Sobre as eleições americanas de 2020, uma pergunta crucial: o “moderado” Joe Biden conduzirá os EUA à comunistização?

  • John Horvat II*

Entre os conservadores americanos, as recentes eleições transcorreram num clima de vaga defesa dos princípios cristãos, em um mundo cada vez mais paganizado. De acordo com os resultados apurados, nenhum dos dois lados prevaleceu. De fato, no mapa eleitoral nacional dos condados [os estados americanos são divididos em condados, equivalentes aproximadamente aos nossos municípios] permanece o mesmo vasto mar vermelho dos republicanos no centro (o mundo rural americano), com ilhas urbanas azuis dos democratas, que se repetem desde a eleição presidencial do ano 2000.

Este tem sido o curso da política norte-americana durante longo tempo, e em sua maior parte os eleitores veem as eleições como uma maneira de continuar vivendo como sempre viveram. Os EUA continuam produzindo eleições-gangorra — ora para a esquerda, ora para a direita — que ao longo do tempo acabam se compensando mutuamente, num espetáculo de frustração e polarização, mas sempre deslizando rumo à esquerda.

A América precisa mudar

As eleições deste ano apresentaram aspectos diferentes das anteriores, quebrando o processo político que costumava manter as coisas como sempre estiveram. As pessoas não conseguem mais concordar com as outras, ainda que em questões das mais comezinhas. Viverem juntas, numa nação dividida, vem se tornando muito difícil, para não dizer quase impossível. E a mensagem das eleições é que os americanos não podem mais viver como sempre viveram, precisam mudar.

Contudo, as mudanças propostas aos eleitores pela esquerda revelam uma agenda radical neopagã, que ataca frontalmente os valores cristãos ainda vigentes. A se manter o embate no campo político, o confronto de ideias irá tão-só num crescendo, até que acabará por arruinar o país.

Mudança moral necessária

As mudanças políticas habituais — ora para um lado, ora para o outro — não mais adiantarão. Basta considerar o grande número de americanos que votaram por candidatos que defendem: o aborto até o momento do parto; cirurgias transgênicas para menores; legalização da maconha, e até mesmo de drogas pesadas. Todas essas medidas vêm entrando dia após dia nos costumes da vida americana, transformando-a per diametrum. Favorecem sempre o mundo paganizado, que a esquerda idolatra.

Qual será então o rumo dos acontecimentos? A guerra de culturas continuará, a batalha pelos corações e mentes prosseguirá. Os americanos honestos têm a obrigação de recordar aos seus renitentes conterrâneos que o problema do país é principalmente moral; e uma profunda mudança cultural será necessária, caso se queira resolver a presente crise moral. Os americanos devem se convencer de que necessitam mudar pessoalmente o seu modo de ser, passando a outro que reflita as normas cristãs. E assim agindo, convergirem todos para uma vida virtuosa, única maneira de se chegar à harmonia social. Caso contrário, acabarão por corromper o que ainda resta de sadio na sociedade, corroído pela atual cultura hipertrofiada pelo sexo e pelo materialismo, destruindo vidas e famílias.

Os americanos não podem mais continuar vivendo como sempre viveram, pois a sociedade está cada vez mais concessiva à vida de pecado, destruindo o bem comum. A conversão aos Dez Mandamentos e aos princípios cristãos é a única solução, só isso pode frustrar os esforços da esquerda em “converter” o mundo à tirania socialista.

Onde entra Fátima nas eleições

Para os católicos, este apelo à conversão já é bastante conhecido, pois corresponde à mensagem de Nossa Senhora em 1917, advertindo em Fátima a humanidade para o desastre que viria num momento difícil, posterior ao grande conflito político da Primeira Guerra Mundial. Referindo-se aos “erros da Rússia”, o perigo indicado era o mesmo que agora ameaça o nosso país.

Contudo, a Mãe de Deus não nos trouxe um programa político, e a política não resolveu os problemas de um mundo em guerra. Pedia oração, penitência e emenda de vida, pois Deus já estava por demais ofendido, e o mundo não deveria continuar vivendo no pecado. O pedido de mudança de rumos foi veemente, e um ponto crucial dele foi a consagração formal da Rússia ao Coração Imaculado de Maria — o que, aliás, ainda não foi atendido.

Agora os EUA terão de enfrentar uma múltipla crise: a covid-19; a agitação social; a incerteza econômica; e uma agenda socialo-comunista radical — o que redundará em implicações políticas muito sérias. Todavia, essas ameaças extrapolam o poder dos políticos para resolvê-las. A única solução é o país se voltar para Deus, para Quem nada é impossível. Eis a grande lição de Fátima aplicável às recentes eleições.

Joe Biden vai comunistizar os EUA?

Não se sabe até que ponto é confiável o compromisso, publicamente assumido por Joe Biden, de “controlar os socialistas cabeças quentes” que se apoderaram do seu partido.

Há um segundo aspecto das eleições que deve ser considerado. Com a nação tendo de enfrentar todas essas ameaças existenciais, deveria ter havido um embate de grandes ideias sobre temas importantes, tais como a necessidade dos valores tradicionais familiares, o perigo das ideias comunistas e a falta de lei e ordem.

Acontecimentos patéticos centrados nesses assuntos pediam soluções ancoradas em princípios sólidos, e esses temas deveriam ter sido levantados nos debates. Entretanto, os eleitores não obtiveram o debate que mereciam. Os liberais e a mídia conduziram as eleições como uma competição de personalidades, como se tudo dependesse de temperamentos e simpatias.

