Introdução — Em 20 de julho de 2026, o Departamento de Estado dos Estados Unidos divulgou o relatório “Cuba — A Capital do Comunismo do Século XXI”. Esse relatório de cem páginas examinou detidamente a história do conflito entre os Estados Unidos e Cuba desde a Revolução de Fidel Castro, em 1959. Esta é a última parte de uma análise da TFP sobre o relatório, dividida em quatro partes.
Em seu livro To Catch a Spy: The Art of Counterintelligence, James Olson, ex-chefe de Contrainteligência da CIA, opinou: “Nenhum serviço de inteligência estrangeiro me irritava mais do que a DI cubana (Diretoria de Inteligência, anteriormente conhecida como DGI, ou Diretoria-Geral de Inteligência). Era implacável, era ardilosa e, pior que tudo, era muito, muito competente. Além disso, a DGI era o instrumento preferido de Fidel Castro para executar sua vingança pessoal contra a CIA e os Estados Unidos.”
A avaliação de Olson é certamente digna de crédito. Um espião cubano teria muito mais facilidade para se misturar à sociedade dos Estados Unidos do que um espião russo. Em muitas cidades grandes — e até mesmo em algumas áreas rurais —, falar espanhol não chama a atenção. A presença de populações hispânicas expressivas em muitas cidades permite que um espião cubano obtenha facilmente moradia e as demais necessidades da vida cotidiana. A proximidade de Havana com os Estados Unidos permite que agentes da inteligência cubana reúnam, de seus próprios escritórios, enormes quantidades de informações sobre a vida cultural norte-americana.
Notável capacidade de encontrar soluções
No entanto, Cuba nunca agiu isoladamente. Antes de 1991, atuava com frequência em conjunto com a União Soviética e sob suas ordens. Desde a queda da União Soviética, Cuba tem contado com muitos aliados em sua luta subversiva contra os Estados Unidos. O relatório do Departamento de Estado, Cuba — A Capital do Comunismo do Século XXI, refere-se a essa rede obscura como a “Internacional Antiamericana”.
Cuba estabeleceu essa rede apresentando-se como vítima indefesa em um jogo de política de poder no mais alto nível. Com isso, elevou seu perfil entre as nações menos prósperas do mundo, sobretudo na América Latina e na África. Valendo-se dessa narrativa, até mesmo os aliados mais confiáveis dos Estados Unidos se uniriam para protestar contra qualquer ação norte-americana ostensiva dirigida a Cuba. Em termos simples, Cuba transformou-se no ponto focal de todas as facções antiamericanas ao redor do mundo.
Cuba dispõe de dois grandes trunfos nessa frente e está bastante disposta a compartilhá-los com outros inimigos dos Estados Unidos. Entre eles estão o atual Estado russo, a China, o Irã e diversas nações latino-americanas, além de atores não estatais — particularmente palestinos.
Os recursos de espionagem de Cuba
A principal de suas vantagens é a proximidade geográfica com os Estados Unidos. Isso faz de Cuba um excelente posto de escuta, bem como uma base para agentes de espionagem do mundo inteiro. Uma das desvantagens do bloqueio econômico a Cuba é que os Estados Unidos não exercem influência no país. Mesmo que os diversos órgãos de segurança norte-americanos saibam o que ocorre ali, não têm como limitar essas atividades. O simples fato de uma nação ser um incômodo constante para os Estados Unidos já basta para que Cuba receba seus representantes com todas as honras.
A segunda vantagem é um legado de sua longa relação com a União Soviética. Cuba conhecia intimamente os métodos da era da KGB. As técnicas de espionagem do período da Guerra Fria continuam eficazes. Cuba não apenas está disposta a empregá-las contra os Estados Unidos, como também deseja treinar e ajudar outros inimigos dos Estados Unidos a utilizá-las.
Cuba e a Rússia
Embora a Rússia atual conserve apenas uma fração da força da União Soviética, esse fato ampliou a importância de suas conexões confiáveis com Cuba. O relatório do Departamento de Estado delineia os parâmetros da relação atual.
