Há um erro particularmente perigoso para quem preza a ordem: confundir ordem com simples demonstração de força.
A força é necessária. Um Estado que não consegue proteger suas fronteiras, perseguir criminosos ou fazer respeitar a lei, deixa de cumprir parte essencial de sua missão. Mas a força só produz ordem duradoura quando permanece subordinada à lei, à prudência e a objetivos políticos claros. Fora disso, pode destruir muito sem necessariamente construir coisa alguma.
É precisamente esse dilema que começa a aparecer na nova ofensiva de Donald Trump contra o crime organizado na América Latina.
O problema enfrentado é real e gigantesco. Cartéis e facções transnacionais movimentam drogas, armas e dinheiro através de continentes, corrompem agentes públicos, controlam territórios e desafiam abertamente a autoridade do Estado. PCC e Comando Vermelho há muito deixaram de ser problemas exclusivamente brasileiros.
A novidade está no método escolhido por Washington.
De polícia a guerra
Em março, o governo americano lançou a Coalizão Anticartéis das Américas, formada por 19 países e concebida para coordenar o combate às grandes organizações criminosas do continente.
Segundo reportagem de Lourival Sant’Anna publicada pelo Estado de S. Paulo, Guatemala, Honduras, Jamaica, Colômbia e Equador haviam aceitado algum nível de emprego de militares americanos em seus territórios. A situação, porém, não é inteiramente uniforme.
Em atualização publicada em 24 de agosto, a Associated Press informou que o governo dos Estados Unidos dizia ter acordos para operações conjuntas com Colômbia, Guatemala e Honduras, mas registrou que a Guatemala negava ter chegado a esse entendimento.
A Colômbia, após a posse de Abelardo de la Espriella, aproximou-se da iniciativa americana. O Equador já realizava missões conjuntas com os Estados Unidos desde março.
O secretário de Defesa, Pete Hegseth, deixou claro que Washington pretende ir além da cooperação policial.
Durante passagem pelo Panamá, declarou que os Estados Unidos querem produzir em terra o mesmo efeito das operações já realizadas contra embarcações suspeitas de transportar drogas pelo Caribe e pelo Pacífico. Comparou explicitamente as organizações do narcotráfico ao Estado Islâmico e à Al-Qaeda.
A campanha naval começou em setembro do ano passado. A reportagem do Estadão de 16 de agosto mencionava ao menos 59 ataques e 196 mortos. Em 24 de agosto, a Associated Press já contabilizava mais de 60 ataques e mais de 210 mortos.
PCC e Comando Vermelho entram na lógica antiterrorista
Para o Brasil, essa mudança deixou de ser abstrata.
Em 28 de maio, o Departamento de Estado americano anunciou a classificação do Primeiro Comando da Capital e do Comando Vermelho como Specially Designated Global Terrorists e comunicou a intenção de enquadrá-los também como Foreign Terrorist Organizations, classificação que entrou em vigor em 5 de junho.
A decisão amplia consideravelmente os instrumentos financeiros, policiais e diplomáticos que os Estados Unidos podem empregar contra pessoas e organizações relacionadas às facções.
O governo americano justifica a medida pela violência dos dois grupos, pelo alcance internacional de suas redes e pela participação no tráfico de drogas. Ninguém seriamente informado pode negar a gravidade dessas organizações.
A questão é outra: reconhecer a existência de um inimigo perigoso não resolve automaticamente a discussão sobre quais meios são legítimos, eficazes e prudentes para combatê-lo.
Segundo reportagem da Reuters, a classificação ocorreu após articulações que incluíram uma visita do senador Flávio Bolsonaro a Washington. O senador defendeu publicamente o enquadramento das facções brasileiras como terroristas e manifestou simpatia pela ofensiva militar americana contra o narcotráfico.
A matéria do Estadão observa ainda que uma eventual adesão brasileira à coalizão poderá transformar o assunto em tema relevante da política externa do próximo governo.
Bombardear traficantes resolve o narcotráfico?
É nesse ponto que surge uma distinção essencial.
Uma força militar pode destruir uma lancha. Pode eliminar um chefe de cartel. Pode bombardear um laboratório. Pode fechar uma pista clandestina.