O Partido Democrata evitou lançar como seu candidato quem pudesse assustar o público, como a exasperante Elizabeth Warren e o abrasivo Bernie Sanders, substituindo-os pelo ex-vice-presidente Joseph Biden, com pouca personalidade e discurso atraente para os moderados. No lado oposto, os maneirismos do Presidente Trump, um tanto atrevidos, amedrontaram muitos já golpeados pela crise da covid-19, pelas desordens públicas e pela incerteza econômica. Havia muita procura por uma saída fácil.

O nascimento da opção Biden

A narrativa da mídia defendeu a tese de que o sóbrio Biden, abrigado no seu escritório do porão, manteria as coisas como elas sempre foram. Prometia levar as coisas para a esquerda, mas devagarinho. Traria uma enxurrada de dinheiro do governo para um país em crise. Tornaria tudo moderado, não deixaria sua fé católica influenciar qualquer de suas decisões, mesmo quando envolvessem sérios problemas morais, como o aborto sob pedido ou o “casamento” de pessoas do mesmo sexo.

Assim nasceu a opção Biden, que devolveria a moderação ao país. O ex-vice-presidente garantiu aos eleitores que controlaria os socialistas cabeças-quentes, que tinham tomado conta de seu partido. Pensaria cuidadosamente antes de encher os tribunais ou fazer qualquer coisa mais radical. Se os democratas perderem as eleições finais para o Senado na Geórgia, em janeiro próximo um fraco e envelhecido Biden teria assim uma desculpa para resistir aos democratas radicais. Biden poderia então ser Biden, e não uma marionete da esquerda. Desta forma, a opção Biden seria uma escolha mais que otimista, com a qual todos viveriam felizes para sempre.

Diante de um mundo de incertezas, a opção Biden representava o que alguns pensaram ser a segurança da mediocridade: evitava movimentos abruptos que poderiam assustar os eleitores; oferecia a eles a ilusão de um sonho de olhos abertos; qualificava-a como a melhor solução possível; e ignorava os piores cenários do horizonte.

Como funciona o mundo real

O mundo real não funciona de acordo com hipóteses tão inocentes. A opção Biden contém em si todo o potencial para um desastre, muito além da imaginação de eleitores despreocupados que tentaram achar uma saída fácil. No caso de os democratas vencerem as eleições eliminatórias para o Senado, a esquerda radical poderia ter um cheque em branco para tocar sua agenda legislativa: anistia e cidadania para todos os 16 a 29 milhões de imigrantes ilegais; o new deal verde; transformar em estados Porto Rico e o Distrito de Colúmbia (nele está localizada a capital Washington); uma revolução climática histérica, que subverteria o American way of life; e também encher de esquerdistas a Suprema Corte.

Mesmo considerando sua pessoa “moderada”, Biden prometeu desfazer todas as mudanças da administração Trump. Os EUA retornariam ao Acordo Climático de Paris. Em todos os importantes assuntos sociais, se oporá às leis morais que devem governar as ações humanas, entre as quais as restrições anti-aborto até o nono mês de gestação. Será uma oposição aos esforços de incontáveis americanos, que batalharam duramente para erradicar este grande pecado coletivo contra a Lei de Deus. Como vice-presidente, em 2016, ele manifestou aprovação à nova lei de “casamento” entre pessoas do mesmo sexo. Se assumir o cargo, sem dúvida será um dos presidentes mais anticatólicos da história.

Uma vice-presidente radical

No currículo político de Kamala Harris nada há de moderado, e deve-se admitir que ela sempre favorecerá os radicais – como vice, ou eventualmente como presidente.

Muitos eleitores moderados não se dão conta de que Biden escolheu, para compor a sua chapa como vice-presidente, a senadora mais radicalmente esquerdista. Não há nada de moderado em Kamala Harris, que sempre favorecerá a posição mais radical. Não se pode esquecer a possibilidade de um presidente com mais de 78 anos não poder concluir o mandato, especialmente sabendo-se que ele já mostrou sinais de fraqueza e confusão mental. Desta forma, a vice-presidente radical pode ser convocada a tomar o posto do presidente “moderado”, e uma líder comunista governará o país segundo a plataforma marxista dos democratas. Os que procuraram evitar o marxismo radical, escolhendo a opção Biden, podem assim caminhar para as garras do nefando comunismo.

A melhor opção

Independentemente do resultado das eleições, é um fato inegável que milhões de eleitores escolheram a opção Biden como uma fácil saída para a presente crise. A probabilidade de a esquerda tomar o poder mostra bem que não há segurança na mediocridade. A irrealidade otimista não é uma opção viável e estável para o futuro dos EUA. Se um presidente ignora a lei moral para promover o programa político de seu partido, conduz ao desastre, pois as leis imorais são contrárias à natureza humana.

Não existe uma saída fácil para a crise atual. Tentar evitar sofrimento agora, apenas aumentará o seu efeito no futuro. Ao aceitar a opção Biden, a nação novamente perdeu o seu rumo. Os EUA precisam abraçar o sofrimento e se aproximar de Deus.

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* John Horvat é vice-presidente da TFP norte-americana, autor do best-seller Return to Order (Retorno à Ordem), no qual mostra como se pode escapar das garras da sociedade baseada apenas no materialismo produtivista e na intemperança frenética, oposta aos altos ideais medievais.

Fonte: Revista Catolicismo, Nº 840, Dezembro/2020. Este artigo foi traduzido por João Carlos Leal da Costa.

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