“Cuba e Rússia mantêm uma parceria de inteligência extremamente ativa e em contínua expansão, definida pelas respectivas vantagens comparativas de ambas as partes. Em troca de crédito, energia, equipamentos militares e capacidades técnicas russas, Cuba oferece à Rússia uma localização privilegiada a apenas 145 quilômetros (90 milhas) da costa da Flórida, acesso a uma constelação de redes antiamericanas de ‘solidariedade’ e colaboração com a DI. À medida que Cuba se torna cada vez mais dependente da energia e da assistência russas, a Rússia procura aproveitar o aprofundamento dessa relação para revitalizar suas antigas redes de inteligência no Hemisfério Ocidental.”
Um aspecto particularmente interessante dessa relação é a expansão de empresas russas de tecnologia em Cuba. Isso oferece instalações fora do alcance do número crescente de inimigos da Rússia e muito próximas dos países alinhados à Rússia na Nicarágua e, até recentemente, na Venezuela.
A conexão chinesa
O Partido Comunista Chinês (PCC) também descobriu os benefícios de uma relação cordial com Cuba. Desde então, o PCC mostra-se disposto a fornecer a ajuda econômica de que Cuba carece desde a queda da União Soviética. Esse apoio assumiu várias formas: assistência direta ao governo, cancelamento de dívidas e dezenas de bilhões de dólares em investimentos empresariais. Em 2023, por exemplo, Cuba permitiu que a China construísse uma extensa rede de vigilância eletrônica. Em troca, a China forneceu vários bilhões de dólares a Cuba. Segundo um artigo recente do The Wall Street Journal, isso instala equipamentos chineses “dentro do alcance de escuta de dois comandos militares dos Estados Unidos responsáveis por supervisionar operações no Oriente Médio e na América Latina”.
Assim como Cuba, a China está disposta a utilizar suas instalações e sua experiência para ajudar inimigos dos Estados Unidos a consolidar o poder interno de seus partidos governantes. Como assinala o relatório do Departamento de Estado, “a China fornece aos regimes repressivos da região tecnologias de vigilância concebidas para sufocar a dissidência e marginalizar partidos de oposição favoráveis aos Estados Unidos”.
O PCC também é hábil em aumentar as tensões com os Estados Unidos em regiões que o país há muito considera seu “quintal”. Como adverte o relatório, “recentes jogos de guerra chineses envolveram cenários de combate na América Latina e no Caribe, refletindo a visão de Pequim de que a região poderia constituir um teatro viável em um futuro conflito com os Estados Unidos”.
A ameaça
Seria insensato da parte dos Estados Unidos negligenciar tais ameaças. Isso é especialmente verdadeiro diante do rápido crescimento da popularidade dos Socialistas Democráticos da América (DSA). Desde 2022, o DSA vem cortejando a liderança cubana. Tanto em 2023 quanto em 2025, o DSA enviou a Cuba quadros de sua liderança, que foram recebidos cordialmente.
É claro que, se o DSA não continuar acumulando força, esses esforços poderão não dar em nada. Por outro lado, se continuar ganhando influência política nos Estados Unidos no ritmo atual, muitos de seus membros ficariam satisfeitos em levar adiante o antigo objetivo de Cuba de enfraquecer os Estados Unidos e propagar sua Revolução para este lado do Estreito da Flórida.
Esse cenário é assustador e inaceitável. Nem mesmo uma mudança de regime necessariamente alteraria a situação. Se seguir o modelo da Venezuela, que manteve a maioria dos marxistas no poder, grande parte desse aparato permanecerá em funcionamento. Ninguém deveria observar as condições externas de Cuba e descartar sumariamente a ameaça. Cuba repeliu as ameaças dos Estados Unidos no início da década de 1960 e resistiu ao colapso da União Soviética em 1991. Poderia realizar o impossível mais uma vez, sobretudo se os Estados Unidos dormirem.
Fonte: The American TFP — https://www.tfp.org/cubas-role-in-the-wider-anti-american-espionage-network




