No momento, você está visualizando 20/09 Santo Eustáquio: a vitória que não vale uma infidelidade
Crédito: Editorial

Depois de regressar vitorioso a Roma, Eustáquio recebeu uma ordem que atingia o ponto decisivo de sua vida. O imperador atribuía o triunfo aos deuses e determinara que as autoridades civis e militares participassem dos sacrifícios de ação de graças. O comandante, porém, não compareceu. Sendo cristão, não poderia tomar parte no culto pagão.

Esse episódio dá unidade à tradição hagiográfica sobre Santo Eustáquio. O antigo general recuperara a posição, a família, a vitória e as honras públicas. Mas já não reconhecia nesses bens a medida suprema de suas decisões. Diante da exigência imperial, preferiu perder tudo novamente a negar a fé.

A vida de Eustáquio, sua esposa Teopista e seus dois filhos chegou até nós por meio de um relato repleto de acontecimentos extraordinários. A versão aqui utilizada foi publicada em 1876 pelo jesuíta Francis Xavier Weninger, que defendia sua historicidade e aludia a testemunhos antigos, sem identificá-los no texto fornecido. Por isso, convém acompanhar seus pormenores como parte de uma venerável tradição hagiográfica, sem apresentá-los todos como fatos historicamente comprovados.

Plácido, o general chamado à conversão

Antes do batismo, Eustáquio chamava-se Plácido. Nascido e educado no paganismo, distinguiu-se a serviço dos imperadores romanos e deu repetidas provas de capacidade militar, até alcançar uma posição elevada no exército. Embora buscasse glória por seus feitos, o relato ressalta que não possuía os vícios atribuídos ao ambiente pagão e mantinha uma conduta estimada.

Quando não estava em campanha, Plácido dedicava-se à caça. Durante uma dessas jornadas, encontrou um grande cervo e viu entre seus chifres o Crucificado, envolto em luz. Ouviu então Nosso Senhor chamá-lo pelo nome e ordenar-lhe que procurasse um sacerdote, recebesse instrução e fosse batizado com a esposa e os filhos.

Plácido obedeceu. No batismo, recebeu o nome de Eustáquio; sua esposa, antes chamada Tatiana, passou a chamar-se Teopista; e os filhos receberam os nomes de Agápio e Teopisto. A conversão, entretanto, não aparece como a consagração religiosa de uma carreira bem-sucedida. Ela muda a direção de toda a existência e prepara a família para uma fidelidade provada por perdas sucessivas.

A conversão como início da prova

Ao retornar ao lugar da visão, Eustáquio teria sido advertido de que uma grande luta se aproximava. A promessa de auxílio divino não significava que ele seria poupado do sofrimento, mas que não estaria abandonado durante a provação. Ele comunicou a advertência à família, e todos se dispuseram a aceitar o que a Providência permitisse.

Segundo a narrativa, doenças e infortúnios reduziram Eustáquio à pobreza, obrigando-o a deixar a cidade com a esposa e os filhos. Durante a viagem, Teopista foi separada à força da família pelo proprietário da embarcação. O homem morreu subitamente antes que pudesse fazer-lhe mal, e ela permaneceu em terra, sem saber o destino do marido e dos filhos.

Eustáquio prosseguiu a viagem com os meninos. Ao chegar a um rio sem ponte nem embarcação, decidiu transportá-los separadamente. Depois de levar o primeiro filho à outra margem, voltou para buscar o segundo. Do meio do rio, viu um leão carregar um dos meninos. Ao retornar, percebeu que outro animal selvagem havia levado o outro. Ambos, conforme o relato revelaria mais tarde, foram salvos por habitantes da região, mas o pai acreditou tê-los perdido.

O homem que estivera à frente de exércitos passou então a servir um camponês. Foram quinze anos de obscuridade, trabalho e combate interior. A mudança não era apenas exterior. Sem posição social, recursos ou vínculos familiares conhecidos, Eustáquio já não podia apoiar-se naquilo que antes lhe proporcionava segurança. Restava-lhe perseverar na confiança em Deus.