Mas um cartel não é apenas um conjunto de homens armados.
Ele possui contadores, empresas de fachada, operadores financeiros, funcionários corrompidos, redes logísticas, conexões em portos, advogados, informantes e relações com fornecedores e compradores em vários países. Se sua estrutura econômica e institucional continuar intacta, a morte de um chefe pode simplesmente abrir espaço para outro.
Andrés Oppenheimer chamou atenção para esse problema ao analisar a ofensiva americana. Em sua avaliação, operações militares podem produzir resultados táticos importantes sem eliminar as condições que permitem aos cartéis recompor suas redes.
Combater organizações dessa dimensão exige também inteligência financeira, polícia especializada, controle de fronteiras, cooperação entre Ministérios Públicos, fortalecimento do Judiciário, combate à corrupção e investigação de lavagem de dinheiro.
Esse argumento não significa defender fraqueza diante do crime. Significa perguntar qual espécie de força realmente enfraquece o criminoso.
O combate aos cartéis faz parte de algo maior
Seria um erro, contudo, analisar a ofensiva antidrogas isoladamente.
Ela se encaixa numa transformação mais ampla da política americana para o Hemisfério Ocidental.
Juan Pablo Segura, que assumiu em 14 de agosto o posto de secretário-assistente de Estado para Assuntos do Hemisfério Ocidental, enumerou três grandes prioridades durante sua sabatina: combater cartéis e narcotraficantes, conter a influência chinesa e pressionar por mudanças políticas na Venezuela.
A segurança de portos também entrou no centro dessa estratégia.
A preocupação com a China não é imaginária. O controle de portos, telecomunicações, redes digitais e outras infraestruturas críticas por uma potência estrangeira pode criar dependências estratégicas reais.
A força que intimida pode também desgastar a confiança
Esse problema não se limita à América Latina.
Nas últimas semanas, a política externa americana ofereceu exemplos sucessivos de decisões abruptas, ameaças, recuos e novas ameaças.
No conflito com o Irã, Trump repetiu diversas vezes que um acordo estava próximo. A guerra, porém, prolongou-se, e a disputa pelo Estreito de Ormuz tornou-se um problema central para Washington.
O presidente chegou a anunciar publicamente controle americano sobre o estreito e publicou uma montagem apresentando a região como novo território dos Estados Unidos. Enquanto isso, o tráfego marítimo permaneceu muito abaixo dos níveis anteriores ao conflito e os países do Golfo procuraram construir seus próprios entendimentos de segurança.
Na Ásia, Trump determinou a redução de exercícios militares conjuntos com a Coreia do Sul enquanto procurava reabrir o diálogo com Kim Jong-un. Poucos dias depois, anunciou a intenção de encontrar-se novamente com o dirigente norte-coreano.
Também no comércio exterior o método das ameaças sucessivas tem sido evidente. Em 20 de agosto, Trump anunciou que havia suspendido uma tarifa de 50% contra o Canadá depois de dizer que os dois governos tinham chegado a um entendimento. As negociações voltaram a deteriorar-se posteriormente e a disputa comercial foi retomada.
Nada disso significa que toda ameaça seja vazia. Pelo contrário: os Estados Unidos dispõem de força econômica e militar suficiente para fazer com que qualquer ameaça presidencial seja levada a sério.
Justamente por isso, a previsibilidade possui enorme valor.
Fareed Zakaria chamou atenção para esse aspecto ao argumentar que a credibilidade acumulada pelos Estados Unidos ao longo de décadas foi uma forma de poder tão concreta quanto navios, bases ou aviões.
Um aliado que acredita numa garantia americana pode organizar sua defesa contando com ela. Um adversário que acredita numa advertência americana pode recuar antes do confronto.
Quando ninguém sabe se uma promessa continuará válida ou se uma ameaça será abandonada alguns dias depois, países começam a construir alternativas.
Não necessariamente porque se tornaram inimigos dos Estados Unidos, mas porque não desejam depender de uma decisão imprevisível.
O custo também aparece dentro dos Estados Unidos
A política externa começa a produzir efeitos internos.
