famílias, a imprensa, o rádio, a televisão etc., promovam uma correção urgente deste fenômeno de “caolhização”. Que assim se reavive, em todos os setores da juventude, a admiração, um tanto esmaecida pelas carreiras-chave do desenvolvimento espiritual. E também em que — custe o que custar — nos orçamentos públicos e privados se faça um esforço urgente, sério, eficaz, para tornar essas carreiras muito bem remuneradas e atraentes.

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Uma objeção: a carreira militar contribui, como as de juiz e professor, para o desenvolvimento espiritual de um país?

A resposta exigiria um espaço de que não disponho. Brevissimamente respondo que sim. Um dos critérios para aquilatar o valor de um povo autenticamente pacífico é a intensidade de sua admiração pelas virtudes militares. Em certo sentido, nada é mais precioso do que a paz, mas a paz que importe numa subestima dos valores militares, se putrefaz. E a putrefação da paz… gera guerras.

Fonte: https://www.pliniocorreadeoliveira.info/FSP%2069-12-21%20Sacerdotes.htm

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