O reencontro depois de quinze anos

Ao fim desse período, uma invasão da Itália levou o imperador Adriano, como é identificado na narrativa, a recordar-se do antigo general Plácido. Enviados imperiais encontraram Eustáquio e o reconduziram ao comando do exército. Ele aceitou a responsabilidade, marchou contra o inimigo e obteve a vitória.

Durante o retorno a Roma, o exército acampou perto de uma aldeia. Dois soldados, sem saber que eram irmãos, começaram a conversar sobre a própria infância. Um contou que era filho de um grande general e que, durante uma travessia, fora carregado por um leão e salvo por pastores. O outro relatou que um lobo o arrebatara perto do mesmo rio e que camponeses o haviam resgatado. Pelas histórias, reconheceram-se e se abraçaram.

Teopista servia na casa diante da qual os jovens conversavam. Ao ouvir o relato e observar sinais pelos quais podia reconhecê-los, compreendeu que eram seus filhos. Os três procuraram então o comandante para pedir autorização para regressar a Roma. Enquanto Teopista narrava o que lhes acontecera, ela e Eustáquio também se reconheceram. A família, que se julgara definitivamente separada, estava novamente reunida.

Honras recuperadas, fidelidade conservada

O regresso a Roma parecia restituir a Eustáquio tudo o que perdera: família, carreira, prestígio e reconhecimento público. Justamente nesse momento surgiu a ordem para que participasse dos sacrifícios pagãos. Sua recusa mostrou que a conversão não fora uma experiência passageira nem uma devoção subordinada às conveniências da vida militar.

O mesmo homem que obedecera à convocação para defender o Império não aceitou obedecer quando a ordem exigiu um ato contrário à fé. Não se tratava de desprezo pela autoridade enquanto tal. O relato apresenta um comandante capaz de cumprir seu dever militar. Havia, porém, um limite superior: a autoridade imperial não podia ocupar o lugar devido a Deus.

Adriano teria tentado vencer a resistência de Eustáquio por meio de promessas e, depois, de ameaças. Como essas tentativas não produziram resultado, o general, sua esposa e seus filhos foram presos e lançados diante de leões. Os animais, entretanto, não os atacaram. Por fim, os quatro foram encerrados em um touro de bronze aquecido, no qual consumaram o martírio louvando a Deus.

A tradição acrescenta que permaneceram vivos por três dias e que, quando o instrumento de suplício foi aberto, seus corpos e suas vestes foram encontrados sem sinais de dano. O material fornecido apresenta uma divergência cronológica: a relação inicial dos santos do dia indica o ano de 188, enquanto a narrativa de Weninger situa o martírio em 120. Não há elementos suficientes para solucionar essa discrepância.

A verdadeira ordem dos bens

A vida de Santo Eustáquio não ensina que a honra, a capacidade profissional ou o serviço militar sejam bens desprezíveis. Ele empregou seus talentos no comando, aceitou reassumir suas responsabilidades e venceu a campanha que lhe fora confiada. O que sua conversão modificou foi a hierarquia desses bens.

Enquanto Plácido procurava a glória nas armas, Eustáquio aprendeu a submeter a carreira, a segurança e a própria vida à fidelidade a Cristo. Sua obediência a Deus não se manifestou somente no instante do martírio. Começou quando aceitou receber o batismo, continuou durante os anos de pobreza e obscuridade e alcançou sua expressão derradeira quando a recuperação das honras não conseguiu fazê-lo retroceder.

O ensinamento espiritual ligado à sua história insiste na confiança durante as provações. A recordação da assistência divina teria impedido Eustáquio de sucumbir ao desespero. Isso não elimina a dor nem torna facilmente compreensível toda perda. Indica, antes, que a fidelidade não pode depender exclusivamente do êxito visível.

Na tradição de Santo Eustáquio, a vitória militar é seguida por uma derrota aparente diante do poder imperial. Contudo, é justamente ao perder posição, liberdade e vida que ele preserva o bem que já não admitia negociar. A glória procurada por Plácido cede lugar à obediência de Eustáquio, e essa obediência, provada até o martírio, torna-se a medida pela qual todas as demais honras devem ser julgadas.


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