Pesquisa Reuters/Ipsos divulgada em 17 de agosto mostrou a aprovação de Trump em 33%, contra 64% de desaprovação. O índice está dentro da margem de erro em relação a levantamentos anteriores, mas representa o menor patamar registrado no atual mandato.
Na mesma pesquisa, 80% dos entrevistados disseram acreditar que a guerra com o Irã ainda durará muito tempo.
Inflação e combustíveis também pesam sobre a opinião pública americana. Isso é especialmente importante às vésperas das eleições de meio de mandato, nas quais toda a Câmara dos Representantes e um terço do Senado serão renovados.
Portanto, a política de força não ocorre num vazio. Ela tem custos militares, econômicos, diplomáticos e eleitorais.
A força não basta para conservar a ordem
A ofensiva de Trump parte de problemas reais. O narcotráfico corrói a autoridade do Estado; organizações criminosas transnacionais desafiam fronteiras; a penetração de potências estrangeiras em setores estratégicos pode criar dependências perigosas; e numerosos países latino-americanos demonstram dificuldade em defender a própria ordem interna.
Mas reconhecer corretamente uma desordem não significa ter encontrado o princípio capaz de restaurar a ordem.
A força tem seu lugar. Toda sociedade necessita de autoridade, e toda autoridade legítima deve possuir meios para fazer respeitar a lei. Entretanto, uma ordem sustentada apenas pela superioridade material contém em si mesma uma fragilidade: ela permanece estável somente enquanto aquele que a impõe conservar força suficiente para intimidar os demais.
É justamente aí que a questão da credibilidade americana adquire uma importância muito maior.
Quando ninguém sabe se uma promessa continuará válida ou se uma ameaça será abandonada alguns dias depois, países começam a construir alternativas. Não necessariamente porque se tornaram inimigos dos Estados Unidos, mas porque não desejam depender de uma decisão imprevisível.
Assim, aquilo que aparentemente demonstra poder pode, pouco a pouco, diminuir a autoridade. Os aliados procuram garantias fora da aliança; os adversários começam a calcular até onde podem avançar; e o equilíbrio entre as nações deixa de repousar numa confiança duradoura para depender de sucessivas demonstrações de força.
A ordem verdadeira não consiste na simples supremacia do mais forte. Ela pressupõe hierarquia, mas também proporção; autoridade, mas também legitimidade; força, mas subordinada a um princípio superior de justiça.
É precisamente este princípio superior que o mundo moderno procura substituir desde que começou a afastar a vida pública da ordem cristã.
Na perspectiva católica, a paz entre os povos não pode ser reduzida a um equilíbrio mecânico de armas, interesses econômicos e ameaças recíprocas. Ela depende, em última análise, de homens e instituições que reconheçam uma lei moral acima da vontade dos governantes e dos Estados. Os Dez Mandamentos não foram dados apenas para regular uma esfera privada da existência. Seus princípios — respeito à autoridade legítima, à vida, à propriedade, à família, à verdade e à palavra empenhada — constituem também fundamentos sem os quais nenhuma civilização permanece ordenada por muito tempo.
Quando essa ordem moral desaparece, o vazio tende a ser preenchido pela vontade humana transformada em medida de todas as coisas. A história moderna oferece sucessivas manifestações desse processo: a Revolução Francesa procurou reconstruir a sociedade mediante princípios abstratos desligados da tradição cristã; o comunismo levou a concentração política e econômica a extremos totalitários; a revolução cultural de 1968, simbolizada pela Sorbonne, voltou-se contra autoridades, costumes e hierarquias; e as transformações posteriores avançaram para formas cada vez mais radicais de igualitarismo e dissolução das estruturas sociais.
São revoluções diferentes, mas nelas aparece um mesmo ponto: pretende-se estabelecer uma nova ordem depois de rejeitar precisamente os princípios morais que poderiam ordenar o exercício da liberdade e do poder.
O resultado costuma ser paradoxal. Em nome da libertação da autoridade surgem novas concentrações de poder. Em nome da igualdade desaparecem hierarquias legítimas e aparecem outras, arbitrárias. O Executivo ultrapassa seus limites; o Judiciário passa a ocupar espaços que não lhe pertenciam; costumes que sustentavam espontaneamente a vida social precisam ser substituídos por uma quantidade crescente de normas, controles e coerções.
A pergunta é se a força americana está sendo colocada a serviço de uma “ordem”
Uma potência que pretende exercer verdadeira liderança precisa inspirar algo mais duradouro do que receio. Precisa inspirar confiança.
E essa confiança não nasce apenas da capacidade de cumprir uma ameaça. Nasce sobretudo da certeza de que compromissos serão honrados, limites serão respeitados e o poder será exercido segundo princípios reconhecíveis e estáveis.
Em última análise, porém, nem a América nem o mundo encontrarão uma ordem autêntica simplesmente aperfeiçoando esse equilíbrio de forças. Enquanto Estados e sociedades recusarem a lei moral objetiva e a concepção cristã do homem, continuarão procurando mediante mecanismos políticos aquilo que depende antes de uma restauração moral.
A força pode conter momentaneamente a desordem. Pode derrotar um inimigo e até preservar uma fronteira.
Mas somente uma sociedade novamente ordenada segundo a lei de Deus poderá transformar autoridade em verdadeira ordem e equilíbrio em verdadeira paz.
Fontes consultadas
- O Estado de S. Paulo — A coalizão anticartéis de Trump — Lourival Sant’Anna — O Estado de S. Paulo, domingo, 16 de agosto de 2026
- O Estado de S. Paulo — Fim da credibilidade de uma superpotência — Fareed Zakaria, The Washington Post — O Estado de S. Paulo, sábado, 15 de agosto de 2026
- O Estado de S. Paulo — Bombas não conterão os cartéis — Andrés Oppenheimer* — O Estado de S. Paulo, quarta-feira, 19 de agosto de 2026
- O Estado de S. Paulo — Suprema Corte mantém sentença do presidente por abuso sexual — O Estado de S. Paulo, terça-feira, 18 de agosto de 2026
- Folha de S. Paulo — Taxa de aprovação de Trump cai para 33%, menor nível de seu mandato — Victor Lacombe — Folha de S. Paulo, terça-feira, 18 de agosto de 2026
- Folha de S. Paulo — Trump escolhe novo comando diplomático para América Latina — Isabella Menon — Folha de S. Paulo, quarta-feira, 19 de agosto de 2026
- Folha de S. Paulo — EUA impõem sanções à presidente do TPI e ampliam ofensiva contra tribunal — Folha de S. Paulo, quarta-feira, 19 de agosto de 2026
- O Estado de S. Paulo — Trump diz que é dono da América Latina — O Estado de S. Paulo, segunda-feira, 17 de agosto de 2026
- O Estado de S. Paulo — Trump anuncia que suspendeu taxa de 50% ao Canadá — AFP e AP — O Estado de S. Paulo, quinta-feira, 20 de agosto de 2026
- O Estado de S. Paulo — Trump diz que se reunirá com ditador norte-coreano Kim Jong-un até o fim do ano — O Estado de S. Paulo, quinta-feira, 20 de agosto de 2026
- O Estado de S. Paulo — Trump perdeu o controle da guerra — O Estado de S. Paulo, sexta-feira, 14 de agosto de 2026
- O Estado de S. Paulo — Irã fala em ‘mapa acordado’ com Omã para petróleo — Luisa Laval — O Estado de S. Paulo, segunda-feira, 17 de agosto de 2026
- O Estado de S. Paulo — Trump declara que Estreito de Ormuz é território americano — Laís Adriana, com NYT — O Estado de S. Paulo, quarta-feira, 19 de agosto de 2026
- O Estado de S. Paulo — Trump reduz exercícios com a Coreia do Sul — O Estado de S. Paulo, segunda-feira, 17 de agosto de 2026
- O Estado de S. Paulo — Coreia do Sul espera que Trump retome diálogo com Kim Jong-un — AP e NYT — O Estado de S. Paulo, terça-feira, 18 de agosto de 2026
- O Estado de S. Paulo — O risco Trump, hoje e amanhã — Eliane Cantanhêde — O Estado de S. Paulo, terça-feira, 18 de agosto de 2026




